Maria João, a corredora dos cem metros que encontrou os Budda Power Blues

Aquela que é considerada a melhor banda de blues portuguesa convidou a maior voz do jazz nacional e o resultado foi The Blues Experience. O disco é apresentado pela primeira vez ao vivo esta quinta-feira em Lisboa, no CCB

Jazz e blues são assim uma espécie de duas faces da mesma moeda. Ou antes como duas linhas quase paralelas, que apesar das diversas ramificações pelos estilos, digamos, mais populares, raramente se cruzam - sabe-se lá porquê. Não é portanto de estranhar que Maria João tenha torcido o nariz, quando recebeu o telefonema de um tal Budda, a convidá-la para um concerto com a sua banda, os Budda Power Blues. "Apresentou-se e falou-me do projeto, mas a minha primeira reação foi recusar porque eu nem gosto de muito de blues. Mas depois explicou-me um bocadinho mais o que pretendia e fiquei logo convencida, até porque adorei o nome da banda (risos)", lembra a cantora. Mas não foi só isso que a convenceu: "O repertório que me propuseram também era giro, porque não eram aqueles blues mais tradicionais. Fui pesquisar um pouco mais e depois de perceber quem eram e o que faziam só podia responder sim, sim e sim".

O objetivo do convite foi tudo menos inocente, como recorda o baterista Nico Guedes: "Depois de termos editado o nosso quinto disco, estávamos com vontade de fazer algo mais além do blues, para conseguirmos chegar a um público mais abrangente. Não só por nós, mas também por todas as bandas de blues que têm surgido nos últimos anos em Portugal. E convidámos a Maria João porque ele é uma grande referência para todos nós". O objetivo era fazer um único concerto, que depressa se multiplicou por mais uns quantos. O repertório seria apenas composto por versões, mas logo no segundo espetáculo, na Casa da Música, Maria João foi surpreendida com um tema inédito, composto por Budda Guedes já a pensar na sua voz. "Foi esse o rastilho que nos levou a querer fazer música em conjunto", admite Nico.

O resultado dessa (aparentemente) inusitada parceria é The Blues Experience, um disco de "blues do século XXI", como é apresentado pelos próprios, que ao longo de 10 temas vagueia sem barreiras pelas mais variadas linguagens do blues, numa constante busca por novos rumos. A exemplo do que a dupla composta pelos irmãos Budda e Nico tem feito, desde que há mais de uma dúzia de anos, começaram a tocar em Braga, "no dia de Natal de 2004", sob o nome de Budda Power Blues.

"Foi o Budda que compôs tudo. A primeira vez que falámos num eventual disco, disse-me que poderíamos começar a gravar em duas semanas. Não acreditei, porque ainda não tínhamos qualquer música, mas a verdade é que, passados dez dias, já tinha os temas todos feitos. Acho que foi o trabalho mais rápido que alguma vez vi (risos)", afirma Maria João.

Mais complicado foi conciliar os tempos das duas partes, mas a vontade de voltarem a tocar juntos tem sido mais forte que tudo o resto. "É um verdadeiro milagre, porque as nossas agendas são quase inconciliáveis, refere Maria João. Para este concerto, por exemplo, fizeram um único ensaio. Nada que os preocupe. "A música, especialmente este tipo de música, vive dessa frescura do improviso", atira Maria João, perante a concordância de Nico: "Não somos uma banda pop, em que tudo tem de ser linear. As músicas têm uma estrutura, mas depois temos total liberdade para as interpretar, em especial os solistas, que neste caso são a Maria João e o Budda". Nem poderia ser de outra forma, como defende Maria João: "Cada concerto é sempre diferente e essa é a graça deste projeto. Adoro improvisar, porque é algo que me faz sentir livre. Morria se me obrigassem a fazer sempre a mesma coisa em palco. Tento adaptar isso às pessoas com quem trabalho, porque não podemos estar imóveis na nossa individualidade. Fomos ambos elásticos, mas mantendo sempre a nossa identidade. Foi isso que tornou esta música muito mais rica". O que não quer dizer que tenha sido fácil e imediato, como Maria João percebeu logo no primeiro concerto com os Budda Power Blues. "Passei uma vergonhaça, porque o Budda canta para caraças, com aquela voz rouca, própria dos blues. Lembro-me que fiquei exausta, para o conseguir acompanhar. Agora já consigo gerir muito melhor as dinâmicas", revela.

O concerto em Lisboa será no entanto o primeiro em que vão tocar as novas músicas. "Nunca apresentámos o disco ao vivo e estamos um pouco nervosos", admite Nico. Já Maria João prefere falar em desconforto. "Cantar, para mim, é como correr os cem metros, faz-me sentir uma atleta de alta competição. Não procuro a perfeição na música, mas sim a aventura e é esse pequeno desconforto, que sinto quando estou em palco, que me permite estar atenta. Se é para me sentir confortável, prefiro ficar no sofá, a dormir", justifica com humor. Quanto aos Budda Power Blues, Nico apresenta-os como uma banda "quase anarca", que nunca tem um repertório definido.

"Temos umas vinte músicas que podem ser tocadas, mas às vezes optamos por outras e lá vamos nós". E, agora, com a Maria João também é um bocado assim. "Sabemos mais ou menos o que vamos fazer, mas tudo pode acontecer". Pois, pode não ser confortável, mas dá muita adrenalina...

Maria João e Budda Power Blues

CCB, Lisboa. 2 de março, 21.00. 20euro

Teatro Virgínia, Torres Novas. 4 de março, 21.30. 10euro

Casa das Artes, Vila Nova de Famalicão. 31 de março, 21.30. 10euro

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