Heidi: regresso ao paraíso das memórias de infância

Uma nova adaptação de Heidi chega agora ao grande ecrã. O ator Bruno Ganz interpreta o avô rabugento da pequena que provocou lágrimas e sorrisos em todo o mundo

"Uma história para crianças e para aqueles que gostam de crianças." Através deste subtítulo, que consta no livro Heidi, a escritora suíça Johanna Spyri (1827-1901) definia os seus potenciais leitores. Não poderia adivinhar o êxito que a sua menina dos Alpes ia ter para lá dessas páginas e pelo mundo fora, em grande parte com a ajuda do cinema e da televisão. Por se ter tornado um enorme clássico universal, pedem as boas práticas culturais que, de quando em vez, se revisite esta narrativa - como se diz - de fazer chorar as pedras da calçada.

Assim pensou o suíço Alain Gsponer, realizador da mais recente adaptação do romance de Spyri, que chegou ontem às salas portuguesas, em versão dobrada. O ator Bruno Ganz, que esteve em Lisboa no Lisbon & Estoril Film Festival, em novembro, é o nome maior do elenco desta produção germano-suíça, no papel do avô de Heidi.

A lenda no cinema

Heidi vem conquistando o grande ecrã desde 1920, ou seja, desde o cinema mudo, e passou por versões mais memoráveis do que outras, como a de 1937, protagonizada pela eterna criança do cinema, Shirley Temple, ou a de 1952, de Luigi Comencini, cuja atriz Elsbeth Sigmund - considerada uma das melhores interpretações de todos os tempos - não continuou a carreira para além desse papel.

Anuk Steffen, aos 10 anos, é o novo rosto jubiloso de Heidi, a menina órfã que chegou pela mão da tia à casa do avô, situada nos Alpes, para que este cuidasse dela. Sempre alegre, indiferente ao humor do velho misantropo, Heidi aproveita a liberdade que lhe oferece a sublime paisagem e corre pelos vales e colinas como uma ave entre as nuvens. É nessa ávida e constante relação com a natureza que ela se define.

Todos conhecem o resto da história: um dia aparece outro menino, Pedro, um pastor que se tornará o seu melhor amigo, mas logo o percurso se inverte, e Heidi será levada, de novo pela mão da tia, para Frankfurt. Aí ficará numa casa muito rica, para receber educação e fazer companhia a Clara, que também é órfã de mãe, e desde a sua morte ficou presa a uma cadeira de rodas.

Naturalmente, ninguém é insensível (exceto a precetora) ao sorriso contagiante de Heidi, e Clara ganha uma amiga incomparável. Mas as saudades dos Alpes e do avô apertam demasiado... até o regresso se concretizar.

Heidi para todas as gerações

O filme de Gsponer, segundo a ideia que o próprio transmitiu, procura tirar algum excesso de romantismo à imagem que se criou, mostrando que não se trata apenas de um universo acolhedor - as pessoas na Suíça daquele tempo (séc. XIX) passavam fome, levavam uma existência penosa e eram votadas ao isolamento, pelas más-línguas.

Assistimos a tudo isso na passagem de Heidi pela aldeia, no sopé das montanhas, e no modo de vida do avô. É, portanto, um filme que dá às novas gerações um modelo o mais aproximado possível do ambiente social do livro de Spyri, sem descurar toda a energia pueril que define o comportamento de Heidi, de olhos postos na natureza infinita. Essa que é outra grande personagem.

Numa altura em que as crianças estão presas a todo o tipo de ecrãs, desconhecedoras da vida rural, Heidi é uma narrativa bucólica, onde se é feliz na simplicidade da montanha, por entre pequenas maravilhas. E é também um desafio de consciência ecológica. Uma história para todos os tempos e para diferentes culturas, um clássico dos pais, agora para os filhos. Com mais ou menos lágrimas, esta menina não descansou o sorriso e o entusiasmo, desde que nasceu, há 137 anos, através da pena de Johanna Spyri.

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