Marcos Caruso: A matéria-prima da minha profissão é a observação do ser humano"

O ator brasileiro está em Portugal

Trouxe a Portugal a peça O Escândalo Philippe Dussaert, uma comédia em monólogo sobre o mercado da arte contemporânea. Com 44 anos de carreira, o ator nascido em 1952 em São Paulo toma o metro para ir para o trabalho, porque se recusa a ficar fechado no quarto a olhar para o telemóvel.

Quando o espectador entra na sala, tem Marcos Caruso a recebê-lo, pronto para qualquer diálogo. Depois sobe ao palco, tendo como adereços apenas uma cadeira alta e uma caixa com rodas. É um monólogo mas está sempre em diálogo com o público, e o público sente-se envolvido e responde, participa. Como conta o autor Jacques Mougenot, foi por acaso que chegou a esta peça que põe em causa o mercado de arte contemporânea. Quem é o ator que se abalança a fazer uma peça tão difícil?

Aderiu rapidamente a este texto?

No início tive dúvidas. Achei que era uma palestra, a leitura deu-me a impressão de ser uma coisa muito sofisticada para o Brasil e interessaria um público muito pequeno. Isso não era um problema, podia fazer para 40 pessoas. Mas fiquei na dúvida se era teatro, apesar de fazer uma grande homenagem ao teatro. Onde estaria o conflito? O ator tem de ter conflito em cena

Aqui o conflito é exterior à peça?

Sim. Neste caso, ao interpretar - e aí o mérito é todo do encenado - coloco-me no lugar do público, não fico lá em cima a ditar regras. Espanto-me tanto como a plateia, coloco-me no lugar deles como quem diz "é um escândalo inacreditável!". Antes de aceitar, fiz uma leitura entre amigos, entre as quais o encenador e a (atriz)Irene Ravache. A Irene pôs o dedo em riste no meu nariz e disse: "se você não fizer essa peça eu faço". Está louca, a peça é minha. Aí tomei posse. São momentos como este que me fazem acreditar que é possível continuar, eu que respiro teatro 24 horas por dia

O teatro é o lugar da mentira?

Totalmente. A arte é o lugar da mentira, faz ver coisas que não são reais. É um realismo, não é uma realidade. Quando você pinta, ê sabe que está pintando uma rua de Lisboa mas não está numa rua de Lisboa. Você vê O Lago dos Cisnes e vê o cisne a morrer, mas aquilo não é um cisne e a bailarina não está morta. Você chora quando vai ao cinema. Um livro, por mais autobiográfico que seja, tem um realismo em cima de uma realidade nua e crua, uma pincelada aqui ou ali para levar a uma lágrima ou ao riso. A arte tem esse poder de mentir. Existe um acordo tácito entre o artista e o espectador.Um sabe que o outro está sabendo que aquilo é uma mentira, mas é feito com verdade e pode ser consumido como uma verdade. E o teatro é a mentira ao vivo. E é lindo. Pela palavra, é uma arte cuja mentira é eterna e jamais será suplantada pela televisão, o cinema, a internet. Esta relação ao vivo, este acordo entre a plateia que não pode subir ao palco e o ator que não pode descer à plateia cria uma parede invisível que faz com que um acredite que o que o outro está fazendo é verdade, apesar de saber que ele está mentindo, para que a verdade seja cada vez mais convincente."

O que o atraiu para o teatro?

Os retalhos da casa da minha avó, que era costureira. Perdi a minha mãe quando nasci, morreu no parto. Eu ia muito ao Rio de Janeiro embora morasse em São Paulo com o meu pai. A minha avó era uma costureira simples, tinha muitos retalhos. E eu ficava ali ajudando, observando, imitando. Um belo dia, aos sete anos, peguei a linha, a agulha, o retalho, e comecei a fazer fantoches. Passando pela confeitaria Colombo, no Rio, vi uma caixa de maçãs e pensei: se tirar o fundo dessa caixa e puser uma cortina...Ficava fazendo teatrinhos diante das freguesas à espera de serem atendidas.

Sempre quis ser ator?

Consegui conquistar todos os espaços onde me meto, até hoje. Com respeito e simpatia, porque não sou invasivo, invado o que eu puder dentro da minha arte, o leque de opções que a minha profissão me dá. Sou encenador, ator, autor, tudo isso em novela, teatro, cinema, dirigi televisão. Faço tudo, amo fazer tudo. Tornei-me muito plural em todos os sentidos. Abracei vários veículos, estilos e funções. Chego a este monólogo depois de 44 anos de palco.

Já tinha feito algum?

Nunca, morrendo de medo principalmente da solidão. Por isso inventei esse negócio de ficar falando com as pessoas na porta, que é ótimo porque tem tudo a ver com o fim. Foi uma coisa que me bateu na noite antes da estreia, às duas da manhã acordei com aquilo. Liguei ao encenador, acordei-o, e ele aceitou, disse que era uma maneira de criar intimidade com o público.

Vai mesmo de metro para o teatro?

Claro. Eu preciso de ver pessoas, não posso me esconder. Todos nós estamos nos fechando para tudo na vida, está tudo no celular, ninguém mais olha para ninguém. No Brasil agora há carros blindados, insegurança. Uma pessoa vive fechada no ar condicionado, vidros duplos, grades nas janelas. Eu sou um observador, a matéria prima da minha profissão é a observação do ser humano para poder interpretá-lo. Se vou para o metro, começo a observar e a pessoa olha para mim e me reconhece, tenho de fugir com os olhos. Passei de observador a observado.

Como resolveu isso?

Pensei: tenho de enfrentar. Eu nunca jogo a toalha. Se me olharem e me reconhecerem, digo: sim sou eu, como vai? Posso tirar uma foto? Claro que sim. Aí o problema acabou, a pessoa não me olha mais. Já ganhou, é meu dono, estou no bolso dele. Quanto mais ando de metro, vou à rua, à feira, mais eu enriqueço, porque sou um filtro de água. Se não tiver água lá em cima, quando abrir a torneira não vai sair nada. Se o filtro estiver seco, eu não bebo e o público não vai beber de mim. Portanto, vou de metro.

Como é a sua relação com a arte contemporânea?

Nenhuma. Sou um espectador, gosto de ver. O que me fez fazer esta peça foi uma frase :"Hoje em dia, o nada vira alguma coisa e custa uma fortuna". O valor é muito subjetivo. Estamos a viver uma época de eleitos, eleitos por alguém ou por algum interesse. Eu não tenho essa relação, não acho que uma coisa é bonita porque tem uma marca.

Há uma onda de moralismo no mundo da arte?

A conexão pela internet deu liberdade, estamos a um toque de qualquer parte do planeta. Quando mais liberdade você tem, mais você pode destruir. A primeira vez que as redes sociais foram usadas com força foi para derrubar o regime do Egipto. Isso amedrontou, qualquer um pode ser derrubado amanhã. Eu sou totalmente contra a censura. Temos uma patrulha de plantão, e os artistas são sempre os mais visados porque são uns drogados, os que têm quatro mulheres, cinco homens. Porque nós somos livres, graças a Deus.

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