Jeff Buckley. Há inéditos para descobrir em You and I

O álbum gravado em 1993 nos estúdios da Columbia Records é lançado hoje. David Fonseca recorda "a voz extraordinária" de quem "tocava guitarra como quem canta"

A 29 de maio de 1997, Jeff Buckley morria afogado em Memphis, no rio Wolf. Tinha 30 anos. Mas viveu, tocou, cantou e compôs o suficiente para que entre Jimmy Page, PJ Harvey, Thom Yorke ou Bono não exista alguém que não diga que foi extraordinário. Entre o que cantou e tocou estão os inéditos que compõem You and I, lançado hoje, composto por temas gravados na altura em que Buckley acabava de entrar nos estúdios da Columbia Records.

Estávamos em 1993 e ainda não existia o EP Live at Sin-é - aquele pequeno café nova-iorquino que servia comida, café e cerveja, não tinha palco, e onde Jeff, que fez dele a sua casa musical, chegava a lavar pratos. Nem existia ainda o seu único álbum de estúdio, o mítico Grace.

You and I, o nome que vem da canção que Buckley diz ter ouvido num sonho e canta ali, Dream of You and I. No disco canta ainda Just Like a Woman, de Bob Dylan. Tema que já havíamos escutado numa edição póstuma de Live at Sin-é, a que foram acrescentadas várias canções às quatro originais.

De Jeff Buckley, que muitos conhecerão por covers icónicos de canções que, se assim se puder dizer, fez suas, como Lilac Wine, de Nina Simone, ou Hallelujah, de Leonard Cohen, escutamos ainda em You and I, produzido pela mãe do músico, Mary Guibert, um clássico dos blues: Poor Boy Long Way from Home.

Billie, Beatles, Piaf

Lembramo-nos, então, como se alguma vez a sua música o tivesse deixado esquecer, de que forma grandes nomes dos blues como Robert Johnson ou Son House foram influências para Buckley. A par de Billie Holliday, Beatles, Edith Piaf, Nusrat Fateh Ali Khan ou Judy Garland, dizia o autor de Lover, You Should"ve Come Over, um dos grandes temas de Grace. Como nos lembramos de que Buckley deu voz e guitarra a I Know It"s Over, dos Smiths, que volta a aparecer em You and I a par de The Boy with the Thorn His Side, primeiro single do álbum The Queen Is Dead que ouvimos Morrissey cantar.

Jeff desapareceu com 30 anos. É filho de Tim Buckley, também ele músico com estatuto de lenda da folk com existência fugaz. Jeff esteve com o pai uma semana, aos 8 anos. Tim morreria com 28.

"Eu sei que era genial, ouvi Grace"

Voltemos aos anos 90. David Fonseca, então um miúdo pelos 20 anos a estudar em Lisboa e a dividir um apartamento com amigos, não tinha como saber que, em 2010, iria gravar uma versão de Lover, You Should"ve Come Over com Mário Laginha. Anos 90, portanto, e Grace acabara de sair. "Um amigo meu ligou-me e disse-me que tinha comprado um disco em vinil, que ia oferecer a alguém, porque tinha lido críticas que diziam que aquele tipo era o novo génio da música americana. Aqui em Portugal nunca ninguém tinha ouvido falar do Jeff Buckley e eu também não."

O amigo, conta o músico hoje com 42 anos, gravou uma cassete do álbum e ofereceu-lha. "Como eu não conhecia o tipo de lado nenhum, não fui a correr ouvir a cassete, que ficou no parapeito da janela durante meses." Há, finalmente, um dia em que David vê "lá aquela cassete, o nome não dizia nada. E essa cassete ficou lá a tocar - e não estou a exagerar nada - durante seis meses seguidos. Não havia gente que entrasse em casa a quem eu não dissesse logo: tu tens de ouvir uma coisa que eu tenho aqui".

Sabe Grace de cor. "De uma ponta à outra, porque de facto é um disco extraordinário. Não havia nada naquele disco que não fosse bom, do ponto de vista instrumental, vocal, das canções, produção... Era tudo inacreditável." E Grace, assim como o EP Live at Sin-é, é, de uma ponta à outra, Jeff Buckley. Quanto ao que foi editado depois da morte do músico, como Songs to No One (2002) ou So Real: Songs from Jeff Buckley (2007), David Fonseca - que compara a perda, pelo "impacto" que teve na sua "vida de melómano", à de Kurt Cobain - desconfia.

Talvez à exceção da edição de 2004 de Grace, que trazia temas "muito bonitos" como Forget Her e My Sweetheart the Drunk, em que Buckley trabalhava quando morreu e que foi editado um ano depois. David Fonseca ficou "à espera na loja, queria ouvi-lo o mais depressa possível". Do que Buckley gravou mas não editou e que, aos poucos, nos vai chegando, diz: "Quando uma pessoa é criativa, deita muitas coisas para o lixo. Faço da música a minha vida e sei o número de coisas que deito para o lixo e que há muitas que eu gostava que nunca vissem a luz do dia."

David ainda não ouviu You and I, que traz ainda uma versão da canção Grace, e covers de Night Flight, dos Led Zeppelin, de Every-day People, de Sly & The Family Ston, ou de Calling You, composta por Bob Telson para o filme Bagdad Café, de Percy Adlon.

Diz que o mais provável em tudo isto "é querer ouvir Jeff Buckley outra vez. Eu já sei que ele era uma pessoa genial, ouvi o Grace". Ele que "tinha uma voz extraordinária", e "tocava guitarra como quem canta". Ele "que virava tudo um bocadinho ao contrário, os acordes, as sequências..."

You and I está cá fora. Os inéditos podem agora ser escutados. Uns voltarão a ouvir o seu Grace, outros farão, naquele disco, descobertas. E talvez um miúdo pegue naquilo, dê a um amigo e diga: "Tu tens de ouvir uma coisa que eu tenho aqui."

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