"Gosto de urinar nas calças de quem me irrita"

Hermann é um dos mais antigos autores de banda desenhada da escola franco-belga e desenhador de séries como Bernard Prince, Comanche ou Jeremiah. Uma entrevista em que o autor fez vários manguitos...

A conversa com Hermann não é coisa fácil, mesmo que se lhe dê a desculpa de ter chegado da Bélgica poucas horas antes e de estar na confusão própria da Comic-Con em Matosinhos, com milhares de pessoas vestidas como os seus heróis. O desenhador não é muito fã de cosplays, das modas orientais, nem dos atores das séries de televisão que movem multidões na quarta edição do evento. Refere que já veio a Portugal algumas vezes e que o cansam as entrevistas, sempre repetitivas, mas não deixa de confessar que aprecia o resultado financeiro que lhe vem de todos os álbuns de banda desenhada que fez: "À conta deles tenho levado uma boa vida." Contrapõe-se que algumas perguntas podem ser as mesmas mas os leitores são diferentes, ao que responde: "É raro haver uma pergunta particularmente diferente. Como qual é a marca dos meus sapatos?" Qual é, pergunta-se para desanuviar o ambiente. "São italianos." Enfim, nada que não faça lembrar a irritabilidade de muitos dos seus personagens ao longo de uma carreira com várias décadas, tendo-se cruzado com todas as gerações de mestres da BD. No entanto, não quer falar da concorrência e, quando se questiona se acha bem as sequelas dos álbuns de Edgar Pierre Jacobs, a conversa para logo aí: "Não quero falar dele. Nunca me agradou." Então e a continuação de Michel Vaillant? "Tudo bem, gosto." E Astérix... Aí o desenhador desembucha de forma mais simpática: "Conhecia Uderzo. Tinha muito talento e era boa pessoa, mas desconheço o que se passa com a continuação dos álbuns e não tenho opinião. É difícil fazer tão bem como Uderzo era capaz, mas quando se vendem cinco milhões é difícil parar a máquina..."

Aproveita-se para saber o que pensa da adaptação de Valerian? A resposta é curta: "Não comento." Segundos depois, talvez por também ter tido Jeremiah adaptado, acrescenta: "Passar um álbum de BD para o cinema é trair a história. O cenário cinematográfico é diferente e há necessidade de prolongar a história original. Só o Popeye é que ficou bem no cinema." Ainda se ouvirá outra resposta com um "não comento", mas o mais divertido foi a perfeita imitação do manguito do Zé Povinho que repetiu várias vezes quando fazia certas afirmações. Enfim, Hermann é um veterano da BD, perto de fazer 80 anos e a preocupação em ser politicamente correto está ao nível zero. Como se verá em algumas respostas.

Foi o homenageado do Festival de BD de Angoulême. Muita gente achou que iria recusar o prémio mas não o fez. Porquê a cedência?

Vou explicar isso pela décima vez... Há muitos anos que criticava o júri porque era constituído por um grupo de desenhadores que formam uma pandilha. Tornaram-se um grupinho de amigos que distribuíam os prémios entre quem gostavam e quando eram criticados por não o darem a quem merecia respondiam com o silêncio. Eu dizia que um prémio dado por este júri não me interessava, nem nunca me seria dado. Só que em 2016 foi a cidade de Angoulême que decidiu dar-me o Grande Prémio e não poderia recusar. Aceitei e até tive de dizer obrigado.

A seguir foi Cosey quem recebeu...

Sim, o grupinho acabou [faz um segundo manguito].

Tal como Cosey, são muito diferentes da maioria. Concorda?

Eu sou um desenhador clássico que tem uma forma muito pessoal de trabalhar. Daí que não goste de falar do que faço e evite impor a minha forma de ser, porque tenho um olhar muito próprio sobre a nossa profissão. Faço o que acho bem e aquilo de que gosto. Não pretendo andar numa busca intelectual como muitos autores parecem fazer, aliás nem gosto de intelectuais - só se forem inteligentes e isso é raro. Como não sou diplomata, outro tipo de pessoas que detesto, prefiro dizer o que penso na cara da pessoa. Talvez por isso, poucos gostem da minha personalidade, mas, como não quero ser amado, não me incomoda.

Então, se lhe disserem que não gostam de um livro seu de forma direta nada acontecerá?

Podem dizer que não gostam, desde que evitem dizer que o livro é uma estupidez. Que me lembre, nunca me disseram até hoje que o meu trabalho é uma merda. Também sei que tem sido pouco analisado pelos especialistas, mas sei que não é merda. Se o classificarem desse modo é mais por não gostarem de mim. Quando morrer, acaba tudo [terceiro manguito].

Quando fala de merda também há certas fases suas de que não gosta. A de Bernard Prince, por exemplo...

É uma fase de que gosto menos. Sei que é uma BD simpática mas um pouco ingénua, própria para adolescentes. Greg [o argumentista] era muito bom a escrever histórias mas eu queria fazer algo mais adulto e profundo. Não queria desenhar histórias superficiais.

Nem todos os álbuns do Bernard Prince eram "infantis"!

Concordo, mas creio que a maior parte dos meus leitores prefere o que fiz depois. Isso passa-se com qualquer artista, o que realizou antes ou no presente será sempre inferior ao que fará no futuro.

O que gosta é de mudar?

Não é mudar, será mais evoluir.

Daí a série Jeremiah?

