Inquérito no Convento de Cristo por danos e suspeita de roubo

A Direção-Geral do Património Cultural vai investigar as denúncias de danos e suspeitas de desvio de dinheiro no monumento de Tomar, classificado património mundial da Unesco

"Na sequência de algumas situações e acontecimentos tornados públicos ontem [sexta-feira] sobre o Convento de Cristo, em Tomar, a DGPC informa que vai abrir um inquérito para apurar a sua veracidade", declarou a Direção-Geral do Património Cultural, liderada por Paula Silva, em resposta às denúncias de danos e suspeita de roubo nas bilheteiras, que vieram a público numa reportagem do programa Sexta às Nove.

A peça refere que a passagem de três semanas da equipa de filmagens, do realizador britânico Terry Gilliam, em abril, resultou em danos para o monumento nacional, património mundial da UNESCO.

Pedras danificadas ou partidas, árvores cortadas pela raiz e telhas partidas são os danos visíveis, segundo a reportagem emitida na sexta-feira pela RTP. Acrescentam que foi feita uma fogueira com 20 metros de altura. A Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), liderada por Paula Silva, confirma, numa resposta conjunta com a diretora do monumento, Andreia Galvão, que "alguns eventos podem incluir artes de pirotecnia em locais considerados apropriados, desde que devidamente acompanhados por profissionais credenciados, por bombeiros e proteção civil", e dá como exemplo as filmagens de Terry Gilliam. Estas situações são acompanhadas de um seguro, que será acionado neste caso. "Houve quebra de quatro fragmentos pétreos e seis telhas partidas".

Ministro será questionado

O deputado social-democrata Sérgio Azevedo confirmou ao DN que ia estudar a reportagem e que o assunto fará parte do conjunto de perguntas que vão fazer a Luís Filipe Castro Mendes na audiência parlamentar de terça-feira, às 15.00. "Vamos questioná-lo sobre isso e sobre o ICA [demissão da direção], sobre o apoio às artes", declara. "O ministro não tem respondido a um conjunto de solicitações que têm sido pedidas", queixa-se o parlamentar. Na agenda da audiência está, também, a recente vandalização de pinturas rupestres do Coa, por requerimento do PCP. Os comunistas não responderam até ao fecho de edição se pretendem incluir o Convento de Cristo na lista de perguntas.

Mas, à esquerda, o Bloco fez já um requerimento para ouvir o ministro da Cultura confirma o deputado Jorge Campos. "Queremos conhecer o protocolo celebrado entre o produtor [a Ukbar Filmes] e a tutela", afirma o deputado, referindo-se à DGPC. "Queremos saber se não foram tomadas as medidas necessárias num monumento classificado e classificado pela UNESCO".

O socialista Pedro Delgado Alves, que também faz parte da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, diz que "é normal que haja perguntas sobre o tema". No momento em que falou com o DN ainda não tinha visto a reportagem. Teresa Caeiro, do CDS, esteve incontactável.

A mesma reportagem levanta suspeitas de roubo na bilheteira do Convento de Tomar, a partir das declarações de funcionários e ex-funcionários da casa. Nenhum deles quis dar a cara, mas afirmam que os bilhetes não são controlados. Segundo o programa Sexta às Nove, já chegaram denúncias ao Ministério Público.

Sobre este tema, a DGPC garante que as entradas são controladas por vigilantes e câmara de vigilância. O organismo afirma que nunca se registaram denúncias, incidentes ou suspensões no monumento dos templários aos quais D. Afonso Henriques deu um território entre Santarém e Coimbra, onde viriam a fundar o castelo e a vila de Tomar. O Convento de Cristo registou 295 808 entradas em 2016.

Ler mais

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.