Integral dos Trios de Schubert por um ensemble de geometria variável

O pianista Filipe Pinto-Ribeiro convidou dois suíços e uma alemã para com ele tocarem a integral dos trios de Franz Schubert em dias seguidos. Serão eles o rosto do DSCH-Schostakovich Ensemble, hoje às 21.00 e amanhã, às 17.00, no Pequeno Auditório do CCB.

O DSCH-Schostakovich Ensemble raramente repete os seus integrantes. É o conceito de "ensemble de geometria variável" levado à sua expressão extrema: tanto pode ter dois como 10 músicos, tanto podem ser estes hoje como outros diferentes amanhã. Elemento mais comum acaba por ser Filipe Pinto-Ribeiro, fundador e diretor. E "mais comum", porque nem ele toca sempre! Exemplo disso é esta integral dos Trios de Schubert que hoje e amanhã se fará no CCB, pois além daqueles com piano, estão lá também os de cordas. Nesta viagem que há de culminar nos maravilhosos Trios (com piano), op. 99 e op. 100, os companheiros de Filipe serão a violinista suíça Esther Hoppe, o violoncelista também helvético Christian Poltéra e a violetista alemã Isabel Charisius. Três músicos com curricula impressionantes e carreiras excecionais, garantes de música de câmara ao mais alto nível.

Dentre os três, Isabel é presença regular no DSCH, Christian regressa após um par de anos, já Esther é mesmo uma estreante. Após um ensaio, trocámos algumas palavas com a neófita. Cuja chamada acaba por ser muito lógica: "Eu na verdade sou casada com o Christian e foi ele que me transmitiu o convite do Filipe, que me alegrou muito!"

Filha de uma pianista e de um historiador, ambos melómanos, Esther cresceu a ouvir discos antigos: "Os meus pais tinham uma grande coleção de LP"s com violinistas clássicos do século XX, como Busch, Francescatti, Oistrakh, Menuhin, Heifetz, Szigeti e eu "fartei-me" de os ouvir. E sem querer, de modo totalmente inconsciente, o som deles acabou por impregnar o meu próprio som enquanto violinista. Daí que por vezes um professor, ou um jurado num concurso, me abordassem, dizendo que eu tinha um som "de outras épocas"!"

Mas foi com esse som que Esther viria a vencer o Concurso Mozart de Salzburgo (2002), após o que centrou a sua carreira na música de câmara, justamente num trio com piano: "Sim, com o Tecchler Trio. Ganhámos o 1.º Prémio no Concurso da ARD [o principal na Alemanha para jovens músicos] em 2007. Foram oito anos muito intensos de concertos e claro que tocámos os trios de Schubert com frequência: há até uma gravação ao vivo com eles. Mas em 2011 decidi que já chegava e decidi encetar o meu próprio caminho".

Esse "próprio caminho" passaria também por deixar a função de concertino da Orquestra de Câmara de Munique: "Sim, até porque entretanto fôra mãe e era muito difícil compatibilizar duas "funções" tão exigentes! Entretanto, veio o convite para ensinar no prestigiado Mozarteum de Salzburgo e decidi que seria esse doravante o meu "posto fixo"". Hoje, aceita os convites que surgem: "Toco com o meu marido, claro, mas há outros músicos com os quais toco regularmente".

Um deles é o pianista escocês Alasdair Beatson, com quem gravou os seus dois últimos CD. O mais recente saiu em janeiro e combina sonatas de Mozart com a Sonata de Poulenc, sobre a qual diz: "É muito injustamente negligenciada. É uma obra com algo de indomável, mas cheia de profundidade e mesmo tragicidade: além de ter sido escrita durante a Ocupação [da França pelos nazis], ela evoca a morte de Garcia Lorca nos 2.º e 3.º andamentos, e de forma muito pungente, inclusive glosando um poema dele. Tudo ali é feito com imenso saber e desenvoltura. Uma obra fantástica que me deixou fascinada."

O seu "companheiro" é desde há uns 4 anos um violino de Gioffredo Cappa, de 1690 (o marido toca o Stradivarius "Mara", de 1711, que pertenceu ao grande Heinrich Schiff, recentemente falecido): ""Tropecei" nele por completo acaso. Pertencia a um privado e já não era tocado há 20 anos. Gostei dele de imediato: adaptou-se "como uma luva" ao meu corpo e depois tem um som que, sendo embora cálido, não compromete o brilho. Cappa trabalhou para Amati, mas continua a ser relativamente obscuro, o que foi a minha sorte, pois isso significa que não são instrumentos demasiado caros."

Dos dois grandes trios com piano de Schubert (D898 e D929), escusa-se a juízos de valor: "Como poderia, se são duas obras tão diferentes - o 1.º muito mais intimista, o 2.º de conformação mais sinfónica? Aliás, logo pelas tonalidades se nota: sib M (1.º) e mib M (o 2.º), aquela com conotações muito particulares para Schubert, esta mantendo a tradição das obras de Beethoven nessa tonalidade."

Do que Esther não tem dúvidas é das dificuldades que colocam: "Não por acaso, são obras que costumam constar das finais de concursos. Elas são a "pedra de toque" para aferir a qualidade de um trio. O som "correto" para ambas é muito difícil de encontrar e de manter: tem que ser um som intimista e ao mesmo tempo projetado, mas não demasiado aberto, nem por outro lado demasiado recatado. É uma linha extremamente fina, na verdade! Depois é um som que não admite "disfarce" algum, porque logo o estraga, pelo que estás totalmente exposto em palco." Obras de risco máximo, portanto, mas irresistíveis: "É um imenso prazer tocá-las, pela beleza delas, mas também por esse desafio que colocam a cada regresso", afirma. O próximo regresso é já hoje.

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