Isabel Mota, mulher, economista e de Lisboa. E presidente

Isabel Mota tomou esta quarta-feira posse como presidente da Fundação Calouste Gulbenkian: com os olhos no futuro.

No momento em que Santos Silva, então presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, desafiou Isabel Mota a assumir o cargo, a imagem que lhe ocorreu imediatamente foi "aquela sucessão da galeria de retratos dos presidentes desta casa" - José Azeredo Perdigão, Ferrer Correia, Victor de Sá Machado, Emílio Rui Vilar e Artur Santos Silva. Todos homens. "Realista" como é, ela sentiu "uma certa pressão face à magnitude da tarefa". "Mas como sou uma mulher de coragem, e sei que na vida nada acontece por acaso e tudo tem o seu tempo, foi com determinação que assumi este desafio", declarou, na cerimónia de tomada de posse, a nova presidente da Fundação, perante um auditório lotado onde se viam personalidades como o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, os ex-presidentes Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente e muitas outras.

Isabel Maria de Lucena Vasconcelos Cruz de Almeida Mota sabe que está a romper a "tradição coimbrã da Faculdade de Direito" naquele cargo: "Sou mulher, economista e de Lisboa - mas julgo que é mais uma prova da extraordinária capacidade de adaptação e evolução da Fundação".

Ser a primeira mulher no cargo não a inibe. Isabel Mota sabe que só conseguiu chegar aqui com o apoio da família e, por isso, dedicou as últimas palavras do discurso às suas netas para lhes dizer que "uma carreira profissional é apenas, e só, uma parte importante da nossa vida". E explicou: "A realização pessoal vai muito além, e exige escolhas, sensibilidade e bom senso que preservem o essencial - o amor, a família e a integridade. Conciliar uma carreira com a família é um desafio também para os homens, mas a verdade é que as mulheres têm-se confrontando com mais dificuldades e incompreensão e têm feito um longo e persistente caminho na procura da igualdade." E concluiu: "Espero sinceramente que daqui a cinco anos todos os que têm confiado em mim tenham orgulho no meu mandato como a primeira mulher Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian." Após estas palavras só poderia seguir-se uma enorme uma ovação.

A agenda da nova presidente

Com um enorme retrato do fundador, Calouste Gulbenkian, por trás, a presidente lembrou que conhece bem aquela casa, onde trabalha há mais de 20 anos, e refletiu sobre os desafios que enfrenta no futuro: "Entre o local e o global, a Fundação deve continuar o seu trabalho filantrópico enquanto instituição portuguesa aberta ao mundo". E pediu ajuda a Almada Negreiros, que tem neste momento ali uma enorme exposição, e à sua definição de "moderno", para estabelecer aquele que é, na sua opinião, "o principal desígnio da Fundação": "antecipar o futuro e apostar na inovação, ajudando a preparar os cidadãos de amanhã".

Foi com este pressuposto que Isabel Mota assumiu três compromissos para o seu mandato: com o futuro (acompanhando os novos tempos e antecipando as questões essenciais da sociedade); com os mais vulneráveis (e que mais necessitam de apoio); com a cultura (arte, educação e ciência). A coesão social, a sustentabilidade e o conhecimento são, aliás, para a presidente, os três pilares fundamentais da ação da Fundação.

Na sua agenda tem, por exemplo, afirmar a Fundação como "impulsionadora da preparação das novas gerações e das novas lideranças" e potenciar a criação artística "nas suas infinitas possibilidades, ativando o papel cívico da cultura".

Do ponto de vista funcional, quer Isabel Mota quer o presidente cessante, realçaram a necessidade da Fundação ter uma estratégia única assim como a importância de aumentar a flexibilidade da organização: "Manter a liberdade de opção nos caminhos a seguir, sem nunca diminuir a qualidade daquilo que fazemos, mas com a consciência de que a prudência na gestão dos recursos exige sempre escolhas."

Santos Silva foi ainda mais contundente: "A dimensão, a solidez e a rentabilidade do património da Fundação deverão constituir a sua primeira prioridade", afirmou, lembrando que, apesar de a sustentabilidade não estar em causa, a instituição não está imune ao mercado: "o fundo de capital conheceu nos últimos cinco anos uma redução em 125 milhões de euros para 2 520 milhões de euros". Porém, salientou, há boas notícias: os ativos do petróleo e do gás, que representavam 38% em 2011, situam-se agora nos 11%. Perante estes dados, o anterior presidente insistiu que se deve continuar "o reforço de racionalização" da Fundação.