Há muito para ver na Estação do Rossio para além do D. Sebastião

Fizemos uma visita guiada pela estação de comboios lisboeta, com o Centro Nacional de Cultura

Um grupo de pouco mais de 20 pessoas para em frente da estação de comboios do Rossio, em Lisboa, com o nariz no ar e os olhos postos nos rendilhados neomanuelinos da fachada. Lá está o relógio, a exigir pontualidade aos comboios, lá estão as flores, que simbolizam Nossa Senhora. "Reparem nos arcos. Estão ali as palavras Estação Central, que é o nome oficial desta estação", aponta a historiadora Ana Sousa. Semicerramos os olhos para ver melhor. E, de repente, ouvem-se "ohs" de espanto. "Que giro, passo aqui todos os dias e nunca tinha visto aquelas palavras", comentam algumas das pessoas.

Esse é um dos objetivos das visitas guiadas por vários locais da cidade organizadas pelo CNC - Centro Nacional de Cultura: fazer que as pessoas olhem para os sítios que já conhecem (ou pensam conhecer) de outra maneira. Esta, que se realizou ontem à tarde, à Estação Ferroviária do Rossio, integra-se na Festa no Chiado, uma iniciativa do CNC que começou no sábado passado e vai terminar no próximo fim de semana. Entre os vários passeios propostos, há um à Cervejaria Trindade e outro (que costuma ser muito concorrido) ao Grémio Literário, mas também um percurso no Chiado com Bordalo e outro com Ricardo Reis.

O ponto de encontro estava marcado para as 15.30 na porta lateral da estação, no Largo Duque de Cadaval. "Vamos tentar demorar apenas uma hora, por causa dos condicionamentos no trânsito", anuncia a arquiteta Paula Azevedo, da Infraestruturas de Portugal. Numa bela tarde de sol, com a Avenida da Liberdade inundada de vermelho do Benfica, o grupo entrou na estação não para apanhar o comboio mas para ir conhecer a Sala do Rei - o espaço costuma estar fechado ao público e esta é uma das poucas oportunidades para o visitar. Trata-se de uma sala VIP, onde o rei e depois o presidente da República e outras individualidades poderiam receber os viajantes mais importantes que chegavam no comboio.

É aí, sentados em cadeiras do nosso século mas a apreciar os candeeiros e as decorações nas paredes que datam de 1890, que as duas guias, Paula Azevedo e Ana Sousa, aproveitam para contar toda a história da Estação do Rossio - construída para ser a Estação Central, para fazer a ligação às linhas principais dos caminhos-de-ferro portugueses e, mais tarde, também à linha internacional do Sud Express. A escolha do local não foi consensual - era um espaço apertado e pouco prático. Mas o projeto avançou. "Era a mais moderna estação portuguesa", explica Paula Azevedo. Moderna em tudo. No túnel, escavado com picaretas ao longo de um ano e de quase três mil metros, para fazer a ligação à paragem de Campolide. Nos acessos à plataforma elevada, com rampas e ascensores hidráulicos (para os quais era preciso comprar bilhete). Nas locomotivas e outras maquinarias, todas novas, o mais modernas possível.

A visita passa, brevemente, pelo Hotel Avenida Palace, ali ao lado, construído na mesma altura e pelo mesmo arquiteto, José Luiz Monteiro, inicialmente apenas como apoio à estação. E detém-se depois na porta principal, momento para descobrirmos as palavras Estação Central e notarmos a ausência da estátua de Dom Sebastião, que foi destruída há poucas semanas por um turista que nela se empoleirou para tirar uma fotografia.

Mas o momento mais esperado é a visita às plataformas. "Tantas vezes que passei aqui, quando era miúda, tantas viagens que fiz com os meus avós e nunca tinha visto os painéis de azulejos", surpreende-se Maria Albertina Ascensão. Tem 84 anos e morou sempre em Lisboa, que conhece bem. "Faço parte do grupo dos Amigos dos Castelos e costumo fazer visitas. Mas aqui nunca tinha vindo e estou a gostar imenso", diz, enquanto aprecia as duas séries de 14 painéis de azulejos: de um lado, os de Lima de Freitas, sobre lendas de Lisboa (1995); de outro os de Lucien Donnat, sobre os produtos portugueses (da sardinha à cortiça, ao vinho e às faianças), feitos para a Exposição do Mundo Português (1940) e que foram ali parar em 1958.

Madalena não se cansa de tirar fotografias a todos os pormenores. Para ela tudo é novidade. Mora em Lisboa e nunca tinha entrado na Estação do Rossio. "Nunca precisei, uso mais a Estação do Oriente, para o Porto", comenta. "Ouvi falar desta visita e decidi aproveitar. E ainda bem que o fiz. É maravilhosa."

Entre as histórias de placas giratórias e da "caranguejola" (que permitiam à locomotiva inverter o sentido da marcha) e dos bilhetes de gare, que dantes toda a gente tinha de pagar se queria entrar na estação para se despedir de alguém, já se passaram duas horas e nós estamos parados em frente do grande painel de azulejos de Lima de Freitas, na ligação da Estação do Rossio com a estação de metro dos Restauradores. Ali não se ouvem gritos nem buzinas mas a esta hora já o Benfica marcou o primeiro golo e está a caminho de ser tricampeão.

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