Matias Damásio dos afetos

Músico angolano estreou-se este sábado à noite no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Abundaram as baladas, num concerto em que fez o elogio do público, das mulheres, da família, do seu país. E até andou a distribuir rosas vermelhas pelos corredores da sala às fãs.

Um concerto de Matias Damásio é um diálogo constante com o público. Cada música é precedida de uma introdução, contextualização, explicação. "Gosto muito de falar". É isso. "C'est ça".Foi assim, este sábado à noite, num Coliseu dos Recreios esgotado, no qual o músico angolano de 34 anos se estreou.

Quando cantou "Angola País Novo", tema do segundo álbum "Amor Festa da Lixeira", explicou como se lembrou de escrever esta música no aeroporto de Kigali, no Ruanda, quando foi assistir ao jogo em que Angola se qualificou para ir ao Mundial de Futebol da Alemanha. E quanto tocou "Papá", do último trabalho, contou porque sentiu a necessidade de homenagear o pai, Raul Damásio, ali presente. "Papá, obrigado por estar aqui neste momento tão importante para mim hoje".

Esta foi a primeira ocasião da noite para pegar na viola. Aquela que diz ser a sua grande companheira. E aproveitou para cumprir a promessa que fizera há um ano ao pequeno Diogo Maria, de sete anos, oferecendo-lhe uma viola. Como alguém, um dia, fez consigo, quando tinha o dobro da idade dele.

O espétaculo foi dominado sobretudo por baladas, como o êxito "Loucos", do último álbum, "Por Amor", que interpretou, por duas vezes, com Héber Marques, vocalista dos HMB. "Amanhã", tema do seu terceiro álbum, "Por Angola", foi cantado em dueto com a jovem cantora angolana Selda. Entre os convidados teve também Laton Cordeiro (que colaborou com Mastiksoul no conhecido tema "Gasosa"), com o qual interpretou uma canção mais mexida, "A Culpa é dela", do seu último trabalho.

Quando chegou a hora do semba, Matias Damásio agitou o Coliseu com "Beijo Rainha", de "Por Amor". Uns dançaram, a par, nos corredores. Outros subiram ao palco e dançaram com ele. O clima foi de festa. E o músico fez o elogio do público: "Vocês são muito bonitos".

A meio da noite Matias Damásio interpretou o único tema do espetáculo que não foi escrito por si. "Os Meninos do Huambo", um poema de Manuel Rui Monteiro, com o histórico refrão: "Os meninos à volta da fogueira / Vão aprender coisas de sonho e de verdade / Vão aprender como se ganha uma bandeira / Vão saber o que custou a liberdade".

Ao elogio do público, o músico juntou o elogio às mulheres, chegando mesmo a descer do palco para distribuir rosas vermelhas às fãs durante o tema "Bouquet de Flores". Tirou fotos. Sorriu. Distribuiu afetos. "As mulheres são a coisa mais importante do mundo", disse, a certa altura, sublinhando: "Nós somos muito exigentes com os outros mas cobramos pouco a nós próprios". É isso. "C'est ça".

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