Luís Filipe Abreu desenha os selos pequenos e os grandes murais

A Festa da Ilustração de Setúbal apresenta uma exposição retrospetiva deste autor, de 80 anos, que tem um vasto trabalho de ilustração de livros e capas de livros, em artigos de jornal e anúncios publicitários, mas também é autor de selos, medalhas e notas, tapeçarias, murais e painéis de azulejo.

As paredes do atelier 43, aquele que Luís Filipe Abreu ocupa no Palácio dos Coruchéus, em Lisboa, estão cheias de quadros, esboços, cartazes, postais, recortes, há de tudo um pouco representando a diversidade da obra deste artista. Mas há uma obra, uma única, que não lhe pertence. É um pequeno quadrado, emoldurado, com o retrato de uma criança. "Esse sou eu com cinco anos. Foi o meu pai que o fez." O pai era um pintor amador. "Desde miúdo, eu desenhava com alguma facilidade. Lá em casa havia o culto das artes e havia a convicção, sobretudo do meu pai, de que eu iria ser um grande artista", lembra Luís Filipe Abreu. Um grande artista que aos 80 anos inaugura na próxima quinta-feira uma exposição retrospetiva na Festa da Ilustração de Setúbal. "Fiquei muito honrado porque em tempos passados a ilustração, embora com grandes tradições, era considerada uma arte menor, subsidiária. E agora já não."

Foi para ser grande que se mudou de Torres Novas para Lisboa para estudar pintura em Belas Artes. "Comecei a trabalhar ainda antes de terminar o curso, a ter alguma procura, muito pouca, naquele tempo as coisas eram mais difíceis o nosso meio era muito tacanho", conta. E uma das primeiras manifestações desta obra foi a ilustração. Capas de livros (para os Estúdios Cor, por exemplo), ilustrações técnicas ou outras para livros foram os seus primeiros trabalhos.

Houve um acontecimento muito importante, "talvez no início dos anos 60 ou ainda nos finais de 50". Nessa altura, "já era reconhecido como um ilustrador com certas qualidades mas não tinha muito trabalho, até que concorri a um concurso aberto pelo Diário Popular que chamava-se mesmo "à procura de um ilustrador". Fui imediatamente chamado pelo diretor do jornal e convidado para fazer ilustrações para um suplemento que era O Popular." Desses tempos, recorda a pressão do trabalho - "era um suplemento semanal mas estranhamento era tudo feito nos dois últimos dias" - que ele odiava mas que lhe deu rotinas e métodos de trabalho que de outra forma não teria. E o reconhecimento. "Havia pessoas que me conheciam e que não tinham ideia do que eu fazia, foi preciso o meu trabalho sair impresso no jornal para toda a gente ver as ilustrações." Abriram-se imensas portas desde então.

Luís Filipe Abreu

Entre as capas de livros (para a Bertrand e a Ulisseia, por exemplo) e as ilustrações publicitárias, começaram a surgir os trabalhos mais institucionais, como os selos ("muitos, muitos"), medalhas e notas. "As pessoas pegam nas notas todos os dias e nem imaginam..." Aqui está um trabalho onde o ego do artista não é nada alimentado. "Ninguém sabe quem é o autor. Durante muito tempo o Banco de Portugal até mantinha um certo secretismo sobre as notas porque tinha medo das falsificações", conta. Luís Filipe Abreu é o autor das duas últimas séries de notas de escudos, sobre grandes personalidades portuguesas (lembram-se da nota de 100 escudos com o Fernando Pessoa?) e sobre navegadores. "É um trabalho muito especializado, tive que aprender imensas coisas sobre a maneira de fazer as notas."

Mas também faz obras de grande tamanho, como tapeçarias, murais, painéis de azulejos (na renovada estação de metro do Saldanha, por exemplo). "A minha obra é toda baseada no desenho. Fazendo pintura, azulejos, capas de livros ou tapeçaria, é sempre a mão que está na base desta atividade." E também por isso faz questão de ser ele a realizar se não todo pelo menos grande parte do trabalho. "É uma coisa gestual, não se imita. A minha expressão vive disso. Não faço estudos para um trabalho final. Faço várias versões e depois escolho a que acho melhor. Aposto numa espontaneidade controlada. Acho que essa é a principal característica do meu trabalho."

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