Ideias de uma noite que não cabe em Lisboa

Portugal recebeu pela primeira vez A Noite das Ideias (e com 1500 pessoas), iniciativa do governo francês que sintoniza pensadores e artistas em cidades de todo o mundo à volta de um tema. Este ano veio do maio de 68: "Imaginação ao poder!"

Faltavam minutos para a meia-noite. "O que é certo é que alguma coisa aconteceu ali", dizia, a dançar, Vitor Roriz, que ao lado de Sofia Dias representava o espetáculo Arremesso V no hall do Museu Calouste Gulbenkian. À meia-noite certa atravessávamos a porta que separa a fundação da rua. Para trás ficava essa "coisa" que aconteceu ali na última quinta-feira: ideias deixadas por Ricardo Araújo Pereira, Manuel Aires Mateus, Eduardo Lourenço, ou Loïc Blondiaux na primeira edição em Portugal d" A Noite das Ideias, iniciativa do governo francês que, pela terceira vez, sintoniza o pensamento em cidades do mundo inteiro à volta de um tema. Neste ano, em que se comemoram cinco décadas desde o maio de 68, foi a um slogan deste que se obedeceu: "A imaginação ao poder!"

Antes desse último espetáculo a fechar a noite que, em diferentes fusos horários, decorreria em Los Angeles, Katmandu, ou Dakar, a "grande surpresa" causada pela afluência à Fundação Gulbenkian tinha já assentado. Max Baquian, diretor do Institut Français em Portugal, responsável pela iniciativa, diz que ali estiveram cerca de 1500 pessoas: "E muitas delas eram jovens, o que é muito importante para nós. Foi uma grande noite, bem para além das nossas expectativas". Antes de começar, recorda, recearam não conseguir encher as salas, com lotação de cerca de 600 pessoas, que receberiam conferências de aproximadamente 20 minutos. Mas antes das 19.00, hora em que o programa começava, já muitas circulavam com os crachás amarelos oficiais, que depressa desapareceriam. Eram mil.

Marcelo Rebelo de Sousa, que antecederia a conferência inaugural de Rui Vieira Nery, começou por lançar: "Estou aqui mais para ouvir do que para falar." O Presidente da República recordou que, enquanto Paris via o maio de 68 inscrito nas paredes das suas ruas, os portugueses viviam o Estado Novo, alguns, emigrantes em França, viviam nos bidonvilles, e a "distância entre Lisboa ou o Porto e Paris parecia uma eternidade".

Marcelo permaneceria na plateia, de onde ouviria primeiramente a espécie de radiografia dos nossos tempos feita por Nery, historiador e musicólogo. "Vivemos num tempo de descrença. Não é original, mas nem por isso se revela menos angustiante para quem o vive", afirmou, elencando depois consequências como "reações de medo e desespero, adesão emocional primária a respostas simplistas, demagogia messiânica, procura obsessiva de bodes expiatórios para os problemas, boçalidade generalizada das redes sociais". Defendendo que é preciso "superar a crise da representação política" e "fortalecer o papel do conhecimento como suporte da democracia", o também professor dedicou ainda tempo à "centralidade das artes e da cultura", ligando-a ao "direito inalienável à prossecução da felicidade".

Ao longo da noite, na plateia, entre cabelos grisalhos ou óculos de massa e blusões de ganga, grupos de estudantes segredavam entre si, aqui e ali alguém tomava notas e, de perto, ouvia-se a tradução simultânea ora em francês ora em português, que entrava pelos ouvidos de quem escutava os oradores. Com Eduardo Lourenço atravessaríamos "dois fins de século", sabendo, porém, que "o pessimismo do fin du siècle [século XIX] não tem correspondência com o nosso". O filósofo e ensaísta falava desse "tão sinistro" que foi o século XX. Pela mão de Lourenço a plateia visitou ainda Flaubert, que "descobre que não há nada que contar, ou que tudo pode ser contado", Cervantes e a evocação da vida de D. Quixote ou Alonso Quijano, e Proust, a partir de cuja obra a Literatura criou "o tudo com o nada, como Deus".

A noite avançava e formavam-se filas em frente das salas para entrar. Lá dentro, José Gil falava, em torno de Giacometti, Pessoa e Poincaré, de como "a imaginação dá um salto e a novidade acontece", ou do "núcleo misterioso da criação: o que escapa à algoritmização é a escolha daquele percurso e não de outro." Rui Vieira Nery discutiria a cidadania europeia com Loïc Blondiaux, professor de Ciência Política na Universidade Sorbonne (Paris I). O professor e curador Paulo Pires do Vale terminaria a sua intervenção com um vídeo da performance Roptura (1977), de Ana Hatherly, onde a artista aparece a rasgar folhas de papel na galeria Quadrum.

