Memórias de Cavaco iniciam o regresso do livro político até Abril

As editoras apostam no que é garantido perante a crise. Se foi sucesso em 2016, vão buscar novos títulos dos mesmos escritores para 2017.

As memórias de Cavaco Silva será a primeira grande novidade do ano a nível de livros políticos, um entre os muitos que surgem anunciados pelas editoras logo ao início do ano. Um filão editorial que nos últimos tempos estava adormecido, mas que as memórias do ex-presidente da República vão reavivar a toda a força quando revelar a sua narrativa dos acontecimentos.

O anúncio relâmpago do lançamento foi feito ontem na apresentação das novidades da Porto Editora, sendo que além da certeza da sua publicação no fim de fevereiro, pouco mais se sabe sobre o conteúdo que prometem criar alguma polémica com esta espécie de regresso à vida ativa política de Cavaco Silva que estas memórias irão provocar. O DN sabe que o ex-governante já fixou a versão definitiva do manuscrito que entregou à editora e que só falta da sua parte aprovar alguns extratextos com fotografias. Quanto à editora, o livro está na fase de revisão e nos últimos acertos de paginação e capa.

A editora também tem outra "aposta" política, o segundo e último volume da Biografia de Jorge Sampaio, escrita por José Pedro Castanheira, cujas mais de mil páginas vão chegar às mãos do ex-presidente para a última revisão dentro de dias. Este livro será editado ainda antes das comemorações do 25 de Abril, e também promete várias revelações sobre o período em que Sampaio foi Presidente.

Nesta data vão convergir muitos outros livros políticos, uns a propósito da Revolução, como é o caso de Itinerário do 25 de Abril, de Raquel Varela, José Mateus e Susana Gaudêncio, onde se reúnem textos dos historiadores e testemunhos na primeira pessoa, que realçam os lugares e os momentos-chave. Também José Pacheco Pereira vai publicar mais um volume da coleção Ephemera, desta vez sobre os Autocolantes da Frente de Unidade Revolucionária. Sobre outros períodos da História de Portugal sairão Ditadura ou Revolução? A Verdadeira História do Dilema Ibérico nos anos decisivos de 1926-1936, de José Luís Andrade, que faz uma história paralela de Espanha e Portugal numa década política decisiva. A investigadora Vanessa de Almeida editará Mulheres da Clandestinidade, onde junta inúmeros testemunhos de mulheres que abdicaram de uma vida normal para combater o Estado Novo. Entre outros, será hoje apresentado por Jorge Sampaio o mais recente livro de Carlos Brito, Cadeia do Forte de Peniche - Como foi vivida.

Crise, mas sem novos valores

O regresso à edição faz-se em 2017 debaixo do pesadelo da crise de 2016, ano em que a maioria das editoras tiveram uma baixa nas vendas. Todas, à exceção do grupo 20/20, que graças ao thriller A Rapariga do comboio superou a faturação do ano anterior. E, se tudo correr bem, o livro que se segue de Paula Hawkins, ainda sem título em português (Into the water), pode muito bem ser a grande aposta deste ano, mesmo se não conseguir superar os mais de 116 mil exemplares do primeiro thiller. A aposta em autores estrangeiros continua a ser grande por parte das editoras, até porque a procura por novos valores nacionais parece estar suspensa e poucos são os escritores com que estão a trabalhar.

Entre os estrangeiros, o grande destaque vai para o novo de Paul Auster, intitulado 4 3 2 1, há sete anos sem publicar um romance puro, que será lançado em simultâneo com as edições de língua inglesa no fim do mês. Outra novidade inesperada é a publicação de O quarto enorme, um inédito em Portugal de E.E. Cummings, onde faz o relato sobre a participação na Grande Guerra em 1917, obra que celebra este ano o seu centenário.

Entre os romances históricos, destaca-se um que tem ligações a Portugal, A rapariga de Istambul, onde Nicole Dweck conta a história de uma portuguesa e dos descendentes que vai desde a Lisboa de 1544 até à Nova Iorque atual.

Nos sucessos garantidos está a adaptação do argumento para o filme Monstros Fantásticos e onde encontrá-los, de J.K. Rowling, que sairá no início de fevereiro. Ou Em Viagem Pela Europa de Leste, do Nobel Gabriel García Márquez, outro livro inédito onde se conhecerão as suas impressões das viagens que fez pela Europa de Leste na Guerra Fria. Outra aposta segura é a reedição de Silêncio, do japonês Shusako Endo, que teve direito recentemente a um filme que vai estrear dia 19 nos cinemas.

Outro regresso de um grande escritor é o romance Shylock é o Meu Nome, de Howard Jacobson, uma homenagem a Shakespeare. Ou o volume VII de A Torre Negra, de Stephen King, uma obra visionária - alegadamente próximo de Senhor dos Anéis, que também estreará no cinema este ano. Outra continuação é o quinto volume da série Crónicas dos Clifton, Mais Poderosa do Que a Espada, de Jeffrey Archer, que ganhou muitos leitores nacionais. Mais político é o regresso de Luis Sepúlveda com O fim da história, uma história bastante política de um comandante cossaco.

