Hawks e Hemingway, Oliveira e Agustina. Livros feitos filmes

A relação entre o cinema e a literatura é tão antiga como atual. Hitchcock a Truffaut explicou porque não filmaria "Crime e Castigo"

Howard Hawks terá dito um dia a Ernest Hemingway: "Consigo fazer um filme a partir da tua pior história." E quando o autor de Por Quem os Sinos Dobram lhe perguntou qual seria, Hawks terá respondido: "Aquela maldita porcaria chamada To Have and Have Not [Ter e não Ter, em português]." Recorda-se de Humphrey Bogart no papel de Harry Morgan e Lauren Bacall no de Marie "Slim" Browning? You know to whistle, don"t you?, pergunta-lhe Bacall. Ele responde com um assobio, depois de ela sair. Uma curiosidade: William Faulkner colaboraria no guião.

A relação entre a literatura e o cinema, entre os livros e os filmes, é longa, e tão antiga quanto atual, percorrendo a história do cinema. Em 1922, no Nosferatu de Murnau, já lá estava o Drácula do livro de Bram Stoker.

Clássicos da literatura foram adaptados ao cinema sem que a sua repercussão fosse sequer comparável aos livros; noutros casos, obras geralmente desconhecidas, muitas vezes de escritores eles próprios pouco célebres, resultaram, quando adaptados ao cinema, em grandes filmes, hoje clássicos.

Alan Le May. Para muitos, este nome não corresponderá a nada. É ele o autor do romance The Searchers, que John Ford levaria ao cinema com o mesmo título (A Desaparecida, na versão portuguesa), e que terminaria com John Wayne a regressar, sozinho, para o deserto de onde o vimos chegar naquele que é um dos mais icónicos começos de um filme.

D"entre les morts, de Boileau-Narcejac. Foi a partir desta peça de teatro que Alfred Hitchcock criou, em 1958, Vertigo. Na longa entrevista que François Truffaut lhe fez, em agosto de 1962, notou que as suas adaptações, bastante livres, partiam "geralmente de romances populares ou de entretimento", acrescentando ainda que muitos gostariam de o ver levar ao cinema uma obra como o Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Hitchcock explicaria o seu método: "O que faço é ler a história apenas uma vez, e se gostar da ideia de base, esqueço tudo sobre os livros e começo a fazer cinema. Hoje não seria capaz de lhe contar a história de The Birds [Os Pássaros, que deu origem a um dos seus maiores filmes], de Daphne du Maurier. Só o li uma vez, e muito depressa." Quanto à possível adaptação, Hitchcock respondeu: "Nunca o faria, o Crime e Castigo é a proeza de outra pessoa." Querendo dizer, como esmiuçaria depois o francês, que "já encontrara a sua perfeição da forma, a sua forma definitiva."

E contudo, grandes obras da literatura chegaram ao grande ecrã. Francis Ford Coppola partiu do Coração das Trevas, de Joseph Conrad (autor que, é justo dizê-lo, também Hitchcock adaptou em Sabotage, a partir de O Agente Secreto), para realizar Apocalypse Now; Luchino Visconti fê-lo com O Leopardo, de Giuseppe Lampedusa. John Huston filmou o Moby Dick de Melville, e Gregory Peck ficará como o Atticus Finch em To Kill a Mockingbird (Na Sombra e no Silêncio), de Robert Mulligan, a partir de Harper Lee. A lista é longa: das adaptações de Shakespeare feitas por Orson Welles, ou A Leste do Paraíso, obra de John Steinbeck (de quem Ford filmaria As Vinhas da Ira) adaptada por Elia Kazan.

O caso português

Assim que se pensa na relação entre literatura e cinema em Portugal, logo se vislumbra o nome de Agustina Bessa Luís e o de Manoel de Oliveira. Entre algumas turras - segundo consta - o cineasta levaria oito obras da escritora ao cinema. A primeira foi Francisca, que parte de Fanny Owen. Seguir-se-iam Vale Abraão, do livro homónimo, ou Party, cujos diálogos foram escritos por Agustina para o próprio filme.

Oliveira, que também levou Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, ou O Gebo e a Sombra, de Raúl Brandão, ao cinema, diria ao Público: "É que o texto literário não tem correspondência cinematográfica, mas tem a possibilidade de ser transposto."

Outro caso é o de Fernando Lopes, que adaptou Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira ou O Delfim, de José Cardoso Pires, como fez com António Tabucchi e Mário Zambujal. João Botelho, que em 2015, levou ao cinema Os Maias, de Eça de Queirós, já o fizera com O Livro do Desassossego, de Pessoa, A Corte do Norte, de Agustina, e até Hard Times, Tempos Difíceis, de Charles Dickens.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

As culpas de Sánchez no crescimento do Vox

resultado eleitoral do Vox, um partido por muitos classificado como de extrema-direita, foi amplamente noticiado em Portugal: de repente, na Andaluzia, a mais socialista das comunidades autónomas, apareceu meio milhão de fascistas. É normal o destaque dado aos resultados dessas eleições, até pelo que têm de inédito. Pela primeira vez a esquerda perdeu a maioria e os socialistas não formarão governo. Nem quando surgiu o escândalo ERE, envolvendo socialistas em corrupção, isso sucedera.

Premium

João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

Premium

Ruy Castro

Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

Premium

Marisa Matias

O Christian, a Rosa e a rua

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise no início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto.