Incêndios e outras fotografias premiadas no Estação Imagem

Patrícia Moreira foi a grande vencedora deste ano. Veja os outros premiados.

A fotojornalista da agência France-Presse (AFP) Patrícia de Melo Moreira venceu o prémio Estação Imagem 2018 Coimbra com o trabalho "Verão Negro", sobre os incêndios que assolaram o país no ano passado, anunciou hoje a organização.

Com o trabalho para a agência France-Presse sobre os grandes incêndios de 2017, Patrícia de Melo Moreira é a primeira fotojornalista mulher a arrecadar o prémio principal do Estação Imagem, que vai na sua nona edição e que premiou vários fotojornalisas da Global Imagens (do grupo a que pertence o DN), que pode ver na íntegra AQUI.

A Fotografia do Ano foi atribuída ao galego Gabriel Tizon, com "O Frio dos Refugiados", em que retrata um jovem refugiado na fronteira entre a Sérvia e a Croácia, tendo os fotojornalistas Nuno André Ferreira e Filipe Amorim recebido uma menção honrosa por "Incêndios" (sobre os incêndios de outubro, em Tondela) e "Bons Amigos" (que capta um pontapé de um futebolista a um colega de equipa), respetivamente.

Os incêndios de 2017, que afetaram em particular a região Centro do país, estiveram presentes noutras categorias da edição deste ano do Estação Imagem, com a distinção para "Um País em Luto", de Rui Duarte Silva, na categoria de Notícias, e com "Incêndios Florestais em Portugal", de Mariline Alves, na categoria de Ambiente.

Esta é a fotografia da Menção Honrosa atribuída a Filipe Amorim, colaborado da Global Imagens (do grupo a que pertence o DN), com uma imagem captada no jogo entre Oleiros e Sporting para a Taça de Portugal:

Em Assuntos Contemporâneos, Luís Preto foi o distinguido, com "Maciço Antigo", um trabalho em torno da "mutação do mundo rural português", por entre montanhas e planaltos do Minho e Trás-os-Montes, numa categoria onde José Ferreira recebeu uma menção honrosa com "Foras da Lei".

O fotojornalista da Glonal Imagens Rui Oliveira, com "O Bairro Esquecido", sobre o Bairro do Aleixo, no Porto, ganhou na categoria de Vida Quotidiana, em que também arrecadou uma menção honrosa com o trabalho "O Renascer de Isabel Batata Doce", sobre a história de uma mulher que tinha sido trazida para Portugal ainda bebé por um grupo de soldados portugueses, durante a guerra colonial em Angola, e que, 52 anos depois, decidiu regressar à sua terra natal.

Gonçalo Delgado venceu no domínio de Arte e Espetáculos, com "A Semana Santa de Braga", e António Pedro Santos em Desporto, com "À prova de água", sobre o atleta federado na modalidade de natação adaptada Alexandre Albernaz. Ambos são colaboradores da Global Imagens.

O fotojornalista da Global Imagens Leonel de Castro ganhou a distinção em Série de Retratos, com "Chaga" - um ensaio sobre o cancro da mama na mulher e o conflito que surge entre "doença e amor" -, categoria em que Mário Lopes Pereira recebeu uma menção honrosa por "Mai Novo", sobre um projeto de barbeiros que trabalham com sem-abrigo.

O prémio Noroeste Peninsular foi para "O Salto", de Bruno Fonseca, e o prémio Europa para Rui Duarte Silva, com "Geração X", sobre a nova geração "de estudantes sem fronteiras".

As bolsas de Estação Imagem 2018 Viana do Castelo e Coimbra foram entregues, respetivamente, a Gonçalo Delgado, com um projeto sobre a forma como as famílias no Minho vivem através da agricultura, e a Bruno Silva, com a proposta de abordar a "problemática da saudade" em Coimbra.

O presidente do júri da nona edição do Prémio Estação Imagem foi Santiago Lyon, presidente do júri do World Press Photo 2013 e antigo diretor de fotografia da agência de notícias norte-americana Associated Press. No júri do concurso deste ano estiveram também os fotojornalistas Sara Naomi Lewkowicz, Marco Longari e Tanya Habjouqa. O prémio destina-se a premiar reportagens de fotógrafos portugueses, dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), e da Galiza, ou feitas por estrangeiros nestes territórios.

Coimbra é, pela primeira vez, a anfitriã deste festival de fotojornalismo, que, no passado, decorreu em Mora e em Viana do Castelo. A exposição com os trabalhos vencedores será inaugurada a 2 de Junho no Convento São Francisco, onde poderá ser visitada até 10 de Julho.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.