Jerry Seinfeld. O regresso do humor sobre nada... e tudo

São 24 novos episódios de uma série que criou e em que é o anfitrião - mas sem ligação à mítica Seinfeld. Jerry regressa, isso sim, às suas origens: ao stand-up. A partir de terça-feira, 19, na Netflix.

Os factos, antes de mais nada: por um montante não revelado, Jerry Seinfeld transfere-se para a equipa Netflix, decididamente a jogar ao ataque no setor da comédia e, mais especificamente, no domínio stand-up. Além de uma zona mais vaga no clausulado do contrato, que consiste na colaboração de Seinfeld no desenvolvimento de novos projetos da plataforma, através de "guiões" e de "aconselhamento" ou "consultoria", o comediante propõe-se gravar novos episódios da série, que criou e de que é anfitrião, Comedians in Cars Getting Coffee. Quantos, quando e com quem (e, já agora, em que carros...) - eis questões a que o tempo responderá. A Netflix ganha também direito ao acervo dos diferentes capítulos já exibidos desde 19 de Julho de 2012, num total de seis dezenas.

A "sinopse" é fácil de fazer: Seinfeld convida uma figura pública, as mais das vezes oriunda da comédia, para um passeio, quase sempre urbano, num carro clássico (e vários dos automóveis vêm da famosa coleção do próprio), para um café a bordo e para uma conversa à solta. Ou seja, como Seinfeld parece gostar, sem tema de partida definido e com um ponto final impossível de adivinhar. Dura cerca de vinte minutos esta "viagem" que, em última instância, se propõe mostrar uma faceta menos conhecida do convidado. A lista de estrelas que já passearam com Seinfeld é, no mínimo, esmagadora: Ricky Gervais, Alec Baldwin, Mel Brooks, Carl Reiner, David Letterman, Seth Meyers, Chris Rock, Louis C.K., Jay Leno, Tina Fey, Howard Stern, Sarah Jessica Parker, Jon Stewart, Amy Schumer, Jimmy Fallon, Jim Carrey, Stephen Colbert, Steve Martin, Will Ferrell. Kristen Wig e Christoph Waltz, além dos seus velhos parceiros Larry David (cocriador de Seinfeld), Jason Alexander, Michael Richards e Julia Louis-Dreyfus, que com Jerry formaram o inesquecível quarteto da série do nosso contentamento, que nos ensinou ou relembrou como o "nada" do quotidiano é uma fantástica fonte para o humor. Vale a pena mencionar mais um dos convidados de Comedians..., um tal Barack Obama, ao tempo presidente dos Estados Unidos... Curiosamente, Seinfeld nunca conseguiu contar com a presença daquele que considera o maior cómico de todos os tempos: Bill Cosby. Com a polémica e com as questões judiciais que este enfrenta, não crescem as probabilidades de poder juntá-lo ao impressionante "elenco".

Além disso, há outro compromisso, que vai levar o protagonista de volta às suas origens de praticante de stand-up - dois espetáculos em que Seinfeld se propõe revisitar sketches antigos e juntar-lhes piadas novas. O primeiro, agendado para a próxima terça-feira, chama-se Jerry before Seinfeld [Jerry antes de Seinfeld] e incluirá imagens e filmes do comediante na infância, na juventude e nos primeiros passos profissionais. Convirá recordar que este não é o primeiro passo do artista no regresso à especialidade que o revelou - a 9 de agosto de 1998, menos de três meses depois de o último episódio de Seinfeld ter sido exibido, Jerry subia ao palco do Broadhurst Theater, na Broadway, para apresentar I"m Telling You for the Last Time, um espetáculo de 75 minutos em que, supostamente, se encerrava a parte mais exposta da sua vida na comédia. Ainda hoje, os colecionadores recorrem muitas vezes ao DVD dessa sessão, transmitida ao vivo pela TV, como um exemplo do desempenho perfeito e como cartão-de-visita da enorme dimensão do autor.

