"Há tempo para mais uma?", pergunta Woody Allen à banda

O septeto com que o cineasta se reúne frequentemente para atuar num clube de jazz em Manhattan anda em digressão pela Europa. O Coliseu dos Recreios foi a última paragem

Não deu para perceber se Woody Allen estava nervoso por subir ontem ao palco do Coliseu dos Recreios com a New Orleans Jazz Band, apesar de o clarinetista ter confessado mais do que uma vez que fica com os nervos em franja antes de cada atuação nestas salas maiores do que o clube de jazz onde é habitual juntar-se com os outros seis elementos em Nova Iorque, o The Carlyle, em Manhattan.

O Coliseu é maior, mas nada que deva assustar o homem que tem feito rir plateias de todo o mundo com os seus filmes. Será mais fácil estar atrás da câmara do que em cima de um palco, em direto e impossibilitado de poder refazer cenas. Nada que tenha impedido o público que foi ao Coliseu de sair satisfeito com o espetáculo e aprovado a lista de canções escolhidas entre ele e Eddy Davis, maestro de sempre da Woody Allen & His New Orleans Jazz Band, pouco antes de cada prestação de modo que o ambiente seja o de uma verdadeira banda de Nova Orleães.

Duas horas antes do início do concerto ainda havia quem quisesse comprar bilhete, mas a resposta era só uma: "Completamente cheio." E à hora quase certa a banda apareceu, fizeram-se os posts para o Facebook e todos os olhos se viraram para o clarinetista que entrava no palco com a banda. Sentado ao centro, Woody Allen cruzou as pernas e deu os primeiros sopros. Num tom esganiçado, diga-se, mas devia ser assim mesmo pois as palmas foram muitas para os que estavam a achar-se num verdadeiro cenário de A Rosa Púrpura do Cairo.

A decoração do palco era nenhuma, apenas focos de luz, como num clube de jazz modesto, mas as palmas eram à Coliseu. À segunda música todos os membros da banda tiveram o seu momento, mesmo que Woody Allen lá espremesse o clarinete como o ator principal dos seus filmes, batesse o pé e se empertigasse na cadeira como um músico de há tantos anos como já o é.

Quem não soubesse o que se passava ali acharia que estava num filme. Até porque ele decide falar para o público e agradecer tanta boa vontade para com a banda de idosos: "Tocamos para nós e para nos divertirmos e ficamos surpreendidos por nos quererem ver. Adoramos voltar a Lisboa, onde já tivemos alguns momentos muito simpáticos."

Depois do ponto alto em que se ouviu o senhor que protagonizava Annie Hall para delírio da plateia, o homem do banjo valorizou o espetáculo com uma boa interpretação de um tema que a todos pareceu conhecido. Ah, Woody dissera também no seu discurso introdutório que iam tocar coisas que estavam esquecidas... A secção de sopros fez questão de mostrar que ainda estava para as curvas e começou a desafiar o pianista, o contrabaixista e o baterista. Venceram as duas partes, se quisermos ser justos, além de que o clarinetista passou a estar no tom de banda e a diferenciar-se menos. Talvez a razão fosse o som do Woody estar mais em destaque do que o dos restantes instrumentistas. Má opção.

A partir daí deu para continuar a ver o filme com o som ajustado e perceber que lhe é reservado o papel de protagonista que já não tem nos filmes que realiza, até porque o foco o estava sempre a destacar.

O alinhamento percorreu todos os géneros musicais de Nova Orleães, levando o público à quase loucura, como se estivesse a ver Bananas no final dos anos 1970. Foi ragtime, dixieland, marchas mais ou menos lentas, solos de trombone e de trompete à Louis Armstrong e muito banjo bem ritmado. Quando se achava que o baterista se ia embora a meio do espetáculo, não foi isso que aconteceu, mas uma grande interpretação vocal, só rivalizando com as frequentes do maestro ou o momento mais ovacionado da noite, o solo do contrabaixo.

Quando voltaram para o encore, Woody Allen perguntou à banda se ainda havia tempo para mais uma. Todos concordaram e foi uma bela despedida para um público ávido de volteios à moda de Nova Orleães, com uma banda que não precisava de pautas para tocar mais três músicas antes da partida e uma última à When the saints go marching in.

Quem olhasse bem para a banda reparava que a música de negros era tocada por brancos, numa espécie de erro de casting. Nada que incomode, afinal Woody Allen não fez a piada mais recente desta digressão: "Eu não votei nele." Em Trump, claro. Mostrou apenas o seu lado muito pessoal de cineasta que domina a atenção dos espectadores até a tocar clarinete. A banda teve, além de Woody, Eddy Davis no banjo, Conal Fowkes no piano, Simon Wettenhall no trompete, Jerry Zigmont no trombone, John Gill na bateria e Greg Cohen no baixo.

"Pouco talento"

A presença de Woody Allen e a sua banda no Coliseu marca o fim de uma ausência de uma década - entretanto, esteve no Casino Estoril. Neste domingo também marcou presença no londrino Royal Albert Hall, onde não atuava desde 2004. A crítica aguardava tão ansiosamente esse regresso como o próprio. Foi isso que revelou antes da atuação, rematando: "É irónico que um músico com tão pouco talento e uma angústia terrível enquanto instrumentista seja aceite nesta sala."

Woody Allen já esteve mais cómodo nestas digressões musicais, pelo menos quando podia refugiar-se atrás da câmara. Quando fez Wild Man Blues (1997), um documentário sobre a banda. Ou ao escolher as bandas sonoras dos seus filmes entre os temas de jazz, divulgando muito de uma música com quase um século, como é o caso dos temas que tocaram no Coliseu. Assim foi em quase todos os filmes que realizou, da fabulosa utilização de Gershwin em Manhattan ao Café Society, onde se ouvia orquestras de Benny Goodman e Count Basie.

Na sua biografia oficial no site da internet alguém escreveu: "É um dos grandes entertainers da era moderna. A par dos filmes e da comédia, é um músico empenhado, que tocou clarinete a vida toda." Foi o que alguns testemunharam ontem.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?