Manuais dos maus da fita regressam às livrarias portuguesas

Se os leitores portugueses forem como os alemães e os ingleses vão aderir à nova moda de ler o Mein Kampf e o Manifesto Comunista

"Sem o vendaval de cacetada com que os nazis aterrorizaram os adversários Hitler não teria chegado ao poder. E é preciso mostrar a carnificina que foi depois a morte de milhões de judeus, a morte de comunistas e de católicos. Só em Auschwitz foram mortos três mil padres católicos, por exemplo." Quem faz esta afirmação é o editor Manuel S. da Fonseca, da Guerra e Paz, que vai publicar dentro de semanas o Mein Kampf (A Minha Luta), a tese que Adolf Hitler utilizou para divulgar as suas ideias e alcançar o poder na Alemanha e que viria a provocar um dos mais mortíferos conflitos da história da humanidade.

E não se fica por aí a Guerra e Paz na reedição de livros que os leitores portugueses compraram no Verão Quente de 1975 mas entretanto perderam: seguem-se o Manifesto Comunista de Marx e Engels e o Livro Vermelho de Mao Tsé-tung.

A primazia na entrada em domínio público do livro de Hitler já fora aproveitada por outra editora nacional, a E-Primatur, que relançou há poucas semanas o Mein Kampf, livro quase sempre proscrito nas livrarias portuguesas até agora. E não foi só a editora E-Primatur, também a revista Sábado decidiu vender o manual de Führer em dois volumes, numa tradução da edição que foi lançada na Alemanha após o livro ter sido banido nos últimos 75 anos.

Os números de vendas atuais em todo o mundo surpreendem por serem elevados, mesmo que muito inferiores aos de 1940: seis milhões de exemplares.

Em Portugal, o Mein Kampf tentou vir à tona por várias vezes antes desta edição abençoada com o prefácio do historiador António Costa Pinto, que o considera "um pedaço da história mundial, sem capacidade de mobilização extremista". Em 1976, a editora Afrodite tentou publicá-lo; em 1987, foi a vez da editora Pensamento; em 1998, a Hugin foi obrigada a retirar a edição do mercado por pressão da embaixada alemã e da comunidade judaica.

Os pedidos dos livreiros à E-Primatur já exigiram a reimpressão de 500 exemplares, após uma edição inicial de um milhar. O que não é uma procura comparável à que se verificou na Alemanha, onde a edição inicial de quatro mil exemplares foi inferior quatro vezes ao que as livrarias solicitaram.

Também o Manifesto Comunista entrou nesta onda de relançamentos. No ano passado, a prestigiada editora Penguin voltou a tê-lo disponível na coleção de clássicos de bolso e o Manifesto vendeu numa semana 1700 exemplares - mais do que os livros de Tolstoi, Dante ou Oscar Wilde na mesma coleção.

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