MUDE resgata memória do efémero Museu Industrial do Porto

"Museu Infinito" mostra as peças que fizeram parte do Museu Industrial e Comercial do Porto no fim do século XIX.

Fundamental para os historiadores, mas desconhecido para o público em geral, Joaquim de Vasconcelos fundou o Museu Industrial e Comercial, no Porto, em finais do século XIX. De vida curta e atribulada, dele restam os documentos que o fundaram em 1883 e os que o encerraram em 1899 e peças espalhadas por várias instituições nacionais. Parte deles foram escolhidos para resgatar a memória deste local numa mostra que pode ser vista até 27 de março no MUDE - Museu do Design e da Moda, em Lisboa.

Museu Infinito é o título desta exposição, comissariada pela historiadora de arte Sandra Leandro, que fez uma tese de doutoramento sobre Joaquim Vasconcelos. No seu espólio, encontrou cartas relacionadas com o museu que funcionou no Antigo Circo Olympico (Circo dos Cavalinhos) do Palácio Cristal e "prospetos de fábricas cujo espólio foi exposto no museu, tabelas, anúncios, a planta feita pelo historiador de arte", diz a curadora.

Sandra Leandro conta que Joaquim Vasconcelos é uma "paixão antiga". "Apaixonei-me aos 15 anos quando li um artigo do José-Augusto França." A investigadora diz que teve uma intuição de que o espólio do historiador estaria na Biblioteca de Coimbra, já que foi casado com Carolina Michaëlis, a primeira mulher a dar aulas na universidade. "Confiaram em mim para mexer em caixas que não estavam tratadas."

Foi ele que descobriu cientificamente os painéis de S. Vicente e o retrato de D. João I na Áustria

Joaquim de Vasconcelos fica órfão muito cedo e vai estudar para Hamburgo aos 10 anos. Em 1865 começa a trabalhar e a publicar os primeiros trabalhos, sobre música. "É por isso que ele é conhecido como o Joaquim dos Músicos", conta Sandra Leandro. Frequenta muito a ópera, por exemplo. No seu espólio, investigadora encontrou muitos programas de concertos de ópera no Teatro de São João do Porto.

Na história da arte, o seu trabalho é "colossal" diz Sandra Leandro, dando dois exemplos: "Foi ele que descobriu cientificamente os painéis de S. Vicente e o retrato de D. João I na Áustria".

O museu é fundado por decreto na véspera de Natal de 1883, por iniciativa de António Augusto Aguiar, em linha com a tendência então vigente na Europa - e pretende ser um complemento às escolas industriais e de desenho industrial da época. É desta época, a fundação do Museu das Manufaturas, hoje Victoria & Albert. Joaquim de Vasconcelos envia 1500 cartas para muitas indústrias em Portugal e no mundo solicitando coleções. A de chapéus responde muito positivamente e é um dos núcleos que está presente na exposição do MUDE. "Foi das que mais cedo aderiu ao museu".

Etnográfica por um lado (mas com os objetos a serem olhados pela perspetiva do design) e de protodesign por outro, o museu era o local onde se podia desenhar. "Ele tem a ideia de que tudo passa pelo desenho." "Os visitantes eram convidados a desenhar", conta Bárbara Coutinho.

O museu fecha em 1899, também por decreto (tal como o seu congénere em Lisboa) e terá "uma vida fantasma até 1927", nas palavras de Sandra Leandro. "Joaquim de Vasconcelos vai tentar que ele reabra". Ocasionalmente, recebe visitas.

"É particularmente relevante que seja o MUDE a realizá-la", considera a diretora, estabelecendo um paralelo entre a missão do museu fundado por Joaquim Vasconcelos - um local onde se pudesse ver a produção nacional - e o MUDE, o museu que conta a história do design português. E sublinha: "Há um hiato na musealização do design em Portugal."

Para esta exposição foram reunidos 300 objetos de diferentes tipologias que faziam parte da exposição original - Vista Alegre e faianças Rafael Bordallo Pinheiro, Fábrica de Sacavém e um núcleo da Fábrica das Devesas; chapéus e as suas formas; olaria popular portuguesa que está à guarda do Museu Nacional de História Natural do Porto e rendas do Museu Soares dos Reis. A seleção inicial tinha 800 peças, revela Bárbara Coutinho.

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