João Pedro Rodrigues leva "O Ornitólogo" a Locarno apesar de ter salários em atraso

Sindicato dos trabalhadores do audiovisual denuncia irregularidades nos salários em filmes que já estão prontos.

O filme O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, vai ser apresentado em estreia mundial no próximo dia 8 na competição do Festival de Cinema de Locarno, Suíça. Mas haverá uma sombra a pairar sobre esta estreia: é que pelo menos 12 trabalhadores, entre os quais o próprio realizador, têm salários em atraso. A denúncia da situação foi feita pelo Cena - Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espetáculo e do Audiovisual, que hoje emitiu um comunicado onde, além de O Ornitólogo, refere uma situação semelhante com o filme Zeus, de Paulo Filipe Monteiro, onde pelo menos cinco trabalhadores têm ordenados em atraso.

"Foram os trabalhadores que vieram ter connosco, pedindo ajuda para resolver esta situação. Porém, apesar dos nossos esforços, as produtoras continuam sem regularizar a situação", explicou ao DN André Albuquerque, presidente do sindicato. Os dois filmes obtiveram financiamento do ICA - Instituto do Cinema e Audiovisual e embora os pagamentos ainda não tenho sido feitos na totalidade, o Cena considera que os atrasos nos salários não é justificável com os atrasos do ICA.

No caso de O Ornitólogo, por exemplo, falta entregar à produtora 30 mil euros mas os valores dos ordenados em atraso vai muito para além disso. "Os trabalhadores decidiram agir judicialmente e encontra-se a decorrer um processo de execução no ICA para garantir que quando os 30 mil euros forem entregues eles irão para os trabalhadores. Mas não vai ser suficiente", explica André Albuquerque.

"Estes enredos não são novos, por isso mesmo é ainda mais lamentável que eles continuem a acontecer. E quando os filmes são produzidos com recurso a financiamentos de um instituto público é ainda menos admissível que estas situações ocorram", lê-se no comunicado do Cena. Segundo a nova Lei do Cinema, uma empresa que não tenha as suas contas regularizadas fica inibida de concorrer a financiamentos do ICA durante dois anos. "Mas estes projetos são anteriores a essa lei", explica André Albuquerque.

O filme Zeus, sobre o antigo Presidente da República Manuel Teixeira Gomes, é produzido pela Happygénio (que tem trabalhado com realizadores como Francisco Torre do Vale, Zezé Gamboa e Miguel Clara Vasconcelos). No elenco, conta com Sinde Filipe, Ivo canelas e Paulo Pires, entre outros. A rodagem terminou em dezembro do ano passado. O sindicato diz que "foram feitos pagamentos aleatórios a alguns trabalhadores sem que a produtora conseguisse justificar essa diferenciação entre os trabalhadores". Além disso, "após intervenção do Cena, a produtora pagou a uma trabalhadora, fazendo promessa de rapidamente pagar os valores em falta aos restantes trabalhadores, o que até agora não se verificou".

O Ornitólogo, co-produção da Blackmaria com a francesa House on Fire e a brasileira Ítaca Filmes, inspira-se na lenda de Santo António e segue Fernando, um homem de 40 anos fascinado por aves que, certo dia, decide descer o rio com seu caiaque na esperança de avistar raras cegonhas negras. Mas, durante esse percurso, é desviado do seu percurso. A rodagem decorreu entre agosto e novembro do ano passado na região do Douro (Portugal) e em Pádua (Itália).

"Este filme foi uma co-produção extremamente complicada entre Portugal, França e Brasil. Diria mesmo acidentada. A situação não é tão linear como a denúncia a quer fazer parecer", afirma João Figueiras, da produtora Blackmaria, quando confrontado com este comunicado do Cena. Explica que após a retirada do primeiro co-produtor brasileiro houve que encontrar um segundo parceiro no Brasil: "Com a entrada do novo co-produtor estivemos o último ano a tentar desbloquear a verba ganha no concurso de co-produção Luso Brasileira. Este valor que inicialmente seria de cerca de 100 mil euros está agora reduzido para menos de metade devido à desvalorização do Real. O processo burocrático no Brasil é um pesadelo. E apesar dos incansáveis esforços do nosso co-produtor brasileiro para desbloquear a situação, só agora é que parece haver uma luz ao fundo do túnel."

João Figueiras garante que a produtora nunca falhou os seus compromissos e não é agora que o vai fazer: "Sempre foi intenção da Blackmaria resolver a questão e sempre será. Esta é uma situação anómala e que acontece pela primeira vez."

João Pedro Rodrigues já tinha trabalhado antes com a Blackmaria (por exemplo para fazer A Última Vez que Vi Macau, em 2012, e antes disso a curta Alvorada Vermelha) e confirma que esta é a primeira vez que tem salários em atraso. "O filme está feito e estará em Locarno, o facto de haver salários em atraso não vai afetar o filme. Mas afeta-nos a nós, nas nossas vidas", diz ao DN João Pedro Rodrigues. "E é triste que depois tanto trabalho, de tanto empenho, as pessoas não sejam pagas como deviam ser."

O DN tentou contactar a produtora Happygénio, por telefone e por e-mail, mas até agora sem qualquer sucesso.

* Notícia atualizada às 23.00 com a reação da produtora Blackmaria.

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