Kendrick Lamar. E toda a gente cantou e dançou como se não houvesse amanhã

De La Soul passaram o testemunho ao californiano para um concerto memorável na história do Super Bock Super Rock. Com casa cheia

Desde muito cedo se percebeu que esta ia ser uma noite especial, histórica mesmo, pelas longas filas que desde o início da tarde de sábado se começaram a acumular à entrada do recinto do Super Bock Super Rock, no Parque das Nações, em Lisboa.

Poucos esperavam era o que horas mais tarde viria a acontecer no interior do Meo Arena, primeiro com os De La Soul, o trio nova-iorquino que desbravou novos caminhos para o hip-hop com álbuns como 3 Feet High and Rising, De La Soul Is Dead ou Stakes Is High, quando muita desta gente que ali os celebrava ainda nem era nascida. Mas a velha escola de um DJ e dois MC ainda dá cartas e joga com todos os trunfos na mão.

Por momentos, o imenso pavilhão mais parece um pequeno clube, onde todos se miram olhos nos olhos em volta das palavras e do ritmo debitados em palco por Posdnuos, Dave e Maseo, que em seguida transformam o recinto numa imensa pista de dança, ao som de clássicos como A Roller Skating Jam Named 'Saturdays', Me, Myself and I ou Feel Good Inc., o tema assinado a meias com os Gorillaz - este sim, já mais familiar das novas gerações que quase lotava o Meo Arena.

Foi quase uma passagem de testemunho, pois sem os De La Soul o que viria a seguir poderia até nunca ter existido. Mas isso são meras conjeturas, porque a verdade é que Kendrick Lamar é apenas o que é. Não é o futuro da música, mas o presente. Esqueçam-se os rótulos, as fronteiras estéticas e estilísticas e oiça-se apenas a música. Se com To Pimp a Butterfly, o álbum da consagração, de 2015, já havia sido elevado ao Olimpo, assistir hoje a um espetáculo do rapper norte-americano é também como entrar em território divino.

Acompanhado de uma banda de virtuosos, que ora oscilava entre as sonoridades mais experimentais do free jazz, a doçura da soul ou a ginga do funk, Kendrick Lamar não fez a coisa por menos e protagonizou uma das noites mais memoráveis da já longa história do Super Rock. "Look both ways before you cross my mind", estava escrito no palco, numa citação do mestre George Clinton, o mentor do P-Funk, cuja frase resume na perfeição o que esta noite ali se passou, tantos foram os caminhos trilhados por Kendrick Lamar, muito, muito para além do hip-hop. E toda a gente cantou e dançou como se não houvesse amanhã.

"Este é um mundo estranho, vamos celebrar a vida", anunciou, qual messias, que também se comove, ficando longos minutos em silêncio (de lágrimas nos olhos?) a fitar a multidão que o aclamava e que, à falta de melhor, entoou o cântico a Éder, o tal que os "lixou" - momentos antes de subir ao palco, não foi Éder, mas Renato Sanches que conheceu nos camarins, ao que consta a pedido do próprio artista norte-americano. "That's love", sussurra para o microfone. E é mesmo. "I Love Myself", canta Kendrick em I e toda esta gente responde em coro, amando-o também a ele, como só acontece com artistas assim...

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