"Lá, as pessoas chamam-te 'patrão', só porque és branco..."

Hugo Vieira da Silva adaptou um conto de Joseph Conrad ao contexto do colonialismo português, no século XIX. O DN falou com Nuno Lopes e Ivo Alexandre, uma dupla que se perde no delírio espiritual da floresta africana

Posto Avançado do Progresso é um filme com traços de alguma alucinação, e mesmo sugestão onírica. Este efeito foi produzido, em grande parte, pela própria atmosfera local, ou foi uma intenção objetiva e formal do realizador?

Nuno Lopes (N.L.) - Essa dimensão onírica foi um efeito que o Hugo [Vieira da Silva] quis imprimir - já vinha do texto do Conrad - e que aumenta pelo facto de ele ter acrescentado à narrativa as visitas dos fantasmas da história da relação de Portugal com o Congo.

Ivo Alexandre (I.A) - Há uma presença concreta desse lado místico, até porque estávamos num terreno que é muito ligado aos cultos - foi lá que nasceu o voodoo, por exemplo. Nós no próprio local sentíamos isso, porque as pessoas ali têm crenças mesmo muito intensas, o que jogou em benefício de se provocar essa impressão no espetador.

Pegando na expressão de outro título de Conrad, sentiam-se mesmo no "coração das trevas"?

N.L. - Eu já tinha algumas referências de floresta tropical, porque estive um mês na Amazónia, mas não deixei de renovar um sentimento: o de estar num sítio que não tem dono. Nós aqui vivemos numa espécie de lego, o chão que pisamos tem dono, mas lá és tu o dono e ao mesmo tempo não és. Isso é uma sensação muitíssimo forte.

I.A. - Era inevitável que nos sentíssemos realmente frágeis, é instintivo, porque não temos praticamente defesas. O simples facto de tomarmos banho no rio tem uma imensidão de perigos: os hipopótamos, os crocodilos, as cobras... Portanto, o perigo é real. Particularmente, na zona onde estávamos, tínhamos desde a Black Mamba a cobras que matavam em cinco minutos, e aranhas que matavam em dois... A selva africana é avassaladora, e ao contrário da imagem que nos passam alguns filmes, de espaços enormes, há um aspeto também claustrofóbico. Penso que isso está muito bem retratado no filme. É realmente o coração das trevas.

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.