Guia para explorar a Bienal de Fotografia

Começa este sábado, dia 15, vai na sua 10.ª edição e está diferente. Há trabalhos de 30 artistas espalhados por 15 locais, alguns mais convencionais, como museus, e outros, fora da caixa branca habitual, num percurso de cerca de duas horas pela cidade.

A Bienal acontece desde os anos 80, vai na sua 13.ª edição, mas é a primeira vez que assume a dimensão deste ano: alargada a toda a cidade. Eis um mapa para entrar na Bienal de Fotografia (BF'16), guiados pelo curador-geral, David Santos, a partir de um tema "Arquivo e Observação". São duas horas de imersão nas artes visuais para percorrer até 22 de fevereiro.

1. Vítor Pomar

O curador-geral, David Santos

O primeiro ponto de paragem recomendado pelo mapa da Bienal, impresso num jornal que estará disponível em todos os locais, é o Pavilhão Multisusos da cidade onde estão três obras de Vítor Pomar: duas fotos e um vídeo, Eu sou Kuntuzangpo.

2. Daniel Blaufuks

Uma casa do início do século XX foi ocupada por "Léxico", a exposição de Daniel Blaufuks

O percurso segue até ao número 10/12 da rua João de Deus, uma casa para venda, como anuncia a placa na fachada. O curador-geral David Santos diz que pensou nela para Daniel Blaufuks quando convocou os artistas e lhes apresentou a proposta de fazerem um trabalho original para a BF'16. "Mas não disse nada". O artista, no entanto, acabou mesmo por escolher este local, uma casa térrea, com tinta a descascar, instalações elétricas à vista, revestimentos antiquados. É uma casa do início do século XX, semelhante a muitas outras da zona, e para este trabalho, Blaufuks enche-a com imagens de pequena dimensão em passe-partouts de época. Pertence à série Léxico. As imagens são do autor e do inventário pessoal, em consonância com a temática da BF'16: Arquivo e Observação. Na assoalhada virada para a rua, os vidros da janela, às cores, deixam uma luz ténue, exatamente como o fotógrafo pensou.

Outro aspeto da casa de Vila Franca de Xira onde pode ser visto o trabalho de Blaufuks

Outro aspeto da casa de Vila Franca de Xira onde pode ser visto o trabalho de Blaufuks

Blaufuks é um dos cinco artistas a quem a Bienal encomendou trabalhos. Os outros são José Maçãs de Carvalho, Patrícia Almeida, José Pedro Cortes e Júlia Ventura. Foram convidados há um ano para fazer parte deste programa curatorial.

3. Eduardo Matos

A edição de 2016 da Bienal de Fotografia, um projeto de cerca de 80 mil euros, da câmara municipal de Vila Franca de Xira, começou nos anos 80. É um dos eventos do género mais antigos, a par dos Encontros de Imagem, em Braga, o prémio Fnac ou Novo Banco Photo, como frisou, na sua apresentação o vice-presidente da autarquia e vereador da Cultura, Fernando Paulo Ferreira. Este ano o formato difere dos anteriores com o convite a David Santos, antigo diretor dos museus de Vila Franca, para criar um programa curatorial que se estenda por toda a cidade.

David Santos explica, em jeito de introdução, ainda na Fábrica das Palavras, a biblioteca que serve esta cidade de 40 mil habitantes, que "os artistas foram selecionados com o intuito de projetar um diálogo prolífico com a cidade". Misturam-se trabalhos inéditos, alguns que os artistas quiseram mostrar pela primeira vez, projetos que ainda não tinha sido vistos em Portugal e outros, já com lastro.

Eduardo Matos concebeu Jornal de Exposição - A Porta da Frente, que está no Hostel DP, um dos lugares mais invulgares escolhidos pela equipa curatorial. Santos convidou Margarida Mendes (The Barber Shop) e Bruno Leitão (Hangar), a quem coube escolher alguns dos artistas que estão na Bienal.

4. Rodrigo Oliveira

David Santos, atual sub-diretor para os museus da Direção Geral do Património Cultural, faz uma paragem nas escadarias do Salão Nobre Paços do Conselho, na Praça Afonso de Albuquerque, para mostrar uma fotografia solitária de Rodrigo Oliveira que esteve sempre pensada para este lugar, na subida das escadas para um dos mais importantes lugares da decisão política, onde se fazem as reuniões de câmara - Um homem numa cozinha antiga que segura várias lâmpadas ou, nas palavras do seu autor, Monumento a Tatlin numa cozinha palaciana. "Somos confrontados com esta peça de grande instabilidade e desiquilíbrio. "A peça é uma citação de uma citação, como a política é uma citação de uma citação", resume o curador. O trabalho pertence a uma série de Rodrigo Oliveira intitulada Utopia na casa de cada um.