Em francês ou em português, as pessoas discutiam a que conferências assistiriam, outras entravam e saiam da exposição Do Outro Lado do Espelho, também aberta até à meia-noite, passando assim por Paulo Rego, Jorge Molder, ou Jan Sanders van Hemessen.

Uma aula do Prémio Pessoa

Manuel Aires Mateus, arquiteto e o mais recente Prémio Pessoa, fala sempre na primeira pessoa do plural: testemunha do ateliê que, com o seu irmão Francisco, encabeça. Começa com a imagem que abria a exposição Weltliteratur em 2008, ali mesmo na Gulbenkian: "é um recado da empregada do Pessoa. Com as mesmas letras com que a empregada lhe diz que o jantar está no armário, do outro lado, temos a grande poesia. Isto é exatamente o que se passa na Arquitetura. A arquitetura é feita de coisas banais, que todos nós conhecemos da mesma maneira, portas, janelas, tetos, pavimentos; não são esses elementos que fazem a Arquitetura, mas sim o significado que é possível atribuir a esses elementos", adiantava aos jornalistas respondendo a si mesmo quando perguntava: "O que é uma ideia para um arquiteto?" Mais tarde, na conferência, mostraria depois uma casa que o seu ateliê assina no Alqueva, "dissimulada na natureza". E citaria o célebre chef de cozinha espanhol Ferran Adrià quando este diz que "o que lhe interessa na cozinha é a preconceção que a pessoa tinha e depois o contacto com a realidade". O arquiteto continuou: "Nós temos sempre um preconceito, um conhecimento, uma memória. A distância à realidade é que nos dá a Arquitetura." Essa que, remataria Aires Mateus, "é uma arte incompleta. Para ser completada com a vida, com a fé, com outras obras de arte. Estamos à espera que este lugar se complete."

À espera do RAP

O que se seguiu deixaria marcas quase até ao fim da noite: a intervenção de Ricardo Araújo Pereira. Muito depois, ainda se encontrava quem deambulasse pela exposição, remediando a impossibilidade de o escutar, de tal forma a sala estava lotada. O próprio dizia-se surpreendido com a afluência e gracejou, dizendo que se estivesse avisado traria outro tema que não aquele, centrado numa personagem de um drama histórico de Shakespeare: Falstaff, em Henrique IV. Nele, Araújo Pereira analisou a "estratégia humorística", contrapondo-a à política, e explicando que se "funda na imaginação. Pensar nas coisas de forma certa é quase sempre insuportável, quem a aplica deseja assenhorear-se de si, para resistir ao mundo. Há qualquer coisa de infantil na imaginação, especialmente na que me interessa, que é a humorística."

O humorista, uma das vozes do programa Governo Sombra, terminaria com a história de um exame em História de Arte, onde o professor lhe perguntou por Renoir, embora ele só tivesse estudado Manet. Acabaria por passar falando do diálogo entre a pintura de um e de outro. "E tenho andado a fazer à vida o mesmo que fiz ao professor de História de Arte. Sei que esta estratégia não me há de levar longe no mundo dos adultos, mas eu felizmente não pertenço a esse mundo", terminou.

Ao longo da noite, no hall do museu e no da biblioteca de arte sucederam-se os espetáculos, como o concerto de Filipe Raposo com o desenho simultâneo de António Jorge Gonçalves, ou a coreografia Miragens, dançada fora de portas por Magalie Lanriot e Mathilde Gilhet, que os espectadores viam através do vidro.

Quase no final, a pouco e pouco, as pessoas dirigiam-se para o hall do museu. Algumas vinham das conferências de Loïc Blondiaux ou de Raquel Vaz Pinto, outras da conversa entre Aires Mateus e o filósofo Thierry Houquet (a substituir Dominique Wolton, que faltou), onde o primeiro falava das redes sociais como forma de "acompanhar a vida de forma banal" e trazendo uma "banalidade de opiniões que faz com que nenhuma tenha valor"; já o francês começou por falar delas como sendo uma realização da democracia em que "a palavra é universalmente distribuída".

Sofia Dias e Vitor Roriz dançavam no centro do hall, rodeados pelo grupo de público resistente, alguns funcionários da fundação Gulbenkian, e, ao fundo, quatro polícias. A noite acabava.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os irados e o PAN

A TVI fez uma reportagem sobre um grupo de nome IRA, Intervenção e Resgate Animal. Retirados alguns erros na peça, como, por exemplo, tomar por sério um vídeo claramente satírico, mostra-se que estamos perante uma organização de justiceiros. Basta, aliás, ir à página deste grupo - que tem 136 000 seguidores - no Facebook para ter a confirmação inequívoca de que é um grupo de gente que despreza a lei e as instituições democráticas e que decidiu fazer aquilo que acha que é justiça pelas suas próprias mãos.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.