Javier Cercas. "Há uma indústria de memória falsa em Espanha"

Enric Marco criou uma vida falsa, denunciada publicamente há uma década. Cercas volta à história

O Impostor, tal como os livros da última Prémio Nobel, não são literatura pura mas outra coisa...

...E o que é literatura pura? É o que não parece literatura? Na verdade, a literatura é antiliteratura e agrada-me quando dizem que este livro não é literatura. Shakespeare também não parecia literatura no seu tempo, nem D. Quixote o parecia à época.

Então, não é romance tradicional?

Nada, até porque não quero fazer romances tradicionais. Talvez os tenha feito ao princípio, mas depois quis aproveitar todas as possibilidades em vez de me manter na ideia limitada que vigora, a do romance do século XIX. Prefiro o romance de Cervantes, em que cabe tudo. Ele dizia: "A única regra é não haver regras." Por isso O Impostor é um banquete com muitos géneros. Se for o filósofo a analisar, dirá que é um ensaio filosófico. Se for o jornalista, dirá que é uma crónica. Se for o historiador, dirá que é um livro de História. A todos responderei que sim.

O protagonista exigia este registo?

A cada romance tento ser diferente. Antes deste livro tinha escrito A Anatomia de Um Instante, que também parece um ensaio, mesmo sendo um romance. Só porque neste O Impostor não há ficção não deixa de existir uma razão justa: o protagonista visível do livro é uma mentira ambulante e toda a sua vida é uma imensa ficção, portanto era ridículo e literariamente irrelevante escrever uma ficção sobre outra ficção. O que tinha sentido era lutar entre a ficção e a realidade, porque este livro tornou-se uma batalha entre ambas.

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