Kizomba: das festas de quintal para as discotecas da moda

É em Lisboa que começa a nova kizomba, muito pela curiosidade de quem queria aprender a dançar. Hoje há escolas e discotecas onde se voltou a dançar a par ao som de ritmos sensuais

Um fim de tarde junto ao rio Tejo. Lá fora, passam corredores de sapatilhas nos pés. Cá dentro, numa das salas da escola de dança Jazzy, há quem troque os ténis por sapatos de salto alto. "Não é obrigatório as senhoras usarem salto alto, mas ajuda", explica Nuno Furtado, bailarino e professor de salsa e de kizomba. Esta é uma aula de kizomba. Os saltos ajudam a descontrair as ancas e dão um outro balançado ao corpo das bailarinas. O balançado que começa logo aos primeiros acordes da música que sai do iPod do professor, o hit Deixam em paz, de Jennifer Dias e Nelson Freitas. Nesta aula há 11 pares e mais meia dúzia de raparigas, o que significa que os rapazes estão sempre a dançar e as raparigas vão-se revezando. Sem dramas. Em cada exercício, Nuno dá a ordem: "Troca". E trocam-se os pares. "Nesta escola não há pares fixos, todos dançam com todos", explica o professor. Não se trata de treinar pares para exibições, aqui o objetivo é aprender a "dança social", ou seja, para ir a festas e passar um bom bocado. Mas desengane-se quem acha que os homens não querem aprender a dançar kizomba. "Nem sempre há mais raparigas do que rapazes", garante Elsa Eleutério. "Se for dia de futebol, por exemplo, há mais raparigas nas aulas."

Elsa, de 32 anos, é professora primária: "Esta hora, depois do trabalho, serve para desanuviar, esquecer as preocupações", diz. Faz aulas de salsa e de kizomba mas confessa que prefere o ritmo africano. "O mais difícil é ter de tocar nas pessoas que não se conhece. Mas quando se ultrapassa esse obstáculo é muito bom..." Nas aulas, Elsa dança com todos os alunos mas quando sai à noite dança com o seu namorado, Filipe Abreu, 31 anos, que trabalha numa empresa de telecomunicações e é um dos alunos mais dedicados da aula de Nuno Furtado. "Tem de haver entendimento entre o par mas sem palavras, isso é que é mais complicado."

O professor ocupa o centro da aula e exemplifica os passos, cada vez mais complexos. Depois, os alunos tentam imitá-lo. "Para mim a kizomba resume-se numa palavra: abraço", diz Nuno. E é por aí que se começa. "A kizomba implica proximidade, isso é o mais difícil para a maior parte das pessoas. Logo na primeira aula ensino duas posições de abraço, quem decide a posição é a senhora porque normalmente é mais invasivo para ela."

Uma aula de kizomba na escola Jazzy Studios no Cais do Sodré

A kizomba implica proximidade, isso é o mais difícil para a maior parte das pessoas

Há cada vez mais pessoas a querer aprender a dançar kizomba e as aulas de iniciação estão praticamente lotadas, explica Nuno Furtado, um dos fundadores da Jazzy. "Nos últimos anos foi um boom. De repente, toda a gente estava a ouvir kizomba." Não é exagero. Se há uma dúzia de anos era preciso ir a uma discoteca africana para ouvir este ritmo, hoje basta ligar a rádio ou ir a alguma das discotecas da moda em Lisboa (como o Urban ou o Main) para poder dançar uma "tarraxinha".

A importância dos sintetizadores

Como surgiu a kizomba? E onde? Há tantas teorias como maneiras de dançar. Mas o jornalista André Castro Soares, que no ano passado concluiu o mestrado em Antropologia no ISCTE, com a tese Entre Luanda, Lisboa, Milão, Miami e Cairo. Difusão e Prática da Kizomba, não tem dúvidas: "A kizomba não tem muito mais do que 30 anos, portanto quando alguns professores dizem que estão a dançar a tradição da terra, temos que pôr um grande ponto de interrogação aí. Há, claro, uma grande relação com as danças das umbigadas, mais antigas, e com danças do mesmo género - mas o próprio ritmo da kizomba não poderia ser mais antigo, até porque é forjado num órgão eletrónico. É impossível ser tribal."