Quatro anos depois, outro DVD - produzido por Seinfeld e realizado por Christian Charles - documentava, de forma detalhada e crua, as angústias e as vitórias do regresso da grande estrela da televisão aos pequenos palcos do stand-up. Em paralelo, surgem vários veteranos do género, bem como um novato à procura do lugar ao sol. Ainda assim, as luzes vão-se virando para Jerry, que, em várias ocasiões, reconhece o paradoxo daquela teimosia que o leva, na prática, a recomeçar, quando devia estar em casa, a gozar o êxito. Todo o processo de "reinserção" é acompanhado ao pormenor, primeiro com o comediante a ver-se aflito para conseguir chegar aos 20 minutos de espetáculo, depois com a confiança a crescer, à medida que o tempo de palco também vai aumentando. À época, Seinfeld sintetizou bem o seu estado de espírito: "Para uma pessoa normal, o equivalente daquilo que fazemos seria ir trabalhar todos os dias usando apenas roupa interior e tentando, mesmo assim, cumprir todas as tarefas habituais de um dia no emprego. De repente, percebes que, naquelas condições, é impossível fazer o que quer que seja. Acho que isso é muito semelhante ao que sente um comediante quando tenta introduzir uma novidade no seu espetáculo." Para quem viveu durante quase nove anos resguardado pelo manto protetor da TV, adivinham-se as dificuldades e os suores frios causados por uma série de apresentações sem rede, diante de um público que faz os seus julgamentos sem que estes dependam de um currículo ou de um alcance mediático. No stand--up é mesmo cara a cara.

Com aventura ou risco calculado, é inegável a importância dessa dimensão presencial e solitária no percurso do cómico nascido a 29 de abril de 1954. De tal forma que o título de trabalho da proposta que "desaguaria" em Seinfeld era mesmo Stand-Up - nela, Jerry e Larry David propunham-se "desmontar" o processo criativo de um comediante e mostrar como a banalidade da vida de todos os dias dispunha de uma presença fundamental na génese do humor. Os responsáveis da cadeia NBC avaliaram a ideia e julgaram - ainda bem - que a mesma era passível de desenvolvimento para uma série. Menos fé tinha o ator Jason Alexander, que se tornou conhecido como George Constanza, a quem Seinfeld pediu uma opinião sincera, ainda antes da exibição do episódio-piloto. Jason terá respondido que Seinfeld não tinha "a menor hipótese": "Porque só é suscetível de interessar a um tipo como eu. E eu não vejo televisão."

Quase uma década depois, Seinfeld tornava-se a terceira série da história da TV norte-americana a liderar audiências do primeiro ao último episódio da temporada de despedida (depois de I Love Lucy, em 1951, e de The Andy Griffith Show, em 1960), há muito ultrapassados os problemas iniciais, demonstrativos da proximidade entre as ocorrências televisivas e a vida real: primeiro, foi Kramer que, por um episódio, se chamou Kessler, até que fossem satisfeitas algumas reivindicações de Kenny Kramer, o vizinho de Larry David que inspirava a personagem; depois foi Michael Constanza, "pai" involuntário de George, que processou o seu amigo Jerry em cem milhões de dólares, por intrusão na vida privada. Tudo isso parecia um passado distante, diante da escala alcançada: na véspera da exibição do último episodio - número 173 -, a NBC exibia um capítulo da série Dharma & Greg em que o casal protagonista se sentia à vontade para fazer amor na via pública, uma vez que todos estavam em casa a ver o Seinfeld derradeiro. No último dia, a 14 de maio de 1998, morreu Frank Sinatra. O público americano foi muito pragmático: primeiro, despediu-se de Seinfeld e, depois, começou a dizer adeus ao Old Blue Eyes.

Há quase vinte anos, o artista principal recusou 110 milhões de dólares para assegurar mais uma temporada da série. O que também ajuda à conclusão: mesmo sem Seinfeld, Jerry é sempre bem-vindo.

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