Literatura e jornalismo em confronto na Madeira

O Festival Literário da Madeira reúne a partir de terça-feira e até sábado alguns dos grandes nomes da literatura e do jornalismo para debater "a palavra que prende e a palavra que liberta".

A oitava edição do Festival Literário da Madeira parte do pressuposto que a literatura e o jornalismo não são tão antagónicos como podem parecer porque "o potencial da palavra é explorado em diversos registos". Para o provar, reúne algumas dezenas de escritores e jornalistas no tradicional palco do Teatro Municipal Baltazar Dias durante a próxima semana. É o caso de Clara Ferreira Alves, jornalista e ao mesmo tempo autora. Ou de Javier Cercas, um dos mais importantes escritores espanhóis, ex-jornalista que nunca interrompeu uma constante participação na imprensa. Ainda Mick Hume, jornalista e escritor britânico.

Este último é, aliás, o primeiro protagonista das várias sessões em que o tema Literatura e Jornalismo, a palavra que prende e a palavra que liberta será escrutinado, num painel que conta com o ex-jornalista e atual humorista Ricardo Araújo Pereira como parceiro de uma conversa, na terça-feira, às 19.00, a partir de uma afirmação de Salman Rushdie sobre a liberdade de expressão. Se Araújo Pereira é sobejamente conhecido, Hume é editor da revista Spiked e manteve durante uma década uma coluna semanal no jornal The Times, a que acrescem múltiplos artigos na imprensa britânica.

No segundo dia do festival destaca-se a presença de duas das muitas escritoras estrangeiras que se deslocam à Madeira pela primeira vez: Sofi Oksanen e Eleanor Catton. A primeira, finlandesa, foi considerada uma das mais promissoras jovens escritoras do seu país após a publicação do seu romance Stalin´s Cows. Seguiram-se Norma e Quando as Pombas Desaparecem, ambos traduzidos para português, obras que lhe valeram prémios literários, entre os quais o Femina, o Europeu de Melhor Romance, o FNAC e o Nórdico da Academia Sueca. Por seu lado, a canadiana Eleannor Catton é autora de O Ensaio, um romance de estreia que foi finalista dos prémios The Guardian First Book Award e do Dylan Thomas, além de nomeado para o Orange, tendo sido editado em 17 países. Em 2013, além do Man Booker Prize, recebeu o Canadian Governor General"s Literary por Os Luminares. O escritor português José Luís Peixoto completa o trio de autores que debate uma afirmação de David Foster Wallace.

No terceiro dia do festival, o convidado principal é Benjamin Moser, um dos mais reputados investigadores da obra da poeta Clarice Lispector. Já na sexta-feira, o programa continua com a apresentação do romance de Daniel Alarcon, após o que sobem ao palco os jornalistas Paulo Moura, Cândida Pinto e Carlos Fino para se pronunciarem sobre uma afirmação do repórter e escritor Ryszard Kapuscinski. A noite fecha com o espetáculo da fadista Aldina Duarte.

O último dia do Festival de Literatura da Madeira começa pelas 15.00 e as sessões anunciadas têm um conjunto de personalidades tão diversas como importantes. Frei Bento Domingues, Esther Mucznik e o sheik David Munir debatem o lugar de Jerusalém para as três grandes religiões, segundo uma proclamação de Benjamin Disraeli. Em seguida é o escritor norte-americano Philip Roth que dá o mote para a conversa entre Ottessa Moshfegh, José Gardeazabal e Clara Ferreira Alves.

Antes do fecho oficial, no sábado, pelas 18.00, os escritores Javier Cercas e Daniel Alarcon são os responsáveis por dar uma conclusão ao grande tema do festival, de acordo com o título em causa: Jornalismo é literatura com pressa. O espanhol Javier Cercas é um autor polémico, amplamente traduzido e premiado, com grande parte da obra traduzida para português, como é o caso de Soldados de Salamina, Anatomia de um Instante, O Impostor e o seu mais recente trabalho, As Leis da Fronteira. O peruano Daniel Alarcón tem editado em Portugal A Rádio da Cidade Perdida, que recebeu o Prémio PEN, e À Noite Andamos em Círculos, e foi finalista do Prémio PEN/Faulkner, bem como nomeado para Melhor Romance do Ano pelos jornais San Francisco Chronicle e Washington Post.

Entre estas sessões, decorrem vários workshops e encontros com estudantes, eventos que contam com a participação de delegações parceiras, como a italiana Duna di Sale, a fundação espanhola Uxio Novoneyra, a francesa LitFest e a irlandesa Ó Bhéal. Marcarão também presença autores como Daria Limatola, Dennis Walby, John Eliot, Jean-Rene Pradillon, Manuel Jabois, Paul Casey e Sue Cosgrave.

A oitava edição do Festival Literário da Madeira continua a proposta que foi anunciada na edição de 2011, quando reivindicou para o evento a exigência de ser "um momento cultural incontornável". Segundo os responsáveis, o objetivo do festival era "centrar a discussão nos maiores responsáveis pelos livros que nos fazem pensar, questionar, rir, apaixonar: os escritores". A edição de 2013 foi mais virada para as artes plásticas, tendo concentrado mais autores, ilustradores, artistas plásticos e músicos do que escritores dedicados à ficção. A edição do ano passado preocupou-se com um tema bastante atual: Literatura e web, debatendo o seu estado.

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