Mas Cervantes e Shakespeare já sabiam tudo isto?

Um tradutor, um artista plástico, uma poeta, um compositor e um mestre em Estudos Políticos. Cinco leitores de Miguel de Cervantes e de William Shakespeare que fizeram obra sobre as obras destes

"Lembro-me que vi o Rei Lear com a minha mulher, a Ana Mafalda Castro, e ela a certa altura diz uma frase inacreditável: 'Mas ele já sabia estas coisas?' O Shakespeare sabia tudo aquilo que o Freud sabia. Nós temos a ideia: OK, Freud descobriu o inconsciente e com esse conceito avançou para uma determinada visão do ser humano. Isto está tudo em Shakespeare."

Isto e mais, como se verá. António Pinho Vargas, compositor e músico, trabalhou duas vezes em peças de Shakespeare - "coisa que até me honra", diz. Primeiro, compôs para Hamlet, em 1987, no teatro ACARTE, depois para Ricardo II, em 1994, no Teatro Nacional D. Maria II, ambas encenadas por Carlos Avilez.

William Shakespeare morreu há exatamente 400 anos. A mesma conta fez-se ontem, dia 22, à morte de Miguel de Cervantes. Antes que pudéssemos esquecê-los, e como se o pudéssemos fazer, contam-se aqui cinco histórias de quem, em determinado momento ou durante quase toda a vida, se cruzou com um e com o outro (já que os dois nunca se cruzaram); e de quem, com eles e sobre eles, produziu obra.

Pinho Vargas leu Hamlet aos 18 anos. Mas, para compreender algo fundamental, foi preciso ver atores como Carlos Daniel trabalharem: "Não é qualquer ator que faz de Hamlet, de Ricardo II, não é qualquer um que pode fazer de rei, e de príncipe, e ele era rei por natureza". Foi preciso fazer música para o palco, para que o compositor, hoje de 64 anos, percebesse "que o teatro não foi feito para ser lido como um poema ou um romance. É uma coisa para ter lugar num palco, como uma partitura de música: está lá a obra, mas para ser verdadeiramente aquilo a que se destina, deve ser tocada." Hoje é quase impossível encontrar essa música que fez para Shakespeare, e que em parte gravou num gravador de cassetes. Foi feita para o palco, assim como o teatro, que ele deixou de ler.

"Antes de começar já era difícil"

Aparece José Bento a descer a Avenida da Liberdade. Hoje com 83 anos, é um dos grandes tradutores de espanhol para português. Devemos-lhe várias antologias de poesia espanhola, devemos-lhe São João da Cruz, García Lorca, Quevedo, Lope de Vega, Unamuno, - a título de curiosidade, os contabilistas devem-lhe o livro Plano Oficial de Contabilidade Explicado -, e, claro, Cervantes: D. Quixote e Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda.

A primeira vez que leu o Quixote? "Ai nem sei. Só sei que nunca fazia ideia de o traduzir, era tão difícil. Ainda antes de começar já era difícil." Mas traduziu. Em 2005, a Relógio d"Água editava aquelas quase mil páginas, que lhe levaram "dois anos e meio". Trabalho diário, "não mais do que três páginas por dia." Conta que o seu sogro tinha a tradução do Aquilino Ribeiro. "Às vezes, quando tinha dúvidas, dizia: Deixa ver como é que o Aquilino traduziu isto. Nunca encontrava a solução. Ele fugia sempre à dificuldade", ri-se Bento, que além de tradutor é poeta.

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