Homenagem de Rui Horta a John Cage: "Melhor do que isto não sei fazer"

Danza Preparata, uma peça que o coreógrafo criou em 2012 por ocasião do centenário do compositor americano, sobe este sábado ao palco do Teatro Camões, em Lisboa

Uma bailarina e um pianista em palco. Ele tem o "piano preparado" - com parafusos ou borrachas -, tal como John Cage (1912-1992) o inventou quando precisou de fazer daquele instrumento uma orquestra de percussão. Rolf Hind, pianista britânico, toca as Sonatas e Interlúdios do compositor americano que, em 2012, teria feito cem anos.

Foi nessa altura que a Casa da Música convidou o coreógrafo Rui Horta a criar uma obra a partir daquela peça de Cage. Então nasceu Danza Preparata, onde se assiste ao "corpo preparado" da bailarina italiana Sílvia Bertoncelli. Depois de uma digressão internacional e de um interregno, a peça retorna este sábado a Lisboa, no Teatro Camões. O DN conversou com o coreógrafo Rui Horta a propósito desta sua criação.

A bailarina é nesta peça um "corpo preparado" no sentido em que está condicionado?

Na realidade, o que faço é usar uma espécie de mesmo recurso que o músico tem no piano. Condiciono aquele corpo. Crio uma série de contingências de espaço, de corpo...

Como dançar sem usar um dos braços ou uma das pernas...

Sim ou ter de utilizar o palco com outros objetos. Aquele corpo está sempre a reagir a desafios que são muitas vezes também [desafios] de composição: um espaço muito reduzido, ter de repetir sempre o mesmo movimento.

Rui Horta

E são vários excertos musicais diferentes.

No final, aquilo são 22 pequenos excertos, as Sonatas e Interlúdios de Cage, todos diferentes e cada um tem um desafio completamente diferente. Obedece a várias emoções e temperamentos. Em 1948, o Cage vinha da Índia, cheio de cores na sua vida, estava muito apaixonado, pela primeira vez torna pública a sua relação com o [coreógrafo, com quem também muito trabalhou] Merce Cunningham. Isto na América do final dos anos 1940 não era uma pera doce. Acho que esta é uma peça muito cromática, é uma paleta, uma espécie de grande arco-íris musical.

Apesar de condicionado, o movimento do corpo nunca parece estranho, parece sempre bastante limpo. É propositado?

"Depuração" é a palavra certa. É o movimento e apenas o movimento, a música e apenas a música. Não nos esqueçamos que o Cage inventa o piano preparado porque a certa altura queria reproduzir uma orquestra de percussão e não tinha dinheiro para o fazer, então transformou o piano numa orquestra. Ele implode as possibilidades do piano, e esse é o meu desafio. Implodir as possibilidades de um corpo. O instrumento musical e o corpo como instrumento levados ao limite. Quando acabei a peça dizia na brincadeira: "Olha, melhor do que isto não sei fazer." Passei três meses de volta desta mulher, com este corpo, a trabalhar. E no final foi uma espécie de homenagem ao Cage. E à dança contemporânea.

Há também uma homenagem a Merce Cunningham?

Sim. O que aconteceu nesta relação entre os dois [Cunningham e Cage] mudou completamente a dança. Todos nós somos de algum modo herdeiros dessa estética.

De que forma o Rolf prepara o piano?

A versão dele, a maneira como o Rolf prepara o piano, que é um trabalho de engenharia, demora quase duas horas em todos os espetáculos, e depois a maneira como ele executa é de uma enorme poética. Acho que a preparação do Rolf é muito sui generis. Acho que ele segue, obviamente, o score de preparação do Cage. [Mas] daquilo que eu vejo, ele prepara-o de uma forma muito pessoal. O tipo de parafusos, de borrachas, mesmo de apagar, da escola... Ele é completamente obsessivo na escolha de cada coisa. Quando está a preparar o piano ele já está a tocar a música. Toca-a sem score, já não lê a peça. Eu fui-lhe pedindo para olhar cada vez mais para a Sílvia. Um dia ele disse-me: "Vou aprender a peça de cor." [Agora] ele não tira os olhos dela. Eles não tiram os olhos um do outro, estão sempre em relação.

Danza Preparata está este sábado em cena no Teatro Camões, em Lisboa, às 21.00. Bilhetes entre 5 e 30 euros.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.