Jacques Mougenot: "O mercado da arte contemporânea é o último sem regulação"

Já fez 600 vezes a comédia O Escândalo Philippe Dussaert, de que é autor, e veio a Lisboa para a estreia de Marcos Caruso. Agrada-lhe muito a versão brasileira

Com a neve a impedir o funcionamento dos aeroportos de Paris, o dramaturgo e ator francês estava preocupado com a mudança dos voos mas quis participar na conversa, percebendo vagamente o que Marcos dizia.

E assim contou como o texto de O Escândalo Phillipe Dussaert chegou ás mãos de Marcos Caruso. "Interpreto esta peça há uma dúzia de anos, já a fiz 600 vezes. Em janeiro de 2015 fiz uma série num pequeno teatro de Paris onde nunca deveria ter ido porque era a substituição de uma peça anulada por causa dos atentados. Umas senhoras brasileiras viram, apaixonaram-se por ela, fizeram-na traduzir e levaram-na para o Brasil. Encontraram o Marcos por acaso, ele por acaso procurava um monólogo e por acaso este agradou-lhe. Há outros acasos nisto."

Mas Jacques não sabia nada sobre o aor brasileiro até que um dia combinaram encontrar-se no café da Pirâmide do Louvre. "Foi mágico. Ainda nem tinham passado dois minutos e já havia pessoas a fazer selfies com ele. Depois fomos ao hotel e houve mais gente a reconhecê-lo". Na verdade, quem estava no hotel era a cantora Vanessa da Mata, mas Jacques também não a conhecia. Foi só na estreia no Rio de Janeiro que percebeu quem era afinal Marcos Caruso: "Descobri o talento do Marcos e do encenador Fernando Philbert, vi o que tinham feito com o espetáculo. Conheço-o de cor mas é uma encenação totalmente diferente, muito mais despojada do que eu faço e eu não imaginava que se pudesse fazer aquilo, respeitando o objetivo, a filosofia, as ideias."

Agradou-lhe muito a tradução de Marilu de Seixas Corrêa:" Conheço bem o problema, é muito difícil traduzir teatro, é preciso adaptar a língua, o espírito, os jogos de palavras a um público que não tem as mesmas referências."

Ao contrário do que se possa pensar, perante a peça, Jacques Mougenot é apaixonado pela pintura e conhece muitos pintores contemporâneos de que gosta e que considera "sérios". Queria levar ao palco "aquilo que toda a gente pensa baixinho a propósito da deriva da arte contemporânea. É um gozo sobre um desvio, a mentira, o mercado de arte, completamente falseado pela chegada da finança. É o último mercado onde ainda não chegou nenhuma regulação. E quem lucra são os financeiros e não os artistas. Os verdadeiros artistas são ostracizados."

Começou a peça em 2002 e desde então, sente, o público tem gostado cada vez mais. "No início havia algumas reservas, mas desapareceram com o tempo. Hoje, a maioria do público pensa que é uma questão de saúde pública."

Os artistas, de resto, "adoram esta peça". Foi convidado a apresentá-la numa feira de arte contemporânea, temendo ser linchado, mas foi o espetáculo em que ouviu mais risos. "Ninguém se sente visado, toda a gente pensa que estou a falar do vizinho. Porque todos os artistas são sinceros, não são mentirosos. Não são eles os mentirosos, no caso. Quando criou o conceito do ready made, Marcel Duchamp era sincero. Ele só ficou conhecido 50 anos depois da morte. O mundo da arte conceptual entra também no mundo da filosofia, ultrapassa o plano estético."

Há três anos, tem também em cena a comédia para duas personagens Le Cas Martin Piche, que retoma na próxima terça-feira na Comédie de Paris. É uma peça sobre a curiosidade, explica. "Uma personagem não tem nenhuma curiosdade e vai a um psiquiatra, muito curioso, que percebe que aquele é um caso excecional. Isso faz uma comédia de contrastes, como o palhaço rico e o palhaço pobre. Vejo o Marcos a encarnar uma das personagens. Acho que se divertia a fazer o que não tem curiosidade."

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