Galeria Zé dos Bois celebra 18 anos

A associação cultural Galeria Zé dos Bois (ZDB) termina esta semana, em Lisboa, as comemorações de 18 anos de vida, para recordar que os objetivos continuam os mesmos, "com uma ética definida", mas num tempo diferente.

O edifício branco, por entre bares e restaurantes do Bairro Alto, parece inabitado durante o dia - por oposição ao bulício da noite -, mas é lá que se produzem e acontecem atividades em torno das artes visuais contemporâneas, para um público "que tem vontade de conhecer o mundo e de descodificar a arte", disse à agência Lusa o programador Natxo Checa.

"A ZDB não é uma estrutura com uma estética definida, mas com uma ética definida face ao trabalho que desenvolve. E faz com que haja uma grande gama de pessoas diversas, que vão da arte pop à arte pós-conceptual, que respeitam o trabalho da ZDB por essa ética", explicou.

Neste tempo de maioridade, a ZDB acolhe residências artísticas, assume o papel de produtora e de promotora de investigação nas artes performativas, tendo colaborado, nestes anos, com artistas como João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Alexandre Estrela, Rafael Toral, Mala Voadora e Primeiros Sintomas, Animal Collective e Gabriel Abrantes, e, mais recentemente, com Thurston Moore, Lee Ranaldo e Kim Gordon, todos eles dos Sonic Youth.

Natxo Checa recorda que, em 1994, ano de fundação, a ZDB foi criada como "uma plataforma de criação e difusão" dos trabalhos dos fundadores: "Éramos uns putos e tudo parecia despontar".

Nesse ano, Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, já existia o Centro Cultural de Belém e a cidade preparava-se para acolher, no final da década, a Exposição Universal.

"Somos de uma geração onde as questões de género, de pós-modernindade fazem parte do discurso. Havia essa vontade de fazer o aqui e agora", resumiu o programador.

A associação recebe cerca de 100 mil euros de apoio da Direção Geral das Artes, o que representa 20 por cento do orçamento da estrutura, e contabiliza 20 mil visitantes por ano, muitos deles crianças do bairro e da zona da Baixa Chiado, que mostram depois aos pais o que é a ZDB.

Os objetivos de produzir, criar e difundir "objetos artísticos" mantém-se desde sempre, mas Natxo Checa esclarece: "A ZDB não é um sítio de vanguardas nas artes. É uma estrutura que tem que se reinventar a cada segundo para não ser esmagada por um sistema - que faliu - económico, intelectual, de postura social".

Por isso, o programador é muito crítico em relação a uma "atitude absolutamente paternalista e pretensiosa" do Estado perante a cultura, que é feita por iniciativa privada, como é o caso da Zé dos Bois.

"[O Estado] devia tratar [a cultura] como se fosse um tecido empresarial; quanta gente movimenta, quantas coisas produz, onde é que estas coisas vão parar. Nós estamos a trabalhar com artistas em que o produto vai para a Tate; é diferente se eu estou a trabalhar com artistas em que o produto vai parar ao Seixal. Sem desmerecer o Seixal", exclamou.

O programador considera que o trabalho da associação cultural "se inicia na rua, no bairro, na cidade, no país e no mundo. É porque os conteúdos culturais com os quais lidamos são universais".

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