Há 22 tesouros nacionais guardados num museu com 100 anos

Pinturas de Grão Vasco, uma escultura de Claude Laprade, o auto-retrato de Columbano Bordallo Pinheiro e a píxide da Serra Leoa reúnem-se na mesma casa. Podem passar despercebidas.

Poucos museus podem dizer que concentram esta quantidade de obras elevados à categoria de Tesouros Nacionais. No Museu Nacional Grão Vasco, que ontem soprou as velas dos 100 anos da sua fundação, existem 22, entre as obras do pintor Vasco Fernandes, o autorretrato de Columbano Bordallo Pinheiro, a escultura de Santa Ana e a Virgem de Claude Laprade e a píxide da Serra Leoa.

É esta última peça, com 8,5 centímetros de altura por 12,2 de diâmetro, proveniente da Igreja de São Francisco das Chagas, em Viseu, o primeiro dos tesouros que o visitante encontra na exposição permanente, mas é nas salas do segundo piso deste edifício reabilitado por Souto Moura em 2001 que se concentram 19 tesouros nacionais, segundo a classificação do Estado português, do pintor que dá nome ao museu: Vasco Fernandes, que nasceu na zona de Viseu, não se sabe bem onde, e de quem nada de soube até 1502, quando integra a oficina de Francisco Rodrigues e trabalha nos 22 painéis da Sé de Viseu.

Sobraram 14 quadros (incluindo uma Adoração dos Magos em que o Baltazar é índio) que olham de frente para outro tesouro, a pala de S. Pedro, trabalho de solitário do mestre do Renascimento português, de 1530. "O ex-líbris do museu", nas palavras de Manuel Costa, reformado, de visita ao museu com a mulher, Cecília, numa pausa das férias termais em S. Pedro do Sul.
Há outras 12 obras tesouros aqui, aqueles que foram produzidos em parceria com o discípulo Gaspar Vaz para o claustro da Sé de Viseu. Foram reunidos neste museu na extinção das ordens religiosas e criação do museu em 1916.

Das 22 obras consideradas as mais importantes do museu, Manuel Costa e Cecília Jorge começaram primeiro pela escultura de Santa Ana com a Virgem, um trabalho de Claude Joseph Laprade, de 1723, para a Sé, no momento em que a Sé se renova. Podia passar despercebida, diz Cecília. "Mas olhando bem...", acrescentando notando os detalhes e antes de passar à sala dos naturalistas e chegar ao autorretrato de Columbano Bordallo Pinheiro.

"O atelier é fugir", dispara Manuel Costa depois de ler a legenda do quadro retangular. "Com uma caveira e tudo. Os tons que utiliza são escuros, é sombrio [o quadro]", continua. Uma peça do pintor incorporado nos primeiros anos de vida do Grão Vasco, em consequência do círculo artístico nascido em torno do diretor fundador, Almeida Moreira. É uma pintura rara no artista, dizem os especialistas e diz o visitante.

"Foi a nossa nora que nos disse para não nos esquecermos de ir ao museu, que faz 100 anos". Saíram antes dos festejos -- com lançamento de selo dos CTT, prato Vista Alegre e beberete com a secretária de Estado da Cultura e o subdiretor-geral do Património Cultural, David Santos -- mas a tempo de ver todas as joias da casa.

A festa do centenário começou ontem com a inauguração de uma exposição evocativa da história, continua com a realização de mais 13 mostras, num investimento total que ronda os 500 mil euros, que já incluem os gastos habituais do museu. "Não tenho a pretensão de agradar a todos com a nossa programação, mas que alguma coisa agrade a todos", resume Agostinho Ribeiro.

A partir de 3 setembro, em colaboração com o Museu Nacional de Arte Antiga, na galeria de exposições temporárias, abrirá a exposição Depois de Grão Vasco. Pintura entre o Mondego e o Douro, do Renascimento à Contra Reforma, cujos comissários são os especialistas em pintura antiga do museu, José Alberto Seabra de Carvalho (diretor adjunto) e o conservador Joaquim Caetano. MNAA e MNGV estão a fazer um levantamento de obras, entre o Douro e o Mondego, de pintores para quem Vasco Fernandes foi mestre ou inspiração.

Elevado a museu nacional em maio do ano passado, o Grão Vasco recebeu 86 371 visitantes, mais 7,6% do que em 2014, segundo os dados da Direção Geral do património Cultural. Se o crescimento se deve à programação do centenário ou ao facto de ser agora um museu com estatuto nacional, Agostinho Ribeiro não sabe, apesar de saber que agora a casa que dirige aparecer em roteiros internacionais. Atualmente, 20% são estrangeiros e para eles que as baterias estão apontadas, diz o diretor, sublinhando a importância das parcerias que vêm estabelecendo e de que a exposição no Centro Cultural de Cascais é a prova. Para já, os números prometem: em janeiro e fevereiro deste ano ultrapassaram em quase 80% o número de visitantes registados no mesmo período em 2015.

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