Jorge Vieira. Seres estranhos invadem a Galeria São Mamede

Esculturas e desenhos do artista que criou o Homem Sol da Expo"98 estão, a partir de hoje e apenas por um mês, na galeria onde o escultor já tinha exposto em 1971

Uma das peças tem o nome Figura bizarra e será talvez esta a designação geral das 15 esculturas, umas em bronze e outras em terracota, e dos 21 desenhos de Jorge Vieira que até 27 de junho ficam expostos na Galeria São Mamede, em Lisboa. Entre eles, contam-se um cavalo em bronze, dois touros, um homem-cabeça e um Ser estranho 3 braços , estes em terracota.

Para o galerista Francisco Pereira Coutinho, a exposição tem um forte significado afetivo. Desde pequeno, em visitas à galeria que o pai criou nos anos 1960, habituou-se a ver obras de arte contemporânea e a conhecer os seus criadores. Conta que sempre "adorou" a obra de Jorge Vieira, e nos últimos anos foi tentando recuperar algumas peças que pertenceram ao pai, pois este leiloou toda a coleção pouco antes de morrer. É o caso de Ser estranho 3 braços, que figurava na capa do catálogo da exposição que Cruzeiro Seixas organizou em 1971. O ex-líbris da galeria, um São Mamede em terracota que se encontra embutido numa parede, foi feito pelo próprio Jorge Vieira.

Entre as obras agora expostas, algumas fazem parte da coleção da viúva de Jorge Vieira, a também artista plástica Noémia Cruz, com destaque para um grande Touro branco em terracota. Talvez uma das figuras com mais impacto seja a Figura bizarra em bronze, de 1952, feita dois anos antes de Jorge Vieira frequentar a Slade School of Fine Arts, em Londres, sob a orientação de Henry Moore, McWilliam e Reg Butler.

Os visitantes habituais do Museu do Chiado reconhecerão nestas obras as linhas de força do trabalho de Jorge Vieira, pois encontra-se ali bastante representado. São dele os conjuntos de três músicos e dois bailarinos instalados no jardim do museu, que estiveram misteriosamente desaparecidos ao longo de décadas até que se descobriu que tinham ficado num armazém do ICEP.

Outra obra que se julgava perdida foi recentemente descoberta por Noémia Cruz num jardim da cidade japonesa de Sakai - o jardim Xavier. Trata-se de Encontro Oriente-Ocidente, oferecida pelo Estado português à cidade depois de ter figurado na exposição mundial de Osaka, em 1970. Encontrou-a depois alguma investigação e muitos contactos, como ela própria conta: "Combinei uma viagem ao Japão com amigos e muito antes de partir pus-me a investigar, a ver se a localizava. Havia poucas informações. Já estávamos no fim da estadia quando consegui saber que a peça estava em Sakai e fui rapidamente até lá para vê-la, numa madrugada antes de partir. Foi muito comovente."

Talvez a obra mais conhecida de Jorge Vieira, ou mais familiar para o público, seja o Homem Sol criado a convite da Expo"98, instalado em frente ao Centro Comercial Vasco da Gama. Esta foi uma das obras de grandes dimensões do final da vida do escultor que morreu subitamente, em Estremoz, a 23 de dezembro de 1998.

Nascido em Lisboa em 16 de novembro de 1922 - um dia fértil, já que foi a mesma data de nascimento de José Saramago e de José-Augusto França - o artista fez a formação inicial em escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa. Em 1953 foi premiado no concurso internacional do Institut of Contemporary Arts com o Monumento ao Prisioneiro Político Desconhecido, que esperou 50 anos para deixar de ser a pequena maquette exposta então na Tate Gallery e tornar-se a escultura monumental, instalada hoje no centro de Beja.

Viveu os últimos anos entre Lisboa e uma azenha em Estremoz. Mas foi Beja a cidade que escolheu para deixar o espólio, patente no Museu Jorge Vieira-Casa das Artes. Foi professor, primeiro na Escola António Arroio, depois nas Belas Artes do Porto e de Lisboa, escola onde veio a jubilar-se em 1992.

Jorge Vieira

Até 27 de junho

Galeria São Mamede - Rua da Escola Politécnica, 167, Lisboa

De segunda a sexta das 11.00 às 20.00, sábados das 11.00 às 19.00.

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