Miguel Real: "O romance em Portugal é um albergue espanhol"

É um dos ensaístas portugueses que mais têm publicado nos últimos tempos, investigando mitos nacionais de várias épocas e da história da literatura. Na ficção, muitas vezes publicada em paralelo a investigações sobre um mesmo tema, são vários os títulos e cenários narrativos

O registo do novo romance de Miguel Real não é o habitual, daí que Cadáveres às Costas surpreenda pela forma como revela um conteúdo de violenta crítica à vida nacional. O autor confessa que se inspirou na "escrita torrencial à Saramago, à João de Melo, por vezes barroca, animada por longos parágrafos à Velho da Costa; exposição fragmentária à Lobo Antunes; algum vernacularismo à Mário Cláudio; respeito escrupuloso pela história passada à Fernando Campos, envolvendo-a de alguma ironia à Eça e alguma perda de gravidade à Sérgio Luís de Carvalho". Não esqueceu também a "irrupção de palavras e situações instintuais à Raul Brandão; na descrição das paisagens, algum lirismo à Garrett, o das Viagens." Em suma: "É um autêntico melting pot estético que pode ser apontado tanto como a verdadeira virtude do romance como a pior qualidade. O futuro o dirá."

Quando se lhe pergunta o que dirão daqui a cem anos sobre este seu romance, Real faz as contas: "Isso significa 2118. Se pensar no estado da literatura portuguesa há cem anos, 1918, constato que tudo o que era importante na literatura portuguesa (Brandão, Almada, Pessoa...) era considerado esteticamente desprezível pela crítica literária institucionalizada nos jornais, nas revistas e na academia. Até Eça era minimizado pelas grandes editoras. Quer dizer que o tempo da literatura é um, o tempo da sociedade é outro." Ou seja, conclui, "desconheço o que poderão dizer do romance daqui a cem anos. Gostaria que houvesse pelo menos um leitor que dele se lembrasse, e outro que o lesse". Mas não tem muita esperança de que isso suceda: "Dos romances atualmente publicados, não mais do que um, dois, três, ficarão na história como monumentos literários. Receio que o meu não fique."

De tão diferente da sua obra até ao momento, pode dizer-se que era o romance que lhe faltava escrever. Sim, confirma o autor: "Queria fazer um retrato realista da atual sociedade portuguesa." A razão foi clara e enuncia os temas enquanto faz uma longa radiografia ao romance, aos temas: os 200 mil jovens que emigraram desde o princípio do século (o narrador), a elite económica corrupta (D. Bartolomeu Peralta Perestrêllo), a mulher fútil das revistas cor-de-rosa (D. Mafalda), o jornalismo eticamente apodrecido ("o jornal que escorre sangue"), o passado sebastianista de Portugal (D. Nuno Álvares Pereira), os sonhos utópicos do 25 de Abril (Pai e Mãe), o espiritualismo new age misturado com crendice (Sancha), Fátima elevada a altar de superstição e idolatria (D. Consolação), o fundo-fundo permanente da cultura portuguesa do interior (as duas velhas de preto), o deputado mais votado ao interesse próprio do que ao bem comum (Martim), a eterna luta do pobre para sobreviver (Sr. Armandinho), a nova classe média amável, competente e generosa (Esmeralda), as memórias traumáticas da Guerra Colonial (João Paulo) e as novas gerações lusófonas obrigadas a subsistir nos meandros de uma sociedade com escassa mobilidade social (Contente Portugal), a tentativa de criação de uma nova Igreja Católica (bispo Passarinho, cónego Formigão) e a incapacidade de se fazer verdadeira justiça em Portugal (inspetora Roberta da Polícia Judiciária). "Todas as personagens cruzadas perfazem o retrato realista do Portugal de hoje, pessimista", diz.

Outro dos temas estruturais deste romance é a religião, através da crendice em Fátima. O autor compara-a a todos os grandes acontecimentos da história de Portugal desde o século XVII: "Foi um acontecimento falhado. Virou superstição e idolatria das mais puras, representadas no livro pela multidão crédula que se amontoa no Parque Eduardo VII em torno do solar-palacete de D. Bartolomeu."

Não deixa também de escrutinar a nossa história em todos os aspetos, desde Viriato aos líderes mais recentes, sem deixar escapar qualquer "herói" ao seu julgamento. É o caso, realça, "do jovem autor-narrador, que parte para Paris para se libertar dos cadáveres que arrasta: pai e mãe, os comunistas falhados, a aristocracia supérflua de hoje, o rasto passadista de uma antiga igreja e os sonhos políticos messiânicos". Não ignora também as muitas figuras vivas e fá-lo de uma forma nem sempre suave, podendo dizer-se que não perdoa a quem afunda Portugal: "Não se trata de perdoar ou condenar. O que foi feito não se pode alterar. Ficamos, sem dúvida, com "saudade" do que poderia ter sido um futuro diferente se as promessas de Liberdade do Liberalismo, da Democracia da República, da Ética do Estado Novo, da Igualdade do 25 de Abril, se tivessem cumprido." Nesta última data, Miguel Real hesitou bastante em incluir um "herói" do 25 de Abril, uma "espécie de Otelo Saraiva de Carvalho", evidenciando, "pela decadência da personagem, igual decadência dos ideais do 25 de Abril". Porém, a releitura de Os Memoráveis de Lídia Jorge fê-lo abandonar o intento.

Como o narrador de Cadáveres às Costas se apresenta como um escritor bastante hesitante, questiona-se se pretende reproduzir o que se passa com a atual literatura portuguesa. Real confirma: "Reflete o número extremamente abundante de publicação de romances, a maioria sem qualidade estética e importância cultural. O romance hoje em Portugal é um albergue espanhol - porventura também na Europa -, acolhedor de relatos e narrativas de todos os que acham que a sua experiência de vida e ideias são suficientemente importantes. Todos querem escrever romances, como na década de 60 todos queriam ser poetas." Porquê? "São modas culturais, vêm, vão e desaparecem sem deixar rasto. Presumo que em breve virá a moda da biografia, e todos farão biografias, auto e heteros", avisa. Quanto à inexistência de verdadeiro romance, a explicação é simples para o autor: "Toda a Arte alimenta-se de Transgressão estética e cultural - um romance que não transgrida nas ideias, ou na descrição de personagens, no estilo de escrita, na criação da trama romanesca... não vale a pena publicar-se. Perde-se na pequena trama sentimental."

O que esteve na origem deste longo travelling nacional é a questão final, que Miguel Real responde assim: "Talvez o motor da escrita tenha nascido de uma certa indignação moral devido à constatação de Portugal se ter tornado o país com maior índice de desigualdade social e económica na Europa. E de eu me saber totalmente impotente para alterar esta situação."

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