Já se pode passear sob o céu estrelado do Louvre Abu Dhabi

Dez anos depois de anunciado, num edifício de Jean Nouvel, abre ao público amanhã o primeiro Louvre fora de França.

Após dez anos de controvérsias e atrasos, o Museu Louvre de Abu Dhabi, criado em colaboração com França e desenhado pelo premiado arquiteto francês Jean Nouvel, abre amanhã, finalmente, as suas portas ao público. É "o primeiro museu universal do Médio Oriente", como o define o seu diretor Manuel Rabaté. "É um museu único. O que estamos aqui a fazer é a renovar o conceito de museu universal, estamos a contar uma história, é uma história da história da arte através do tempo", afirmou ao The Guardian.

Na inauguração oficial, na quarta-feira, o presidente francês Emmanuel Macron louvou o projeto como um exemplo de como "a beleza pode lutar contra o discurso do ódio", citando o escritor russo Fiodor Dostoievsky. Macron chamou-lhe o "Louvre do deserto e da luz" e disse que representa a luta para "defender a beleza, a criatividade, a razão e a fraternidade".

Esta é a primeira vez que o museu parisiense abre uma "sucursal" fora do país existe apenas outra mas em Lens, no norte do país, inaugurada em 2012. Abu Dhabi terá pago mais de 750 milhões de euros para poder usar o nome do Louvre e contar com a sua colaboração durante 30 anos. No total, 13 museus franceses colaboram com o novo museu, contribuindo com sua experiência e com o empréstimo de cerca de 300 obras.

O custo da construção foi inicialmente estimado em cerca de 600 milhões de euros mas terá, certamente, ultrapassado esse valor. A sua conclusão foi sendo sucessivamente atrasadas devido, sobretudo, a problemas de financiamento.

Um projeto político

O Louvre é um dos maiores investimentos culturais de Abu Dhabi e e marca o início de uma aposta no turismo cultural. No ano passado, o país recebeu 4,4 milhões de visitantes, mas quer receber ainda mais. O plano de transformar a ilha de Saadiyat num polo cultural foi concebido há mais de uma década e tem sofrido inúmeros atrasos, em grande parte devido à crise económica mundial de 2008 e à quebra dos preços do petróleo que tem afetado os países do Golfo Pérsico. Apesar de tudo, mantêm-se ainda de pé os planos para a construção de uma sucursal do Guggenheim com a assinatura de Frank Gehry, o Museu Nacional Zayed num edifício do britânico Norman Foster, o Museu Marítimo projetado pelo arquiteto japonês Tadao Ando e uma sala de espetáculos concebida pela arquiteta britânica Zaha Hadid, além de resorts turísticos que incluem uma marina e um campo de golfe.

Por outro lado, o projeto mostra como a França sabe usar a arte, a cultura e a educação como instrumentos da sua política externa. Vozes indignaram-se com aquilo a que chamara uma operação "mercantil" de "venda da marca" Louvre. Além disso, surgiram acusações de que os trabalhadores na obra, sobretudo imigrantes, estavam a trabalhar em condições desumanas e eram tratados como escravos. Mas nada disso impediu o projeto de andar para a frente.

O então presidente Jacques Chirac chegou a descrever o projeto do Louvre de Abu Dhabi como uma ponte para o maior entendimento entre o ocidente e o oriente, tão necessária depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 - e também uma espécie de troca, depois de durante tantos os anos os tesouros artísticos terem viajado apenas num sentido, do oriente para o ocidente. O presidente seguinte, Nicolas Sarkozy, lançou a primeira pedra do edifício, em 2009, na mesma altura em que a França abriu a sua primeira base militar permanente no Golfo.

Esta semana, em Abu Dhabi, Macron juntou-se ao príncipe herdeiro Mohammed bin Zayad Al Nahyan para um momento de exaltação das ligações entre os dois países - e uma pequena vitória perante a complicada situação política região, desde a crise no Qatar, a tensão entre a Arábia Saudita e o Irão, a guerra no Yemen, a situação complicada também no Líbano.

