Há que ouvir Elisa Rodrigues

A cantora, que tem sido apontada como uma revelação desde que lançou o álbum Heart Mouth Dialogues em 2011, apresenta esta noite no Capitólio As Blue As Red, produzido por Luísa Sobral

A sua voz já percorreu uma espécie de geografia composta por temas como Chega de Saudade, de João Gilberto, Love me Tender, de Elvis, Sonhos de Caetano Veloso, ou God Only Knows, dos Beach Boys. Em qualquer ponto da viagem, a voz de Elisa Rodrigues é inconfundível.

Quando em 2011 lançou o álbum Heart Mouth Dialogues, com Júlio Resende ao piano, disseram dela que era uma revelação. Depois, Elisa, moldada pelo jazz, juntou-se ao rock dos These New Puritans, a banda britânica com quem andou cerca de dois anos na estrada, e, deste lado, quase deixámos de a ouvir, embora a sua voz nunca tenha deixado de soar, e essa geografia tenha continuado o seu caminho.

A cantora lançou neste mês As Blue As Red, álbum produzido por Luísa Sobral, que apresenta esta noite no Cineteatro Capitólio, em Lisboa, e que abre com o tema premonitório Just Start a Fire. "Eu acho que para quem está de fora parece um regresso, porque parece que eu estive ausente. Eu não tenho essa perceção, porque estive sempre a fazer coisas. Não sinto que tenha estado afastada da música. Não estive visível. Em Portugal desapareci, deixei de ter tempo, e depois não fazia sentido estar a fazer mais concertos com o disco anterior. Para mim, isto é um recomeçar."

Começou por ter aulas de técnica vocal e coro aos oito anos. Subia às árvores para se esconder das aulas de formação musical. "Não estudava nada, só queria cantar", conta ao DN na plateia do Capitólio, que nesta quinta-feira a escutará.

Por volta dos "14/15 anos, um feliz acaso" levou-a à voz de Maria João, recorda. "Os meus pais levaram-me numa noite de verão a ver um concerto de encerramento de um workshop de jazz para crianças em Cascais. Era a banda da Maria João e do Mário Laginha, e eu fiquei completamente fascinada com o concerto. A minha mãe ficou com vontade de me inscrever no tal workshop de jazz, e assim fez. Arrastou-me, porque eu estava com vergonha e achava que não ia conseguir fazer nada daquilo. Tínhamos de fazer um mini-casting e lembro me de começar a cantar e a professora dizer: 'Arrepiei-me toda'"

Damos daí um salto até ao período em que ela, que ainda estudou design de moda, se torna vocalista da banda de nouvelle jazz ELLE. E Júlio Resende ouve-a cantar. Começam a atuar juntos e então surge o singular Heart Mouth Dialogues, composto por versões de canções como Ain't no Sunshine ou Sonhos, à exceção do original Run. "Eu acho que é um disco muito coerente e muito sólido, mas eu não tinha muita noção disso. As coisas foram feitas de uma forma tão natural, que digo que foi ingénuo, porque não foi uma coisa muito pensada. Havia, sim, uma grande entrega à musica e uma grande felicidade em fazer as coisas. Foi um disco gravado num dia, com o que eu gostava de cantar, com o que andávamos a tocar ao vivo. Ficou tudo praticamente à primeira." Elisa tinha 24 anos.

De lá para cá, vieram anos "de contraste. De tocar com These New Puritans em Los Angeles, no México e fazer a primeira parte da Bjork [no Hollywood Bowl], a coisas pequenas, mas também um processo interior de compor, começar a escrever, todas essas coisas. Foram anos de grandes flutuações e contrastes. Todas as experiências contam. Ir tocar a um bar que ninguém conhece conta. Fomos a um barzinho de jazz em Espinho e as pessoas estavam malucas, só perguntavam: 'Mas quem são vocês e de onde é que vocês vieram?' Todas essas experiências acumuladas dão um somatório bastante interessante, que depois trazemos para tudo."

Talvez possamos chamar a As Blue As Red uma espécie de somatório, produzido por Luísa Sobral. "Eu acredito muito em coisas espontâneas. Na altura nós estávamos a pensar noutro produtor, porque eu tinha um disco de referência, que era a minha base, The Living Road, da Lhasa de Sela. Mas aconteceu a história da Eurovisão, e o meu manager, o Vasco Sacramento, disse: 'Não pensámos na Luísa para produzir o disco.' A minha reação foi: isso é estranho, mas ao mesmo tempo faz sentido."

As duas já se conheciam desde 2011, e Luísa Sobral até já se tinha oferecido para lhe escrever canções, incitando-a a regressar aos discos. E, tal como Joana Espadinha ou Pedro Silva Martins, escreveu. No seu caso, canções como Pontinho ou Justine, cuja letra Elisa escreveu de uma rajada, sem rasurar, depois de a escutar. "Estamos bastante alinhadas, Normalmente uma diz 'mata!' e a outra diz 'esfola!'", conta a cantora e compositora, que assina temas como Just Start a Fire ou In and Around You, primeiro single do disco.

Exatamente ao contrário do que aconteceu no primeiro álbum, neste todas as canções são originais à exceção de uma: If You Could Read My Mind, de Gordon Lightfood, emprestada a vozes como a de Johnny Cash, Neil Young ou Diana Krall. "A Luísa falou em termos uma versão, porque realmente é uma coisa de que eu gosto muito de fazer: pensar como é que nos podemos apropriar de uma coisa de outra pessoa, e como podemos dar a nossa voz a uma coisa que já foi tão bem feita. Isso é um desafio que me interessa bastante, e que está inerente ao jazz e também ao fado, é engraçado. Esta foi a primeira canção de que eu lhe falei. Ouvi-a cantada pela primeira vez pelo Johnny Cash. Eu só dizia: 'Luísa, ele canta isto tão bem, é daquelas músicas a que não vou conseguir mesmo acrescentar nada. Não tenho sequer ideias. A perfeição é tal.' Ela insistiu comigo. E ainda ontem estava a ouvir e a pensar: não está assim tão mau." Não está nada mau, diga-se.

Concerto nesta quinta-feira às 21.30 no Cineteatro Capitólio, em Lisboa

Bilhetes a 15 euros

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