5. José Maçãs de Carvalho, Salomé Lamas

José Maçãs de Carvalho na Fábrica das Palavras

É na Fábrica das Palavras, um edifício de Miguel Arruda, que José Maçãs de Carvalho, antigo concorrente da Bienal, mostra o seu trabalho -- encomenda feita a propósito para este momento. David Santos chama a atenção paraa primeira fotogafia, pendurada ao nível do piso 2, mas visível do piso 1. São estantes de livros, "remetem para o lugar onde estamos". Mas há outras camadas leitura, explica. Como a sequência de cores que se vê na imagem, e funciona como a paleta de cores de um artista. É a primeira de uma sequência de sete imagens que estão espalhadas pelos vários pisos da biblioteca. Algumas peças obrigam o visitante a aproximar-se, outras são uma citação como After Candida Hõfer. Um arquivo vazio e sistemático, à espera de ser preenchido, com uma presença humana. "Ele subverte a presença humana", contrapõe David Santos. Outra das peças que entram na exposição é aquela que resulta de uma imagem captada na empresa de emolduramento com quem Maçãs de Carvalho habitualmente trabalha. Entre o caos surge a figura de Gioconda, "o ícone maior da história da arte, sempre presente em todos os momentos".

Le Boudin, de Salomé Lamas, um filme de 16 minutos (2014), também está na Fábrica das Palavras, no auditório, e pode ser visto aos sábados.

6. André Sousa, Cem Raios t'Abram, Von Calhau!

"É um bar muito antigo em Vila Franca", diz David Santos, entre locais, explicando onde vão ficar as obras de três dos convidados, estes escolhidos por Margarida Mendes. Trata-se de a Flor do Tejo Bar e é lá que que vão estar André Sousa e as instalações em vídeo de 2015 de Cem Raios t'Abram e Avesso de Von Calhau.

Pauliana Valente Pimentel junto do trabalho "The Passenger"

7. Ana Rito, João Onofre, João Tabarra, Mumtazz+Fernando Lemos, Pauliana Valente Pimentel, Rui Toscano, Vasco Araújo

Sete artistas apresentam os seus trabalhos no Museu Municipal. Ana Rita, André Sousa, João Tabarra, Mumtazz, com Fernando Lemos, Rui Toscano, Vasco Araújo e Pauliana Valente Pimentel, finalista deste ano do prémio Novo Banco Photo. A artista, e o curador, selecionaram seis imagens de uma série de 17, intitulada The Passenger, para este local. Resultam de uma viagem de comboio financiada pela União Europeia que reuniu artistas de vários países. Passou pela Estónia, Letónia, Lituânica. Pauliana fotografou a viagem, mas também saiu para se misturar com outras pessoas. "Foram encontros fugazes, a correr, mas acho que mesmo assim consegui captar os momentos".

8. João Paulo Feliciano

"Fazemos aqui uma paragem", diz David Santos. O mercado municipal não estava nos planos da visita guiada para a imprensa, mas entrou de súbito, à passagem pelo mercado municipal, esse edifício baixo, decorado a azulejos, em que o artista João Paulo Feliciano mostra a série Xabregas City. Uma coleção de mais de 50 imagens compiladas em Marvila, onde o artista tem o seu estúdio. Estão penduradas um pouco por todas as bancas, sem os cuidados que se teriam num museu ou galeria de arte. Estão como qualquer outra informação que se lê/ vê no mercado. "Aqui nada está direito", afirma David Santos, incluindo este trabalho entre os "detonadores da participação das pessoas". Estas imagens -- retratos de abandono, suburbanidade, paisagens inóspitas --, são, segundo o curador, são novidades no conjunto da obra do artista, 53 anos, fundador do Real Combo Lisbonense.
David Santos complementa as suas explicações a propósito das escolhas curatoriais, em parceria com Margarida Mendes e Bruno Leitão. "A pluralidade é o que nos interessa", começa. "Provocar o observador nas várias dimensões que os artistas trabalham.

