Maria, a figura cultural que atrai a volúpia do olhar

Madonna - Tesouros dos Museus do Vaticano reúne mais de sete dezenas de obras sobre a Virgem, na maioria dos séculos XIV a XVIII. Uma mostra ambiciosa no Museu Nacional de Arte Antiga

"Não há obras destas em Portugal", assegura o comissário da exposição José Alberto Seabra de Carvalho. Até dia 10 de setembro há e estão à distância ótima para serem observadas, na galeria de exposições temporárias do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). São mais de 70 obras de arte, pintura na maioria, mas também escultura, tapeçaria, desenhos e códices provenientes, como o nome da exposição indica, dos Museus do Vaticano, mas também da Galleria Corsini, da Galleria Borghese, e de coleções várias portuguesas.

"É um projeto muito ambicioso", afirmou o diretor do museu, António Pimentel, e que resulta de dois anos de planificação e trabalho. Uma exposição pensada para coincidir e se associar "às comemorações do centenário das aparições de Fátima" e que reúne alguns dos maiores artistas que alguma vez se dedicaram a representar a Virgem, de Fra Angelico a Van Dyck, de Tintoretto a Crespini, de Vitale da Bologna a Rafael.

Também Marc Chagall, cuja obra O Crucifixo (entre Deus e o Diabo) se encontra à entrada da segunda sala, logo após os fragmentos de têxteis e um pluvial (veste litúrgica). "Este pequeno Chagall foi escolha nossa. É um Chagall inesperado, menos onírico. Está desenquadrado do resto da exposição e como tal está num não lugar, e simboliza o alfa e o ómega, o princípio e o fim", sustenta Seabra de Carvalho, aludindo também ao facto de a obra mais recente, datada de 1943, se encontrar junto das peças mais antigas, realizadas entre os séculos VIII e IX. A este propósito, António Pimentel comenta ao DN: "Uma das coisas que a exposição trata é o modo como a cultura e a transposição plástica se relacionam com o arquétipo da Virgem e como este se vai transfigurando ao longo do tempo. A partir de certa altura poderá até aparecer descristianizada. Estamos a falar de Chagall, por exemplo. Chagall era crente, mas quando pinta a Virgem ao pé da cruz está a fazer um ícone da violência da guerra, está a utilizar a imagem do filho que morre para exprimir o desespero da guerra."

Instado sobre o interesse que poderá despertar a públicos não crentes, o diretor do museu afirma: "Maria é uma figura cultural, é mais do que simplesmente uma figura religiosa. É um fio perfeito de união para com as coleções do museu, onde a figura da Virgem aparece representada desde a pintura europeia ao Oriente. Não nos podemos esquecer que fomos responsáveis pela iconografia mariana pelo mundo inteiro. O que aqui está em causa é um conjunto selecionado de obras-primas italianas que dificilmente são acessíveis para as pessoas, e muito menos num contexto narrativo. Mesmo que as pessoas possam ir a Roma estão num contexto diferente. É um privilégio único ter uma sequência de obras de grandes mestres que em si são maravilhosas, é a volúpia do olhar e do intelecto."

Entre tantos tesouros, nota para uma obra de Álvaro Pires de Évora, um pintor que fez carreira em Itália: "um caso único da pintura portuguesa" e uma "ponte importante no século XV" entre as culturas dos dois países, como destacou o comissário responsável pela exposição, a par de Alessandra Rodolfo, dos Museus do Vaticano.

O braço armado do MNAA

A exposição marca também uma nova era para o Museu Nacional de Arte Antiga. Por um lado, recebe o primeiro ato de mecenato cultural conjunto da Fundação La Caixa e do BPI; por outro, o papel do Grupo dos Amigos do Museu (GMNAA) foi elevado a um patamar único. Como disse José Blanco - ex-administrador da Fundação Calouste Gulbenkian - no discurso que antecedeu a visita da imprensa a Madonna - Tesouros dos Museus do Vaticano, o GMNAA constitui o "braço armado" do museu, ao fazer parte da organização deste "acontecimento verdadeiramente excecional". O diretor do MNAA pormenoriza: "Como é sabido, o museu não tem autonomia financeira e não dispõe de orçamento. Tudo isso gerou percalços administrativos muito complexos, o que levou a atraso na exposição Cidade Global, que esteve apenas um mês e meio. O Grupo de Amigos voluntariou-se para apoiar a organização da exposição financeiramente. A exposição é produzida pelo MNAA e co-produzida pelo Grupo de Amigos. É uma coisa única e inédita em Portugal."

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