O edifício de Jean Nouvel

"Um clássico museu da civilização" foi o que lhe pediu o sheik no longínquo ano de 2006, ainda antes de se saber que o Louvre seria o parceiro da empreitada. Jean Nouvel procurou essa organicidade com o ambiente do deserto e a arquitetura local que nos permite imaginar que, apesar da modernidade evidente, aquele edifício está ali há muito mais tempo.

"Pode ser catastrófico quando um edifício é lançado de paraquedas por ateliers internacionais, sem qualquer ligação ao local", afirmou Jean Nouvel. A arquitetura na região é marcada por edifícios altos, com mais de 80 metros de altura, porém, tratando-se de uma construção junto ao mar, preferiu optar por uma estrutura mais suave, que não ultrapassa os 36 metros. "Devemos ser sempre sensíveis e contextualizar", mesmo que depois essa reflexão não seja óbvia para os visitantes mas apenas algo que se sente.

"Quis criar um bairro das artes, mais do que um edifício", explicou o arquiteto Jean Nouvel ao jornal britânico The Guardian. O museu "está concebido como algo entre uma medina árabe e a ágora grega - um lugar para nos encontrarmos e conversarmos sobre a arte e a vida no contexto de total serenidade." A arquitetura é, portanto, inspirada nas medinas, com um conjunto de 55 edifícios brancos, rodeados por água, formando uma espécie de arquipélago. Os visitantes poderão caminhar por espaços com vista para o mar, o que faz parte da experiência do museu.

Um dos maiores desafios da construção foi garantir a segurança e a conservação das obras de arte num local onde as temperaturas ultrapassam os 40º no verão. Nouvel teve então a ideia de fazer uma cúpula que tem essa função de ser uma espécie de "guarda-chuva" capaz de criar um "microclima que reduz a temperatura até cinco graus".

Para criar essa cúpula, olhou "para a forma como a luz atravessa telhado de um souk ou as folhas de uma palmeira". Foi assim que surgiu a cúpula de 180 metros de diâmetro, composta por 7 850 estrelas de metal, em várias camadas, que filtram os raios de sol, criando aquilo a que Jean Nouvel chama uma "chuva de luz".

Um museu universal

Jean-Luc Martinez, presidente do Louvre em Paris, que viajou a Abu Dhabi para a inauguração, explicou que o museu foi concebido "para se abrir aos outros" e "entender a diversidade" num "mundo multipolar". A exposição encontra-se dividida em 12 capítulos, cronologicamente organizados, que vão desde a Pré-História aos tempos modernos. Em cada uma das 23 galerias procura-se refletir o intercâmbio de culturas e as influências entre diferentes épocas, até colocar as várias religiões do mundo lado a lado. Na mesma sala poderá ver-se, por exemplo, uma folha do Alcorão Azul, realizado no século IX, uma tora iemenita de 1498 e dois volumes de uma bíblia gótica do século XIII.

As obras de Jackson Pollock e Mark Rothko estão expostas a poucos passos de obras de Henri Matisse e Vincent Van Gogh (o autorretrato veio do Museu d"Orsay). Entre as preciosidades, estão uma esfinge grega do século VI antes de Cristo, La belle ferronière, retrato feito por Leonardo Da Vinci (e emprestado pelo Louvre de Paris) e a instalação Fonte da Luz, recriação da Torre de Tatlin (Rússia, 1919), incrustada de diamantes, criada por Ai Wei propositadamente para o museu.

"Esta é a primeira vez em que não só temos a descompartimentação dos compartimentos de um museu mas também formas de refletir sobre diálogos inesperados entre as obras", explicou Jean-François Charnier, diretor científico da Agende France-Museums, organização que ficou responsável de coordenar os 300 empréstimos de 13 museus franceses. A coleção permanente do museu contará com cerca de 620 obras, das quais 235 estarão expostas na abertura.

A festa de inauguração começa no sábado e prolonga-se por quatro dias, com uma série de performances, tão diversas quanto a companhia de dança de Lucinda Child e o músico local Faisal Al Saari, assim como uma outras atividades para toda a família. Para os outros dias, os bilhetes para o Louvre Abu Dhabi custam 15 euros, as crianças com menos de 13 anos não pagam e os jovens até aos 22 anos pagam apenas 7,5 euros. A instituição aconselha os visitantes a comprarem os bilhetes antecipadamente, podendo fazê-lo online no site do museu.

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