Joshua Tree, a árvore que nunca morre e continua a dar frutos

Passados 30 anos, U2 regressam ao álbum mítico, com edições especiais e uma digressão para o tocar na íntegra

Continua a valer um dos mais saborosos arrepios que a música pop consegue provocar - aquele crescendo sonoro comandado por uma guitarra rasgada, tão ao jeito de The Edge, a cavalgada rítmica até ao momento em que se ouve a voz de Bono proclamar "I want to run, I want to hide", para logo a seguir desatar a subverter a letra que ele próprio tinha escrito, a porta que se abre para os esplendores de The Joshua Tree, merece lugar de destaque na legião dos grandes momentos da história do rock. Por mais vezes que se regresse a essa canção, Where the Streets Have no Name, e às duas que se lhe seguem, I Still Haven"t Found What I"m Looking for e With or Without You, as emoções nunca se esgotam. Espantosamente, raramente se repetem, apesar de os temas em causa terem sido "objeto de consulta" em muitas ocasiões, ao longo de 30 anos.

Tudo ameaça recomeçar agora: a partir de sexta-feira, dia 12, na cidade canadiana de Vancouver, e até dia 1 de agosto, em Bruxelas, Bélgica, quando voltar a cair a cortina sobre esta presença de The Joshua Tree no centro das atenções, serão 33 noites em que o som abrasivo, épico e mobilizador daquele que foi o quinto álbum dos U2 voltará a empolgar plateias, já capazes de cruzar os novos adeptos com os pais, velhos militantes desta causa particular. Bono, que não é rapaz de meias-palavras, já deixou o seu recado, que ultrapassa largamente a efeméride, por mais redondinha que seja: "Podemos pensar, sem esforço, que se completou um círculo. Este disco foi escrito em meados da década de 1980, em plena era Reagan-Thatcher, no que toca às lideranças políticas norte-americana e britânica. Foi um período de grandes dúvidas e inquietações. Thatcher tentava por todos os meios acabar com a greve dos mineiros; havia múltiplos focos de agitação na América Latina. De alguma forma, parece que regressámos a esses tempos. Também por isso decidimos voltar em força a estas canções - porque elas dispõem de um significado e de uma ressonância que não se verificava há três ou quatro anos".

Saibam os afortunados seguidores da banda irlandesa que se se tornarem espectadores desta tournée, que deixa Portugal de fora e que contará apenas com uma dúzia de shows europeus (o que torna o de 18 de julho, em Barcelona, recomendável, por ser o que nos fica mais próximo, e o de 22 de julho, em Dublin, imbatível, por permitir ver os U2 a "jogar em casa"), vão assistir a algo inédito: a passagem em palco de todas as onze canções de The Joshua Tree - em média, na digressão "original", eram tocadas sete ou oito. E há uma, Red Hill Mining Town, que ainda está por estrear... até sexta-feira.

Crescimento acelerado

Recuemos até 1987, mesmo sem grande demora. Era um ano Pink Floyd, com A Momentary Lapse of Reason - o primeiro sem Roger Waters. A batalha entre Michael Jackson e Prince rendia, a todos, Bad e Sign "o" the Times. Os Smiths despediam-se prematuramente com Strangeways, Here We Come. Madonna piscava o olho ao cinema, com Who"s That Girl. Os The Cure galgavam patamares com o exuberante Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me. Os americanos cumpriam um ano de esplendores com Bruce Springsteen e Tunnel of Love, os R.E.M. e Document, John Mellencamp e The Lonesome Jubilee, 10 000 Maniacs e In My Tribe. Quanto aos U2, depois do reconhecimento crítico e da conquista de um estatuto de culto com The Unforgettable Fire (1984), Bono, The Edge & Cª queriam mudar o desfecho, sem beliscar a equipa de produção que lhes tinha rendido o passo em frente face à trilogia inicial de álbuns (Boy-October-War). Por outras palavras, era ponto assente que Brian Eno e Daniel Lanois voltariam a comandar a produção. Ficou claro, depois das conversas exploratórias, que o caminho passaria por regressar a um som mais forte e mais cru (o que já tinha rendido temas como Sunday Bloody Sunday ou New Year"s Day), sem que isso implicasse um retrocesso. A paixão pela América vinha do disco anterior, com canções como Pride (In the Name of Love), dedicada a Martin Luther King, 4th of July, Indian Summer Sky ou Elvis Presley and America. Mas aquilo que era uma proximidade visceral, precisava de aprofundamento - a descoberta de Bob Dylan, o contacto com músicos norte-americanos (como Miami Steve van Zandt, da banda de Springsteen), as viagens pelo país garantiram essa ponte, cujo resultado se torna perfeitamente percetível em diversos momentos de The Joshua Tree.

Os U2 no concerto no estádio de Coimbra em 2010

Além de Dylan, os músicos dos U2 acabariam por reconhecer mais duas influências de largo espetro para decifrarem o caminho seguido: o conterrâneo Van Morrison e o icónico Keith Richards. Havia, em suma, um quadro intensificado de presença das raízes, ao mesmo tempo que se mantinha um forte pendor político nas temáticas, em que (sobretudo) as políticas externas made in U.S.A. levavam que contar. Em caso de dúvida, basta conferir as ironias e os tiros certeiros de In God"s Country, Bullet the Blue Sky ou Mothers of the Disappeared, além de Where the Streets Have no Name, claro.

Como já ficou dito, estas canções vão regressar à ribalta. Em palco, mas também em disco. A 2 de junho, serão editadas duas edições comemorativas: uma junta ao álbum original, um segundo CD com o registo do concerto da banda no Madison Square Garden, em 1987. Outra, a deluxe, soma um terceiro CD com raridades, lados B e temas excluídos da edição original (à semelhança do que já aconteceu em 2007, no vigésimo aniversário), e um quarto, com remisturas assinadas por Steve Lillywhite, já este ano, além de um álbum fotográfico da autoria de The Edge. Resta saber se, no fim de toda esta reciclagem, o baterista Larry Mullen Jr. será capaz de repetir o que disse depois da explosão comercial e do aplauso universal à banda, que chegou à capa da revista Time: "De repente, éramos os maiores. Mas não éramos os melhores." Hoje, talvez não andem longe disso.

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