Num registo diferente é O Homem Duplo, de Philip K. Dick, que está a ser reeditado: Uma iniciativa que a Livros do Brasil também aposta, afinal, nas suas três coleções ressuscitadas só traz livros bons. É o caso da coleção Dois Mundos, com Os Indiferentes de Alberto Moravia ou Bairro da Lata de John Steinbeck; da renovada Coleção Miniatura com o brilhante Soldados de Salamina de Javier Cercas ou A louca da casa de Rosa Montero; ou da Coleção Vampiro, com A Morte da Canária de S.S. Van Dine, A dama do lago de Raymond Chandler ou do único policial de Israel Zangwill, O grande mistério de Bow.

Sucesso em português

Curiosamente, os autores que foram sucesso no ano passado - nacionais e estrangeiros - estão quase todos de regresso. É o caso de Frederico Lourenço, que em março terá nas livrarias o segundo volume da Bíblia traduzido do grego; ou da Prémio Nobel da Literatura de 2015, Svetlana Alexievich, que vai ter editado o impressionante relato dos jovens militares da União Soviética mortos no Afeganistão, no volume Rapazes de zinco; bem como o último Prémio Camões, Radouan Nassar que completa o seu trio de obras com a publicação de Menina a caminho.

As editoras ainda estão a apostar noutros valores seguros. É o caso de João Tordo, que fecha a trilogia de O luto de Elias Gro e o Paraíso segundo Lars D; de Maria Teresa Horta com a reedição de Ema, o primeiro romance da autora. E há os que romanceiam determinados períodos históricos, como Vento de Espanha, de João Pedro Marques, que retrata Lisboa no tempo da Guerra Civil de Espanha; Avenida do Príncipe Perfeito, de Filomena Marona Beja, que trata da participação portuguesa na venda de armas na guerra Irão-Iraque; de Moçalambique, de Manuel da Silva Ramos, que conta a história de um português que regressa a Moçambique 20 anos após a independência com a missão de mudar a História de Portugal.

Também há reedições: o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, com ilustrações inéditas de Rogério Ribeiro e prefácio também inédito de Vasco Graça Moura; uma edição especial de O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena; de Almeida Faria O conquistador; do best-seller dos anos 60/70, O Rio Triste de Fernando Namora, bem como o volume Tenho Cinco Minutos para Contar Uma História, de Fernando Assis Pacheco, com crónicas radiofónicas inéditas para assinalar o 80º aniversário do autor que morreu em 1995.

Regresso da América Latina

Se Sepúlveda e García Márquez já estão anunciados, não faltarão bons títulos de autores da América Latina. É o caso de A Forma das ruínas do colombiano Juan Gabriel Vásquez; de Pátria ou morte do venezuelano Alberto Barrera Tyszka, onde relata a situação no seu país durante o tempo em que Hugo Chávez está doente; de Um lugar chamado Angola de Karla Suárez que trata da presença cubana no pós-independência; e regressa Eduardo Galeano com os "clássicos" As Veias Abertas da América Latina, Espelhos, O Caçador de Histórias, Mulheres, Palavras Errantes e O Livro dos Abraços; ou de Julio Cortázar, com os contos Octaedro.

Ensaios para todos os gostos

Outro dos géneros que são beneficiados neste primeiro semestre é o do ensaio. Homo Deus: Breve História do Amanhã, de Yuval Noah Harari, traz de volta o autor preferido de Obama, Bill Gates e Zuckerberg; de Hannah Arendt serão publicados Desobediência Civil e Eichmann em Jerusalém - Uma reportagem sobre a banalidade do mal; A Ideia de Europa é o título em que George Steiner pensa o futuro da União Europeia; bem como um livro fundamental, Vindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft.

Biografias de todo o género

Também não faltarão biografias sobre protagonistas nacionais e internacionais, vivos e falecidos. É o caso da segunda parte da autobiografia de Mandela, com textos inéditos e reflexões; a autobiografia do surfista Garrett McNamara; Lucrécia Bórgia: a princesa do Vaticano, com a história da filha do papa Alexandre VI, de C. W. Gortner. Ou, a nível nacional, a biografia do cantor/compositor Tozé Brito, de Luciano Reis, quando comemora 50 anos de carreira.

Poesia surpreende

Não faltarão novidades na poesia, ou sobre ela, como é o caso de Lawrence Ferlinghetti em A Poesia como Arte Insurgente. Também o romeno Dinu Flammand publicará Sombras e Falésias, com prefácio de António Lobo Antunes. Ou What"s in a name de Ana Luísa Amaral; a reedição de O livro das comunidades, de Maria Gabriel Llansol, e, finalmente, uma edição do antigo poema, o Épico de Gilgamesh, com prefácio de Filomena Molder e tradução de Luís Parreira.

Fátima em várias aparições

Em ano de centenário das aparições de Fátima, anuncia-se uma invasão de investigações. É o caso de As visitas dos papas a Portugal, de Ana Cristina Câmara; um Dicionário de Fátima, da autoria de Nuno Henrique Luz e Nuno Roby Amorim; bem como As guerras de Fátima, de Paulo Moura. Estes são apenas três dos muitos títulos aguardados e ainda não revelados por parte das editoras.

Exclusivos