À procura das cores desaparecidas do Mosteiro da Batalha

O cenário que hoje os visitantes encontram está longe de corresponder aos primeiros tempos da capela do século XV

A Capela do Fundador do Mosteiro da Batalha, panteão de D. João I, D. Filipa de Lencastre e da Ínclita Geração, está a ser objeto de uma investigação científica pioneira em Portugal, que visa descobrir as cores originais dos túmulos e restantes estruturas pétreas.

Aquele espaço, um dos mais procurados pelos milhares de turistas que visitam o mosteiro, destaca-se hoje pelos ricos trabalhos esculpidos em calcário nu. Mas esse cenário está longe de corresponder aos primeiros tempos da capela criada no século XV.

"Este estudo da cor pretende reivindicar em parte essa ambiência original da capela e esse cruzamento das diferentes dimensões artísticas que hoje se perdem completamente", explica a coordenadora do projeto, Joana Ramôa Melo.

A policromia da Capela do Fundador perdeu-se ao longo dos tempos por questões várias: os estragos provocados durante as Invasões Francesas ou após a extinção das ordens religiosas, mas também os restauros do início do século XX, que "potenciaram a Batalha como monumento e não como mosteiro", despiram-na praticamente de toda a cor.

Através de técnicas várias, como pesquisa laboratorial de vestígios visíveis a olho nu e deteção de outros atualmente invisíveis, estão a ser analisadas as paredes e restantes elementos da Capela do Fundador, percebendo quais eram os pigmentos originais.

Depois, esse trabalho será sujeito a investigação histórica, que permitirá a reconstituição virtual da capela tal como seria originalmente.

Apesar do projeto estar ainda no início, é já possível detetar a presença do vermelho, do preto, de azuis, de ouro e de outras cores na Capela do Fundador.

O resultado ficará acessível ao público dentro de um ano, no final de agosto de 2017, momento a partir do qual será possível será possível visitar virtualmente o espaço, apreciando as cores que foram utilizadas originalmente.

"Gótico não é só luz, gótico é também cor. São dois conceitos indissociáveis nesta época, para criar uma determinada ambiência nestes espaços. Isso vai ser possível recriar", acredita a investigadora, sublinhando o entusiasmo da equipa envolvida e o potencial do produto final: "Será muito apelativo para o público em geral".

"Há casos em França que mostram isso. Em algumas catedrais onde este estudo foi feito, o resultado alterou completamente a perceção daqueles edifícios", afirma Joana Ramôa Melo, especificando Amiens.

"Na Catedral de Amiens é impressionante e perturbador. É outro mundo, porque é uma multiplicidade de cores, de pormenores, de padrões. É de tal maneira feérico que provoca um impacto completamente diferente".


Intitulado "Monumental polychromie revealing medieval colours at Batalha", o projeto do Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa conta com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian e envolve o Laboratório Hercules da Universidade de Évora, o Instituto Politécnico de Leiria e o Mosteiro da Batalha, através da Direção Geral do Património Cultural.

A equipa inclui historiadores de arte, historiadores, químicos e engenheiros.

"Todos acolheram este projeto acima de tudo como uma ideia extraordinária do ponto de vista da investigação. Em Portugal nunca se fez nada deste género. Estamos a abrir um campo novo, interessantíssimo, para todas as áreas científicas envolvidas. Somos pioneiros e isso é empolgante para todos os investigadores", sublinha Joana Ramôa Melo.

O caráter inovador da investigação fez com que o projeto recebesse um convite para ser apresentado este mês no Courtauld Institute of Art, de Londres, instituição referência mundial na investigação em história da arte.

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