George Michael: uma inspiração para a comunidade LGBT

O músico assumiu publicamente a homossexualidade após ter sido detido numa casa-de-banho em Los Angeles e, desde então, esse assunto deixou de ser tabu para ele.

George Michael assumiu a sua homossexualidade na sequência da detenção, em abril de 1998, por "atentado ao pudor" - alegadamente por ter tentado seduzir um polícia à paisana numa casa de banho em Beverly Hills, Los Angeles, EUA. Foi multado e condenado a 80 horas de serviço comunitário por esse incidente que deu origem a um original título do tabloide inglês Sun: "Zip Me Up Before You Go Go".

Mais tarde, o músico haveria de comentar: "Nunca tive qualquer problema moral em ser gay. Pensei que me tinha apaixonado por uma mulher algumas vezes. Depois, apaixonei-me por homem e percebi que nenhuma dessas coisas tinha sido amor." O sexo sempre esteve presente na sua música, quer de forma mais explícita como em I Want Your Sex (que chegou a ser censurada em algumas estações de rádio nos Estados Unidos), quer por insinuações. Mesmo que não o soubéssemos na altura, é difícil não ver Fredoom 90 como uma canção de orgulho pelo que se é. E até nos Wham!, ao mesmo tempo que muitas raparigas se apaixonavam por aqueles dois cantores de calções curtos havia imensos rapazes que se identificavam com aquela alegria pop e a cumplicidade revelada pelos dois músicos.

Mais tarde, numa entrevista em 2007, George Michael explicou que tinha mantido a sua sexualidade em segredo devido à sua mãe: "A minha mãe ainda estava viva e teria sido um pesadelo para ela imaginar que eu poderia apanhar Sida" - esse, explica, era o maior medo entre os homossexuais no final dos anos 1980 e no início de 1990. "Mas já me tinha assumido perante muitas pessoas desde os 19 anos. Gostaria de o ter feito publicamente então. Penso que não teria tido a mesma carreira - o meu ego não teria sido satisfeito em alguns aspetos - mas teria sido um homem mais feliz."

O músico admitiu ainda que a morte do seu companheiro de então, o designer Anselmo Faleppa, com uma doença relacionada com Sida, em 1993, o levou a um período de grande depressão. O tema Jesus to a Child fala dessa perda terrível: "Tive a minha primeira relação aos 27 anos porque até aos 24 ainda não tinha resolvido verdadeiramente a minha sexualidade. Perdi o meu parceiro para o HIV e levei três anos a fazer o luto. Depois, perdi a minha mãe [em 1997]. Senti-me quase como se estivesse amaldiçoado."

O episódio na casa-de-banho de Beverly Hills obrigou-o a "sair do armário" sem qualquer premeditação mas George Michael lidou com o facto da melhor maneira possível. Acabou por satirizar a detenção no videoclipe de Outside (e na letra que dizia, entre outras coisas, "there's nothing here but flesh and bone", ou seja, somos todos iguais, carne e osso, com os mesmos desejos carnais) e de então para cá, George Michael deu o rosto e a voz por várias campanhas de sensibilização para o HIV.

E também não voltou a esconder as suas paixões. Teve uma relação de quase 13 anos com Kenny Goss (que terminou em 2009), para quem, depois, terá escrito a canção Where I Hope You Are. E desde então falou sempre abertamente sobre o assunto, por vezes até sendo propositadamente provocatório, admitindo que gostava de sexo anónimo e sem compromissos. Ou, em 2011, quando o músico escreveu no seu Twitter: "Nunca pedi e nunca vou pedir desculpas pela minha vida vida sexual. O sexo homossexual é natural, o sexo homossexual é bom. Nem todos o fazem mas... ha ha!"

Percebendo a abertura do músico, o humorista Ricky Gervais convidou-o mais do que uma vez a participar em sketches onde a homossexualidade não era tabu: Veja este exemplo, quando Gervais recebeu o prémio de melhor ator nos British Comedy Awards:

No The Guardian, hoje, Owen Jones não hesita em chamar-lhe um "ícone gay" e lembra que no ano em que George Michael falou publicamente da sua homossexualidade quase metade da população britânica considerava que essas relações eram "erradas". O facto de uma figura pública com a dimensão de George Michael abordar o tema sem tabus pode, efetivamente, ter feito a diferença para os jovens que se debatiam com a difícil aceitação social da homossexualidade, escreve o cronista.

Por tudo isto, assim que se soube da morte do músico, na noite de 25 de dezembro, começaram a aparecer nas redes sociais reações de associações de defesa dos direitos LGBT, como a Stonewall, que lançou um Tweet dizendo: "R.I.P. George Michael. Inspiraste muito e a tua música continuará a viver nos corações da nossa comunidade." Robbie dos Santos, um dos responsáveis da Stonewall, foi mais claro ainda: "Tu foste a banda sonora de tantos momentos, e a tua visibilidade e orgulho ajudou os miúdos LGBT dos anos 90, como eu, a perceber que não estavam sozinhos." Esse sentimento de gratidão pode ser encontrado em muitas mensagens de fãs anónimos colocadas durante o dia de hoje nas redes sociais.

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