Lisboa abre as suas portas: das casas aos palácios

O Open House Lisboa regressa à cidade no próximo fim de semana para abrir gratuitamente 73 das suas portas

Pense num percurso que faça todos os dias em Lisboa, ou que já tenha feito ao passar pela cidade. Recorde edifícios por que passa quotidiana ou regularmente, sem nunca entrar. Alguns, meras casas privadas; outros, palácios, hotéis, ou instituições de diversa ordem. Já terá passado por muitos dos 73 edifícios que estarão de portas abertas para visitas gratuitas e, muitas vezes, comentadas, no próximo fim de semana, 2 e 3 de julho. O nome do evento não podia ser mais claro: Open House.

Lisboa torna a fazer-se casa aberta na iniciativa que nasceu em Londres em 1992 e chegou a Portugal em 2012, pelas mãos da Trienal de Arquitetura. Em relação a 2015, o número de visitantes quase triplicou no Porto, que abriu as suas portas no último fim de semana e recebeu mais de 30 mil visitantes. Mas o essencial aqui não são os números, garante, contundente, o arquiteto José Mateus, que dirige a Trienal.

"Se estivermos demasiado interessados em que o fator número seja crucial, vamos distorcer os valores mais importantes do Open House, que são, nomeadamente, abrir espaços de escala pequena, delicados, onde provavelmente só poderão entrar grupos pequenos. Se o nosso interesse for somar números, não abrimos edifícios nem apartamentos onde o número de entradas é extremamente controlado e limitado, como [o farol] o Bugio ou o Aeroporto de Lisboa. Estamos a falar de espaços muito sensíveis."

Mateus evoca duas estreias na Open House Lisboa: o agora Aeroporto Humberto Delgado, que este ano abrirá portas dos seus bastidores, do extenso controlo de bagagens ao "espaço das pistas e de zonas técnicas do aeroporto", e o farol do Bugio, a que se chega de barco e de onde se vê Lisboa e Cascais.

Se o Open House fosse, então, guiado por números, não estaríamos no número dois da Rua Ilha do Príncipe, nos Anjos, num pátio onde outrora funcionaram várias carpintarias. Quem, de roteiro na mão, escolher visitar aquele que está identificado como o "loft nos Anjos" não se deve deixar desencorajar pelo aspeto do pátio.

Pequenos edifícios escondidos

Avance até ao fundo. Algum dos três voluntários do Open House - que estarão em todos os 73 edifícios - encaminhá-lo-á na visita àquela antiga fábrica de iluminação que é agora o ateliê do cineasta Miguel Clara Vasconcelos e da sua mulher. Também o arquiteto João Tiago Aguiar, responsável pela recuperação do edifício, estará lá para explicar, por exemplo, que aquela escada metálica de "ar esbelto", que leva à mezzanine, tem "muito ferro lá dentro".

Quando visitou o edifício, Miguel viu nele o "espaço ideal para trabalhar, um ateliê para dois artistas". Estava "muito degradado, teve uma vistoria da câmara e esteve sujeito a obras coercivas". Então entrou João Tiago Aguiar, que venceu o concurso para reabilitar a outrora fábrica. Ao cineasta agradava-lhe "um lado austero, ou de simplicidade" no trabalho do arquiteto.

Como este espaço, privado, existem outros que no próximo fim de semana fazem exceção e abrem portas: uma casa em Alfama ou um apartamento no Arco do Cego. Nada discreto, mas igualmente aberto estará o Convento das Bernardas (Museu da Marioneta).

Quando chegamos aos claustros daquele convento da Madragoa, já os voluntários do Open House rodeiam Teresa Duarte, arquiteta que esteve na equipa que, em 1999, ali levou a cabo as obras que permitiram a 34 famílias viver de forma que, provavelmente, as cem que ali viviam antes da intervenção, em "condições horríveis", nem sonhariam. As mesmas obras permitiram que o Museu da Marioneta se instalasse ali em 2001.

Os donos dos estendais que se veem no terraço costumam vir espreitar as atividades que o museu dinamiza nos claustros. Este convento, fundado em 1653 por concessão de D. João IV, destruído no terramoto de 1755 e reconstruído anos depois num projeto do italiano Giacomo Azzolini, já foi, muito depois disso, colégio, liceu, ou o Cine Esperança, outrora a capela, e onde, além de cinema, se cantava o fado. No chão que pisamos houve gente que fez arraiais, ensaiou marchas, lavou redes da pesca, viu filmes. Muito há a contar e é provável que o escute ao longo da visita. Uma sugestão: procure dois pequenos barcos de pesca gravados na pedra de dois degraus entre as muitas escadas do convento.

A Praça dos Restauradores está no seu bulício habitual. Mas abre--se uma das portas do Palácio Foz e Jorge Augusto dos Santos conduz-nos ao século XVIII, lembrando que aquele sítio era uma zona de hortas quando da sua construção. Ele, que trabalha no palácio, contará toda a sua história e falará do marquês de Castelo Melhor e da sua viúva, que vendeu aquele edifício ao marquês da Foz. E depois apontará para aquele Baco atribuído ao pintor flamengo Jacob Jordaens que está encimado por um céu pintado no teto de que nos aproximamos ao subir a escadaria cuja grade foi feita nas galerias Moreau de Paris e onde é evocado Luís XIV de França.

Na visita, vai ficar a par da ruína do marquês da Foz, de como o palácio chegou a ser ocupado pelo Secretariado Nacional da Informação e Cultura Popular, ou de como o quadrado negro que encontra na calçada do jardim era outrora uma estátua de Oliveira Salazar.

Antes ou depois, e se não quiser planear a sua visita no mapa, suba até ao Amoreiras 360º Panoramic View, miradouro que equivale a um 18.º andar. Olhe para Lisboa e escolha o que fazer. Desde a inauguração, a 29 de abril, já 15 mil pessoas subiram àquela torre. Mas não é de números que aqui se trata.

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