9. António Júlio Duarte, Catarina Botelho, João Grama, Nuno Cera, Rui Calçada Bastos, Susana Mendes Silva

Vencedor do prémio da Bienal, em 1989, António Júlio Duarte regressa 'a casa', com outro suporte: o vídeo, "que trabalha desde os anos 90", precisa David Santos. Duas peças da sua autoria, Corisco e Honey Bee, estão no auditório do Museu do Neo-Realismo, o mesmo lugar onde se encontram expostos outros cinco artistas:
Nuno Cera, 41 anos, primeiro a surgir aos olhos do visitante. David Santos lembra o trabalho que o artista vem desenvolvendo com a fotografia de arquitetura. As imagens, pertencentes à série Carlo Scarpa's Tomba Brion, (2012) estão suspensas, aproveitando o lugar, uma das últimas obras do arquiteto Alcino Soutinho;

Susana Mendes da Silva, 44 anos, ocupa a biblioteca do com um trabalho produzido a propósito para o local a propósito do artista Manuel da Fonseca;

Catarina Botelho expõe as suas imagens nas escadas de incêndio do museu, uma perspetiva que tem tudo a ver com as três imagens que apresenta, da série Modo de Emprego, nas reservas do Museu Nacional de Arte Antiga;

João Grama mostra uma série de imagens de instrumentos ancestrais de caça e pesca, proibidos pela União Europeia, "que permanecem apesar das leis", segundo David Santos, e estão iluminados de forma ténue, pois, "como o Daniel Blaufuks, quer uma luz fraca para que o quotidiano se imponha às peças", explica o curador-geral;

Rui Calçada Bastos, 45 anos, é um dos artistas que se pode ver neste museu. Seis imagens da série Interruptions and Imperfections, a partir de Berlim, onde vive e trabalha. São imagens de "transgressão à norma", explica David Santos, sobre o trabalho.

10. Mónica de Miranda

A artista mostra o seu trabalho na galeria Paulo Nunes - Arte Contemporânea, a única do género em Vila Franca de Xira. As fotografias expostas pertencem a séries distintas: Break-line (Air-line series), a instalação fotográfica Botanic Gardens e Linetrap, ambas da série Arquipélago, Twins, Islands

11. Patrícia Almeida + David-Alexandre Guéniot

Patrícia Almeida, que tem trabalhado com David-Alexandre Guéniot, e foi uma das artistas convidadas para fazer um trabalho específico para a BF'16 que se pode ser numa outra casa na rua Miguel Bombarda, 161.

12. Left Hand Rotation

José Pedro Cortes no Clube Vila Franquense

Lugares em Lisboa à beira de desaparecer, um trabalho de Left Hand Rotation, no Café Puro (na mesma rua Miguel Bombarda). O projeto é de 2011.

13. José Pedro Cortes

O Clube Vila Franquense é de outro tempo. Tem salão nobre para palco, paredes com molduras salientes. Candelabros e espelhos. Tudo tridimensional, e um desafio para José Pedro Cortes, o artista que aqui expõe durante a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira. A exposição chama-se Concreto Armado. As suas fotos desafiam o 3D do lugar e as imagens que escolheu "aquelas em que o lado visceral dos materiais vinha ao de cima". Há placas verticais espalhadas e, sobre elas, as suas fotografias numa escala que nada tem a ver com a real. "Tinha de encontrar um dispositivo que arquitetonicamente mostrasse uma intervenção minha", nota. É o que explica também que tenha usado vários extensores para "esconder a sala".

José Pedro Cortes, ligado às edições Pierre von Kleist, expôs no Museu da Eletricidade há um ano (One's Own Arena) e no Japão, onde já tinha feito uma residência artística, captando imagens de pessoas de uma cidade. "Para mim fotografar pessoas já é um ato ato político", diz, no espaço do clube vilafranquense. "Fotografo porque quero continuar a conhecer pessoas e locais".

14. Júlia Ventura

É a quinta, e última, artista convidada para expor na BF16, com um trabalhado patrocinado pela Bienal, na Casa da Rua Sacadura Cabral, 26. Júlia Ventura mostrou o seu trabalho recentemente no Museu de Arte Contemporânea.

15. Luísa Baeta

Num desses lugares improváveis, o hotel Lezíria Parque, Luísa Baeta, 44 anos, expõe A1, Série Montanha, Aproximação (5 fotografias), Expedição (uma série de 150 fotografias) e O Monte Análogo. É, no mapa, o 15.º local de peregrinação. A artista foi premiada na edição de 2014 da Bienal, juntando-se a nomes como Gérard Castello Lopes, André Cepeda e Augusto Brázio.

A exposição dos 10 finalistas deste ano (entre 93) é inaugurada no dia 19 de novembro no Celeiro da Patriarcal. As mostras dos candidatos aos prémios temáticos, Tauromaquia e Concelho de Vila de Franca de Xira, acontecem entre 4 de fevereiro e 19 de março do próximo ano.

O programa curatorial pode ser percorrido até 22 de fevereiro.

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