João Pedro Marques: "A escravidão está sempre a ressurgir"

O historiador e romancista João Pedro Marques assina o primeiro volume da nova coleção da editora Guerra & Paz Livros Vermelhos. O tema é polémico e o título tem uma só palavra: Escravatura.

Não acredita que os portugueses se interessem muito pelo tema, pois "no passado isso não aconteceu". Também não está preocupado em desmistificar a participação portuguesa na construção desta forma de explorar o outro: "Foi a que foi e está estudada pelos historiadores, entre os quais eu. A minha intenção ao voltar a escrever sobre o assunto, dirigindo-me desta vez aos leitores em geral, foi a de tentar esclarecer mal-entendidos que aparecem nas ideias e discursos de muitas pessoas."

Sendo Portugal um dos pioneiros e mais forte nas "empresas" dedicadas ao comércio de escravos, porque desconhecem tanto os portugueses esta parte da sua história?

Há várias razões, mas realço a seguinte: para os portugueses o tráfico transatlântico de escravos era uma questão longínqua. Na época em que o tráfico assumiu grande dimensão, séculos XVIII e XIX, era algo que se processava entre o Brasil e a costa de África, com reduzida participação de Lisboa. Às vezes as pessoas falam em tráfico triangular, mas não estão bem informadas pois foi raro fora dos séculos iniciais. O Portugal metropolitano não estava no âmago do circuito negreiro.

Refere o projeto da Unesco The Slave Route e os desmandos que existem nos trabalhos que patrocina. Porquê?

Não diria desmandos, mas sim parcialidades. Há atualmente uma disputa em redor da memória e da história da escravatura. A Unesco, ou melhor, as pessoas que, no exterior, lançaram e dirigem o projeto The Slave Route, ou algumas das que escrevem sob sua égide, tomaram partido nessa disputa. O site da Unesco apresenta como verdade estabelecida coisas que não o são.

Diferencia escravatura e escravidão. Justifica-se hoje tal ignorância sobre as grandes questões históricas?

É mais uma confusão terminológica e conceptual que vem do século XIX e das resistências nacionais à insistente pressão abolicionista inglesa. Nesse contexto, os portugueses começaram a utilizar escravatura (que era uma forma abreviada de dizer tráfico de escravos ou de referir um grande número de escravos) no sentido de escravidão. Num livro de história as palavras devem ser usadas de forma rigorosa.

A propósito do centenário da revolução russa houve uma grande - às vezes errada - revisão da história. A escravatura merecia um debate assim?

A escravatura está em grande debate há mais de 200 anos. É falsa a ideia de que é uma questão silenciada e é preciso quebrar o silêncio. De 1966 até agora publicaram-se quase 25 mil livros e artigos sobre o assunto. Mesmo em Portugal, onde houve períodos de silêncio e de desinteresse, a questão foi intensamente debatida em certas épocas.

Ainda há documentação nos arquivos nacionais para ser divulgada, até capazes de alterar a visão histórica?

Sim, há documentação para divulgar e sobretudo novas perguntas a fazer à documentação conhecida. Mas não acho que novos documentos ou novas perguntas possam alterar radicalmente a nossa visão das coisas. O historiador nunca faz descobertas explosivas que mudem completamente a nossa visão do mundo. As suas descobertas conseguem-se pelo aprofundamento do inquérito e pela mudança de enfoque, o que pode acabar por compor um quadro com nuances novas. Apenas isso.

A escravatura liderada por portugueses foi menos benigna do que sucessivas gerações de historiadores lusotropicalistas têm tentado demonstrar?

Não uso o termo lusotropicalista, que remete para questões armadilhadas, datadas e politicamente condicionadas. Não conheço historiadores atuais que queiram demonstrar que a escravatura portuguesa foi benigna. A escravatura nunca é benigna mas como eu refiro no livro, é muito difícil dizer qual dos sistemas escravistas que existiram no passado foi mais injusto ou cruel. Todavia, a respeito da ideia de relativa benignidade deixe-me dizer-lhe que ela é muito anterior a Gilberto Freyre. Encontra-se em Solano Constâncio, por exemplo. Claro que Solano escreveu em 1819 e depois disso muito se passou. O ponto é que a teoria a que chamam lusotropicalismo, independentemente da maior ou menor adequação à realidade observável, é muito antiga e persistente na nossa cultura.

Dá como título ao capítulo "Por que razão aderiram os africanos à venda de gente para o exterior?" É necessário chamar a atenção do leitor para essa fase inicial ou nada se compreenderá?

Sim, é absolutamente imprescindível e quase nunca se faz. O tráfico transatlântico de escravos foi realizado por europeus e africanos, e pôs em jogo sociedades que se organizavam e funcionavam segundo lógicas diferente. É preciso perceber essas lógicas e como elas interagiam. Joseph C. Miller escreveu um livro extraordinário sobre o tráfico em Angola, Way of Death, onde tudo é explicado com grande detalhe. Quem o leu em Portugal? Os africanos não foram forçados a vender pessoas, os que participaram nesse horrível negócio fizeram-no porque tinham interesse. Se não percebermos as razões pelas quais aceitavam trocar pessoas por certos produtos nunca perceberemos por que razão o tráfico transatlântico se montou e se perpetuou. O mesmo com o tráfico para o mundo muçulmano.

Até que ponto a abolição aconteceu, tendo em conta a existência de escravos na sociedade atual?

A abolição aconteceu. Foi uma das maiores conquistas do Ocidente. A abolição nas colónias ou ex-colónias iniciou-se no Vermont, em 1777, e no prazo de um século foi-se impondo no mundo colonial. Quando o Brasil pôs fim à escravidão, em 1888, deixaram de existir escravos nas Américas e na Europa. Depois, a emancipação chegou aos outros continentes. Mas não há conquistas permanentes. A triste verdade é que a escravidão está sempre a ressurgir de formas ilegais. Por outro lado, o fim da escravidão abriu muitas vezes a porta ao trabalho forçado. Isso aconteceu em várias partes do mundo e de uma forma particularmente brutal em África, com a chegada em força do colonialismo e com a partilha do continente entre as potências europeias.

Concorda com a correção de obras literárias politicamente não corretas?

Não. Sou contra essa e outras formas de "correção" das vozes do passado para as ajustar às ideias ou aos interesses do presente. Isso é Orwell. Sou frontalmente contra o politicamente correto.

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