Sim, é um bom exemplo, porque ficou diferente do que fazia e resultou de uma maturidade que nunca existiria no início da carreira. Não rejeito os álbuns do início, há um ou outro título que aprecio e que está na minha lista de preferidos.

Vai sair o 36.º álbum de Jeremiah. Ainda não esgotou a inspiração?

Gosto do que faço e sou saudável. Mentalmente passa-se o mesmo. Posso esquecer-me de algumas coisas mas ainda não é Alzheimer...

Jeremiah começou por montar a cavalo e depois saltou para a mota!

Existe uma razão para deixar de andar de cavalo: um estúdio de cinema de Los Angeles quis fazer uma adaptação e os cavalos não se enquadravam no que queriam. Então, mudei para as motas porque era mais fácil e gostava de as desenhar. Depois fui mais radical, criei um incêndio e as motas arderam para que andassem a pé, que era o que me apetecia desenhar. Estava mais de acordo com a forma como descubro as histórias, vão aparecendo como se estivesse a andar no nevoeiro e nada fosse claro. Desconheço sempre o que se passa entre o princípio e o fim da história.

Não escreve um guião?

Não, tenho algumas sequências na cabeça e pouco mais. Há vezes em que até corto parte das pranchas e antecipo o que iria acontecer à frente. Tem vezes em que estou tão perdido que duvido que ache a solução. Fico com medo, mas gosto da sensação de andar à procura da saída do túnel. É um desafio.

Prefere trabalhar com um argumentista ou estar só ao comando?

No Jeremiah sou eu apenas, mas o meu filho colabora comigo noutras histórias e formamos uma boa equipa. Ele cria histórias muito diferentes das que eu sou capaz e sabe o que quer do princípio ao fim. Formamos uma boa equipa.

Convive bem com propostas tão diferentes da colaboração com o seu filho [Yves H.]?

Bem. Agora estamos a fazer Duke, que é um grande sucesso. O editor está contente, portanto é uma colaboração para continuar.

Jeremiah é o seu alter ego?

Em parte sim: vive como quer, não está à procura da justiça, às vezes é bruto e completamente despreocupado com a salvação do mundo. Desconfio de histórias moralistas, prefiro atitudes humanas.

Mesmo na época em que vivemos?

Onde está o mundo correto? Vivemos num mundo selvagem onde só conta o dinheiro, com os criacionistas de Trump, ditaduras na Europa de Leste, em África, na América do Sul, na Turquia... A humanidade está um desastre e não acredito que se vá lá com histórias moralizadoras e diplomacias.

Já fez livros políticos...

Tenho política ao nível da contestação, mas sei que não é com banda desenhada que o mundo muda. No entanto, gosto de urinar nas calças das pessoas que me irritam.

Qual a sua orientação política?

Sou como um carro a deslizar na neve, umas vezes guina para a direita, outras para a esquerda - nunca para os extremos. Agora já nem sei em que direção seguir. Estou muito pessimista sobre o que se passa no mundo e bastante preocupado com a situação nos EUA, a Rússia e a China. Espero que a Europa se fortaleça ou será pior.

Diz-se que tem fortes influências do "perigoso" Céline...

Apenas no que respeita ao seu livro Viagem ao Fim da Noite, não nos escritos antissemitas. O livro é um grito de cólera parecido com o meu. Felizmente, tenho o desenho para me fazer esquecer a realidade.

Esquece tudo?

Uma parte, como se tivesse chegado a um alto nível de alcoolismo e só seja capaz de perceber parcialmente o que me rodeia. Aviso, eu não bebo álcool.

Esse pessimismo reflete-se no que faz?

Em parte. Não no Bernard Prince ou Comanche, porque o Greg era um senhor que se enquadrava muito bem na sociedade e não se preocupava em a questionar.

Daí que tenha outros personagens como Bois Maury?

De que gostei muito por refletir o meu conceito de Idade Média, um tempo sem tecnologia.

Não se beneficia da tecnologia?

Nada a não ser para googlar informações para desenhar corretamente os cenários, mas na maior parte das vezes é o meu filho que pesquisa, imprime e dá-me as folhas. Continuo mais adepto do papel e do lápis.

Tem saudades do preto e branco?

Essa é uma técnica de outro tempo. Nunca se sabe se no futuro quererei voltar ou até se dentro de dois anos desistirei de Jeremiah e voltarei a fazê-lo.

Gosta de ser convidado para convenções como esta [Comic-Con]?

No comments.

Como começou a sua carreira?

Eu não queria estudar e disse à minha mãe que não iria mais à escola. Era bom aluno mas não gostava, então fui aprender um ofício: fazia móveis e depois desenhos para arquitetos. Quando me casei, o irmão da minha mulher era chefe de redação de uma revista dos escuteiros belgas: Plein Feu. Um dia viu os meus desenhos, achou que tinha jeito e perguntou-me porque não fazia banda desenhada. Era um sonho dos meus 15 anos, mas desistira porque um professor disse-me que não teria futuro. Com o convite do meu cunhado, comecei a treinar. Arranjei um emprego de manhã e à tarde redesenhava páginas das revistas Spirou e Tintim à minha maneira mas com o mesmo texto. Quando publiquei a história na Plein Feu, o Greg viu - ele acompanhava tudo nesta área - e convidou-me para trabalhar no seu estúdio. Foi assim que comecei.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.