Manuel Alegre recebe Camões com Nobel nas conversas

A cerimónia de entrega do diploma teve um momento inesperado, quando o primeiro-ministro garantiu que a língua portuguesa é uma prioridade do Governo.

O aviso de que o primeiro-ministro já vinha a caminho da cerimónia de entrega do Prémio Camões a Manuel Alegre não foi ouvido por muitos dos amigos que aguardavam o início da sessão a conversar, ou seja, ficaram sem lugar para se sentar apesar de o salão escolhido ser um dos maiores do Palácio da Ajuda. O filósofo Eduardo Lourenço ainda teve direito a uma cadeira que ficara vazia à sua espera, no entanto os estados-maiores da política e da literatura que encheram o espaço escutaram a presidente do júri, Paula Morão, o embaixador do Brasil, António Costa e a fadista Ana Maria Bobone de pé.

É verdade que não custou assim tanto pois os discursos - para o curto - fugiram ao registo de circunstância, além de que a invocação de Camões como um valor patriótico não é coisa que se verifique todos os dias. Era, contudo, impossível fugir ao poeta de seiscentos porque o homenageado sempre elogiou a sua obra e, dando-lhe uma interpretação própria, incorporou-a e renovou-a. Disso deram conta Morão e Costa, afirmando a primeira que Alegre representa o património clássico nacional e internacional e confirma-o na nossa língua de forma original: "O exílio e a errância fizeram crescer a obra que fundamenta a memória universal contra o esquecimento. Que desde Praça da Canção até Auto de António apresenta na poesia o que de melhor existe no género em Portugal."

O primeiro-ministro, após um "Meu caro Manuel Alegre", avançou num tom de admiração como não se lhe vê todos os dias: "Se há prémios predestinados, este, que hoje aqui entregamos, é um deles. Alegre é, dos poetas do nosso tempo, aquele que mais tem dito a admiração constante e renovada que o liga a Camões. Na obra de Manuel Alegre, os grandes temas e motivos camonianos - a Pátria, o mar, a história, o amor, a saudade, a liberdade - são retomados, cantados e transfigurados pela aventurosa experiência pessoal e pela visão de homem do nosso tempo. É de Portugal que a obra de Camões e de Alegre falam. Dessa Pátria de que tantas vezes se queixam para melhor a poderem amar."

Alegre não se "queixou" no discurso de agradecimento que se sucedeu, antes destacou o "amor" sublinhado pelo primeiro-ministro: "Por mais estranho que pareça o povo anda na rua a falar Camões. Nas ruas de Portugal. Mas também nas ruas do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Timor e São Tomé e Príncipe. Não tem consciência disso, não sabe que há um Acordo Ortográfico e não precisa dele. Mas fala Camões, quero dizer: fala a língua portuguesa."

Decerto Alegre desconhecia a fala do primeiro-ministro e não poderia imaginar que este iria usar o palco para dar uma novidade que ele e o Estado-maior da Literatura presente devem ter apreciado: "Quero reafirmar o compromisso do Governo com a língua portuguesa, com os seus valores e as suas valências, da mais simbólica e poética à mais prática e instrumental. Num mundo em risco de massificação, de uniformização e de hegemonização, a língua é uma condição insubstituível de afirmação da individualidade e da diversidade. Reitero a vontade de reforçar, ampliar e modernizar uma política de língua mais ativa e mais eficaz, mais partilhada e mais presente. Temos de nos saber mobilizar para este grande desígnio, que não é apenas dos Estados e das instituições, mas também das sociedades e de todos os lusofalantes."

Disso Alegre também daria resposta - anteriormente escrita - ao afirmar a importância dos vários intérpretes da língua portuguesa: "Em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam." Acrescenta: "Esta é a língua que o Prémio pretende celebrar", daí que se sentisse "um bicho da terra tão pequeno" ao receber o galardão com o nome do poeta de uma das línguas mais faladas no mundo.

Antes de terminar, Alegre citou Afonso Lopes Vieira: "Diria que não seriam dignos de Camões os poetas portugueses que não passassem pelas prisões. Eu sinto-me herdeiro desta tradição. Acredito na força mágica, insubmissa e libertadora da palavra poética."

Após os discursos, o ministro da Cultura destacou em Alegre "a insubmissão da palavra poética" e, após recitar alguns versos do poema preferido do homenageado, foi bombardeado com a questão que todos falavam no salão, o facto de a Academia de Ciências de Lisboa ter indicado a pedido da Academia Sueca do Nobel o agora premiado com o Camões. Luís Filipe Castro Mendes tentou evitar a questão, mas disse: "Gostaríamos muito de ter de novo um nome português a ganhar o Nobel, mas o anúncio do júri é sempre inesperado."

Também Alegre foi questionado, preferindo destacar o facto de o Prémio Camões ser o mais importante da língua portuguesa. Referiu, citando a "amiga Sophia": "Não se deve pensar nos prémios porque só fazem mal à cabeça." Rematou assim: "A nomeação em si tem o seu significado, mas quanto menos se falar sobre isso melhor. A Academia é muito reservada."

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