Morreu o encenador e dramaturgo João Silva

Foi o fundador do Grupo de Teatro Terapêutico Hospital Júlio de Matos. Morreu na segunda-feira

O encenador, dramaturgo e ator do Grupo de Teatro Terapêutico Hospital Júlio de Matos (GTT) morreu nesta segunda-feira. Em abril estreara Casulo, no Centro Cultural da Malaposta.

Natural de Lisboa, João Silva "faz o percurso de crescimento até à idade adulta entre o mundo operário mais informado e uma acomodada, mas atenta, burguesia da época. Frequenta o curso comercial e trabalha em escritórios", lê-se no programa da peça Limiar (2008).

Nos anos 60, começa a sua vida no teatro. Frequentou de 1961 a 1965 a Escola de Teatro da Casa da Comédia e é no final dessa década que que começa a sua ligação ao GTT do Hospital Júlio de Matos. A primeira peça levada à cena foi Óleo, de Eugene O'Neill. Em 1988 atuam pela primeira vez fora do hospital, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, com Neblina. Passariam depois por salas como o Grande Auditório da Culturgest, o Teatro da Trindade, o Meridional ou o Teatro Nacional D. Maria II, onde em 2013 apresetaram uma reposição de Metastasipolis.

O GTT conta com 18 elementos, metade homens e metade mulheres, tendo o mais novo 22 anos de idade e, a mais velha, mais de 60. São pessoas em regime de tratamento e/ou internamento no hospital Júlio de Matos (Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa), doentes em regime de tratamento ambulatório e ex-doentes da unidade hospitalar.

Há, inclusive, casos de pessoas que fazem parte do grupo, e que já não estão a ser submetidas a tratamento no hospital, afirmou à Lusa João Silva em abril último, quando da estreia de Casulono Teatro da Malaposta.

A atividade de teatro tem uma abordagem específica à doença mental, pois "obriga" os atores e demais participantes à disciplina e às regras do teatro, assim como, simultaneamente, aplica as regras terapêuticas.

O Grupo de Teatro Terapêutico nasceu em finais de 1968, da vontade de doentes, técnicos e agentes criativos do Hospital Júlio de matos, e de doentes do Pavilhão de Homens, inicialmente, que resolveram levar avante uma experiência de teatro, "numa época em que carrascos e censores castravam aos vivos as palavras, as ideias, as formas e as cores", numa referência direta à ditadura do Estado Novo.

"Os elencos são constituídos por atores com a experiência da doença mental e, quando necessário e adequado, por outros sem tal experiência, que podem ser profissionais de teatro, técnicos de saúde, estudantes ou voluntários de áreas diversas", diz a apresentação do projeto.

"Cada peça de teatro é trabalhada em criatividade e idêntico profissionalismo como as demais apresentadas por uma outra companhia, mesmo profissional", mas sem nunca descurar o lado terapêutico.

O projeto GTT "é simultaneamente uma terapia e uma libertação pela arte, o teatro", lê-se na sua apresentação.

Ao longo de 50 anos "o GTT apresentou dezenas de peças, participou em inúmeros atos culturais em teatros, escolas, universidades, fábricas e noutros estabelecimentos, resistiu a confrontos e imposições, aderiu cuidadosamente às alterações e às mudanças 'abruptas' da sociedade".

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