I'm Not Your Negro: cheira a Óscar no Festival de Berlim

Raoul Peck faz a crónica literária de um pesadelo americano

I'm Not Your Negro, nomeado ao Óscar de melhor documentário, olha de frente a génese do racismo branco americano

Remember This House, o livro incompleto de James Baldwin, provavelmente o maior pensador da cultura afro-americana nos EUA, é o ponto de partida para I"m not Your Negro, mostrado aqui na Berlinale no Panorama Documental. O haitiano Raoul Peck (que há uns dias viu a sua longa de ficção The Young Karl Marx ser elogiada na Berlinale Special) está também nomeado ao Óscar de melhor documentário. Na sessão que vimos no cinema International, os aplausos foram fortes e ruidosos. Torna-se virtualmente impossível não se ficar arrepiado, arrepiadíssimo com a potência moral desta dissertação histórica sobre o racismo nos EUA. Um documentário que demorou dez anos a ser feito e que chega aos cinemas num dos mais conturbados períodos dos Estados Unidos.

Narrado com a voz de dor de Samuel L. Jackson, o filme acompanha o pensamento de Baldwin sobretudo a partir do impacto dos assassínios de Martin Luther King, Malcom X e Medgar Evers. Olha de frente a génese do racismo branco americano. Uma tese ilustrada com uma ideia de cinema que combina o panfleto com a mais sedutora manipulação fílmica. Através de imagens de arquivo, assistimos a uma muito organizada (talvez em excesso...) crónica literária de um pesadelo americano. No fim, fica-se com a sensação de que a América não ficou great, em parte, ou muito, graças à forma como a maioria branca nunca se soube relacionar com a população negra. Em Berlim, nas sessões de Q&A o filme provocou um debate, coisa que realmente interessa a Peck, cineasta que confessou ao DN já se sentir vitorioso por estar nomeado ao Óscar. Nos EUA, I"m not Your Negro está a conseguir números de bilheteira espantosos. Em Portugal tem já distribuição garantida e será de visão e reflexão obrigatória.

Berlim 2017 também fica marcado por um outro filme que entra a fundo numa minoria, neste caso a dos judeus ortodoxos de Nova Iorque. Chama-se Menashe, de Joshua Z. Weinstein, e veio parar ao Forum depois de algum alarido na estreia mundial em Sundance. Trata-se da história de um empregado de supermercado kosher da comunidade judaica de Brooklyn que é confrontado pela eventual perda da custódia do filho após ter ficado viúvo. Filmado às escondidas em locais onde nenhuma câmara teve permissão, Menashe baseia-se na própria vida do seu ator principal, Menashe Lustig, abordando temas tabu desses judeus ultraortodoxos.

Prodígio de um naturalismo fluente, o filme tem uma energia genuína e sentida. E Weinstein tem o bom senso de nunca fazer número com o fator exótico desta comunidade que proíbe, entre outras coisas, o cinema. Melhor de tudo, é um argumento que nunca faz juízos de valor. Ainda não tem distribuidor garantido em Portugal.

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