A kizomba não tem muito mais do que 30 anos (...). É impossível ser tribal

Para perceber a kizomba é necessário recuar às festas de quintal em África, onde, em contexto familiar, se come e bebe, se conversa e sempre se dançou o semba (em Angola) e a passada (em Cabo Verde). Porém, nestas festas, podiam escutar-se outras músicas, do Brasil (o samba), do Congo e das Antilhas (o zouk), Haiti (compas) e de Cuba (rumba e salsa). No início dos anos 80, com a popularização do sintetizador, os músicos que animam as festas começam misturar os vários géneros, transformando-os, e começou a fazer-se "uma lentificação" do semba. Ou, como explica Nuno Furtado: "Os passos já existiam, eram os passos que se dançavam nas festas. Mas os jovens queriam uma coisa mais lenta, mais cool, porque o semba é muito rápido. Queriam um ritmo que permitisse maior intimidade." A esse novo ritmo começou a chamar-se quizomba porque era a música que se ouvia nas festas: kizomba é a palavra da língua Kimbundo que significa festa.
Um dos grandes impulsionadores desse ritmo em Angola foi o músico Eduardo Paim, que era um dos mais habilidosos com a chamada "caixa de ritmos", com a qual produzia kizomba. Em 1989, Paim mudou-se para Lisboa e começou a divulgar o ritmo nas noites lisboetas - em festas e em discotecas africanas. Nesta altura a palavra definia apenas a música mas, no contexto social, já longe dos quintais, a dança adquire novas formas e vai conquistando cada vez mais adeptos. É aqui, em Lisboa, que começa a nova kizomba.

De Lisboa para o mundo

"Naquela altura ninguém tinha aulas de kizomba. Íamos às discotecas e aprendíamos uns com os outros", lembra Nuno Furtado. "Antes de haver uma codificação de passos, as pessoas dançavam na cadência da música" e isso era suficiente, diz também André Soares. Mas à medida que as discotecas africanas recebiam mais não-africanos, havia cada vez mais gente a perguntar: como se dança isto? Foi essa necessidade de ensinar a dançar que levou à formatação dos passos. Neste processo, tiveram intervenção decisiva o Mestre Petchu e Zé Barbosa, um angolano e um cabo-verdiano, que começaram a ensinar danças africanas, em festas, discotecas e depois também noutros espaços, como no Festival Andanças, que surgiu em 1996.

As primeiras aulas de kizomba surgiram no contexto das aulas de "danças africanas" em lugares como o Ateneu Lisbonense ou o Dance Factory. Nuno Furtado, de 39 anos, lembra-se bem. De origem cabo-verdiana, curiosamente Nuno começou por ser bailarino e professor de dança jazz e depois de salsa, e só mais tarde é que percebeu que poderia também ensinar os passos que sabia desde miúdo: "Para mim dançar kizomba era natural, das cachupadas de família e das noites nas discotecas, mas quando quis ensinar tive que parar para pensar. Tive que desestruturar tudo o que eu sabia de corpo para passar para outra pessoa." O que Nuno fez foi o que fizeram todos os outros bailarinos e professores, que acabaram por criar uma outra kizomba que não é angolana nem cabo-verdiana, é lisboeta. E assim, sublinha André Soares, tornou-se "um produto capaz de ser consumido por pessoas de diferentes nacionalidades".

Por esta altura, Olga Chaby e Sérgio Banderas (conhecido como DJ Banderas) eram frequentadores de discotecas africanas e de festas latino-africanas em Lisboa. "Tinha havido a moda da salsa e das danças latino-americanas. E a kizomba começou a aparecer nessas festas, onde os ritmos africanos também entravam. Os DJ perceberam que as pessoas gostavam e começaram a passar cada vez mais", lembra ela. Então, Olga e Sérgio decidiram abrir um espaço para festas onde a kizomba fosse o prato principal. "Foi um sucesso enorme", lembra ela. Hoje, Olga e Sérgio são os donos da River Party e organizam as mais conhecidas festas de kizomba que acontecem em vários sítios - no Barrio Latino, no Ondeando e noutras discotecas, mas também no estrangeiro.

Dançar abraçado

Na última meia dúzia de anos, a kizomba entrou definitivamente no ouvido de toda a gente. A última barreira a ultrapassar foi a televisão. "Assim que os media começaram a falar de kizomba e começou a aparecer na televisão foi o grande boom", diz DJ Banderas. Em 2013, Anselmo Ralph teve uma participação especial no programa Big Brother Vip, da TVI. Nesse verão era quase impossível andar na rua e não ouvir Anselmo a cantar "Agora não me toca". Desde então, músicos como Nelson Freitas ou Badoxa tornaram-se familiares.

Voltemos, então, à aula de Nuno Furtado, onde se dança ao ritmo de Estragar, de C4Pedro. Na kizomba a regras são o par fechado constituído por uma pessoa que conduz a dança e outra que segue o parceiro. "O homem conduz e a mulher brilha. Se o teu par está a brilhar é porque estás a fazer um bom trabalho."

A música puxa o pé para a pista, a sensualidade dos movimentos torna-a apetecível mas será, muito provavelmente, o abraço, que Nuno tanto valoriza, o segredo do sucesso da kizomba. Há muito tempo que não se via tanta gente a dançar a par nas discotecas. Voltamos a abraçar-nos a outros, que podemos até nem conhecer. E isso não tem mal, porque estamos só a dançar. Ou como diz Olga Chaby: "Se souberes dançar nunca estás sozinho, passas a noite toda acompanhado."

Se souberes dançar nunca estás sozinho, passas a noite toda acompanhado

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.