Momento punk em Belém, mesmo sem Beatles e sem se fumar erva

O encontro Escritores no Palácio de Belém juntou ontem alunos da Murtosa e Ricardo Araújo Pereira, com Marcelo Rebelo de Sousa como anfitrião. A sessão mais longa de sempre, garantiu o presidente da República.

A conversa começou tímida com os 40 alunos do 11.º e do 12.º da Escola Padre António Morais da Fonseca, da Murtosa. "Dos mais tímidos que tenho visto nestes encontros", especificaria Marcelo Rebelo de Sousa. Mas, como também notaria o presidente da República, "foi de longe a sessão mais longa de todas". Mais de duas horas. E, ao contrário das outras que a cada terça-feira junta escritores e alunos no Palácio de Belém por iniciativa do presidente da República, desta feita não houve perguntas sobre os textos do autor presente, Ricardo Araújo Pereira. "Aqui preferiram privilegiar um pouco de tudo", sintetizou Marcelo.

Um pouco de tudo foi desde o percurso escolar de Ricardo Araújo Pereira, passando pelos Gato Fedorento, a família, o Benfica, o mito de Perséfone, a Bíblia, Paul Auster, Álvaro de Campos, um texto do cubano Eduardo Heras León, Cyrano de Bergerac, as críticas ao acordo ortográfico ou a Donald Trump. Um pouco de tudo numa conversa em que Ricardo Araújo Pereira, ora em tom sério ora usando a sua veia humorística, mostrou a importância da leitura - "uma parte absolutamente central da minha vida" - sem que "ninguém me tenha encomendado o sermão", deixou claro.

Marcelo Rebelo de Sousa estava sentado na última fila de cadeiras que enchiam por completo uma das salas do Palácio de Belém quando, ainda durante "o aborrecido processo de distribuição" de 30 fotocópias do Soneto Já Antigo de Álvaro de Campos, surgiu a primeira pergunta: "Como é que um homem educado em escolas católicas se torna num perigoso esquerdista?". Ricardo refaz o seu percurso escolar para logo de seguida rejeitar o rótulo de "perigoso esquerdista": "Primeiro, não sou muito perigoso. É possível que diga coisas que são suficientemente de esquerda para que a direita não aprecie muito o que eu digo, mas não suficientemente de esquerda para que a esquerda goste. Faço o pleno para não ser apreciado por ninguém".

Seguiram-se cerca de dez minutos em o Soneto Já Antigo foi esmiuçado. "Olhar para essas 14 linhas e tentar perceber por que razão são aquelas palavras que estão lá e não outras, esse é um exercício que faço desde muito pequeno e esse exercício foi muito vantajoso para mim. Esse trabalho quase de detetive é absolutamente essencial para a gente ler não só o que está escrito no papel mas também para a gente ler as coisas que se passam à nossa volta".

Foi com a história de Cyrano de Bergerac - mas sem contar o final - que Ricardo Araújo Pereira explicou como "por acidente" quatro amigos (ele, José Diogo Quintela, Miguel Góis e Tiago Dores) deixaram de escrever para humoristas como Herman José e Maria Rueff e passaram a interpretar os seus próprios textos. Ou seja, explicou, tal como o feio Cyrano escrevia os textos e o jovem Cristiano os entregava a Roxane, numa joint-venture para conquistar a rapariga, também os Gato Fedorento quiseram saber se as pessoas se divertiam com os textos que eles escreviam ou com o facto de serem interpretados por Herman José e Maria Rueff. "O Gato Fedorento foi muito engraçado para nós de fazer. O impacto com a fama foi muito duro, súbito e bruto. Não estávamos muito preparados para isso", explicou o humorista, aqui presente na sua qualidade de escritor, que mais à frente na conversa brincaria com o facto de algumas das suas crónicas fazerem parte do programa de Português.

O mito de Perséfone vem à baila quando lhe perguntam se há algum tema intocável, quando se trata de escrever humor. Recusando a ideia feita de que não se brinca com coisas sérias, antes pelo contrário, confessou: "Nunca consegui encontrar uma maneira aceitável de pousar o olhar humorístico sobre esse momento de uma mãe perder uma filha". Já sobre o tema preferido, Ricardo Araújo Pereira elege sem hesitações a linguagem: "Gosto de palavras mais do que outra coisa qualquer". "Quase sempre", junta, após os risos, para voltar ao tom sério: "As palavras podem mesmo ser mais interessantes do que as coisas que designam. Por exemplo, se colhermos uma rosa, ela morre, enquanto a palavra rosa é para sempre". E junta todas as declinações em latim que a palavra pode ter, que Marcelo Rebelo de Sousa vai acompanhando, ao mesmo tempo que acena afirmativamente a cada uma.

O sketch Rústicos pelo Epicurismo, dos Gato Fedorento, referido durante as mais de duas horas de conversa, encerrou o encontro. Já na varanda do Palácio de Belém, um grupo de alunos protagonizou "o momento punk, algo equivalente aos Beatles a fumarem erva no Palácio de Buckingham", sintetizou Ricardo Araújo Pereira. No final do famoso refrão - "Nós vamos todos falecer,/Patinar, bater as botas. /Eu vou esticar o pernil, /Conviver com as minhocas. /Tu vais fechar a pestana /E fazer para sempre ó-ó./Nós vamos passar a ser húmus, /Que é uma espécie de cocó" - Ricardo Araújo Pereira não resistiu a comentar: "A minha comoção pelo facto de me terem feito esta surpresa só tem paralelo com o embaraço que causaram. Enquanto vocês cantam, aqui numa sala ao lado decorre um encontro ao mais alto nível, com o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Parabéns!"

Para Fernanda, uma das alunas do 11.º, este encontro não fica por aqui. Ela que já lera A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar e Reaccionário com Dois Cês, de Ricardo Araújo Pereira, diz que depois do humorista ter recorrido Às Mil e Uma Noites paramostrar a importância de uma história, esta será uma das próximas obras que vai ler. "Os livros dele, como esta conversa, abrem os olhos para a cultura", diz.

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