Moda dos concertos "tudo à volta" compensa

Os Arcade Fire, que tocam em Lisboa na próxima segunda-feira, juntam-se a uma tendência que ganha peso nas grandes digressões: vão atuar no meio do público. Ou quase.

Neste caso concreto, a indispensável viagem no tempo está longe de implicar um sacrifício - vamos recuar um quarto de século mas temos encontro marcado com Peter Gabriel e uma das suas mais espantosas digressões, a Secret World Tour, que se seguiu à edição do álbum Us (1992). Quando começou a encarar a conceção cénica dos espetáculos, Gabriel enfrentou um dilema: havia ambientes tão diferentes, quase antagónicos, entre canções, que, para o seu nível de exigência, parecia redutora a utilização de um só palco, convencional. Antes de prosseguir a história, cabe a indicação de duas pistas sobre Gabriel. A primeira remonta a 1980 e (por exemplo) ao concerto que deu no saudoso Pavilhão de Cascais - Peter e os músicos tinham surgido no meio dos espectadores, aproveitando a escuridão geral e uns fatos iluminados, antes de subirem ao palco. Era uma demonstração clara da "política de proximidade" que sempre professou e aplicou. A segunda diz respeito a um videoclip brilhante em que Gabriel, sempre abraçado a Kate Bush, já dava conta do seu apreço pelo "círculo": os dois cantores vão entoando Don"t Give Up sem precisarem de andar, uma vez que estão sobre uma placa giratória que os vai fazendo rodar, iluminando sempre aquele que está "no ativo" e jogando magistralmente com as sombras, os afagos, os consolos, os lamentos.

Diante do novo desafio, Gabriel convocou o designer canadiano Robert Lepage, que lhe propôs uma utilização alternativa ou complementar de dois palcos: o convencional, retangular, que tinha como "pano de fundo" um ecrã para a projeção de imagens, e um outro, redondo, a permitir ao público a tal observação a 360º. Estavam ligados por um corredor munido de uma passadeira que, quando era caso disso, transportava os músicos de um lado para o outro sem que eles tivessem de se movimentar.

Na primeira canção do show, Come Talk to Me, sobre a falta de comunicação, Gabriel sai de uma cabina telefónica no palco retangular (onde estão todos os instrumentistas) e tenta chegar ao palco circular, onde está a sua interlocutora, a cantora (convidada) Paula Cole. No segundo tema, Steam, cabe ao violinista Shankar estar sozinho "na outra margem".

Depois, em Across the River, aproveitando o título, Gabriel - que assume a figura de um barqueiro - e todos os outros são transportados para o palco que fica bem no centro do auditório. Lepage haveria de explicar a filosofia subjacente: "No palco tradicional, com as arestas, com frente e costas, caberiam as canções mais urbanas. No outro, bem no meio dos espectadores, pretendia-se um reforço da intimidade, da cumplicidade."

O concerto decorre de um lado e de outro, com o palco da inovação a ver "emergir" uma árvore e, mais tarde, a ver os músicos desaparecer por um alçapão que é, na verdade, um elevador. Quase não há fios à mostra e, sem que o público saiba, há camarins "sob a superfície". Esse palco dos 360º chega a ser coberto por uma cúpula, que separa o espetáculo dos encores, precisamente Don"t Give Up e in You r Eyes. No final desta, fica como epílogo feliz a saudação de despedida que Peter Gabriel pode fazer a toda a volta, depois de se ter disponibilizado, com os músicos, para troca de lugares, tocando em círculo e não em linha.

Mais exposição e mais receita

Muito provavelmente, não terá sido uma estreia na música ao vivo nas grandes salas - foi, presumivelmente, a primeira vez que esta ideia assumiu uma concretização tão completa, tão continuada e tão "filosoficamente" justificada. O "truque" pegou de estaca - basta pensarmos na decisão estratégica de Salvador Sobral ir cantar Amar pelos Dois longe do palco principal, rodeado pelos espectadores da última edição do Festival da Eurovisão, para reforçar o intimismo da cantiga.

Internacionalmente, há um marco incontornável - o U2 360º Tour, que durou de 30 de junho de 2009 a 30 de julho de 2011, passando por Coimbra a 2 e 3 de outubro de 2010. O arquiteto Mark Fisher concebeu um palco que o jornal The New York Times descreveu como parte inseto, parte nave espacial e parte catedral". O sistema sonoro e um ecrã gigante (cilíndrico e "mutante") estavam montados a 50 metros de altura, ligados a uma gigantesca estrutura metálica batizada como the claw (a garra). A resposta foi categórica: em dois anos consecutivos, 2009 e 2010, foi a digressão musical que maior receita gerou, acabando, já em 2011, por ser apontada como aquela que, desde sempre e à época, tinha conseguido. Claro que a margem de lucro diminuiu em função da tecnologia e dos meios envolvidos - cada espetáculo ficava, só nos custos fixos, cachets à parte, em 750 mil dólares. Mas, para a banda de Bono, The Edge & Cª, o mais importante foi ultrapassar as fracas vendas do álbum No Line on the Horizon.

Restam poucas dúvidas de que os músicos arriscam mais, na exposição contínua a que estão sujeitos. Além disso, são precisos reforçados esquemas de segurança, para o caso de algo correr mal - não é possível "escapar" para os bastidores de um palco que não tem traseiras... Por outro lado, o desenho de som e de luzes não pode "assentar" em palco sob pena de anular o "ecrã total" (passe a expressão) que se pretende oferecer aos espectadores que são, regra geral, os grandes beneficiados. Do ponto de vista comercial, essa experiência dos U2 constitui-se como paradigma para se poder afirmar que o número de bilhetes passíveis de ser postos à venda aumenta entre 20% e 25%. Ou seja, não espanta que mais bandas e cantores estejam a aproveitar o modelo.

Lisboa já testemunhou neste ano uma aventura neste sistema - o bem-sucedido concerto dos Metallica (o tal que incluiu uma homenagem a Zé Pedro). Agora, com os Arcade Fire de volta, não se espera menos - depois de um álbum chamado Everything (e, mais à distância, de outro que escolhia Reflektor como título), não espanta a reivindicação de poder ver tudo. Mas mesmo tudo.

Arcade Fire - Everything Now
Campo Pequeno, Lisboa
Segunda-feira, às 20.00
Bilhetes: entre 30 e 55 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.