Frankenstein: o monstro no grande ecrã

O romance gótico de Mary Shelley conquistou o cinema de género. A lista de adaptações já vai bastante longa

"Estamos prestes a revelar a história de Frankenstein, um cientista que procurou criar um homem segundo a sua própria imagem, sem contar com a ajuda de Deus. É um dos contos mais estranhos alguma vez narrados. Lida com os dois grandes mistérios da criação: vida e morte." Estas são palavras do ator Edward Van Sloan na introdução de Frankenstein - O Homem Que Criou o Monstro (1931), de James Whale, antes mesmo de os créditos de abertura do filme começarem a correr no ecrã. Num certo sentido, é a melhor definição rápida da obra-prima de Mary Shelley, ou, pelo menos, aquela que ficou assimilada culturalmente. Mas há muito mais no interior do livro. Sobretudo no que respeita à dimensão biográfica da escritora, que a produção que chega na próxima semana às salas portuguesas - Mary Shelley - se empenha em contextualizar.

O Homem Que Criou o Monstro foi o primeiro e mais emblemático filme sonoro baseado no igualmente primeiro romance da autora inglesa (escrito com apenas 18 anos) e funcionou como uma espécie de farol para as vindouras adaptações cinematográficas. Whale, que já de si tinha como fonte narrativa uma peça de Peggy Webling - a versão teatral de Frankenstein -, filmou esta desventura humana do monstro, interpretado pelo eterno Boris Karloff, com uma economia e uma expressividade visual que deixam no espetador a sensação de ter atravessado um poema em crescendo (o entusiasmo científico, o ato da criação e, por fim, o despertar do monstro e o medo geral).

A este filme seguiu-se A Noiva de Frankenstein, ainda de Whale, e em 1939, realizado por Rowland V. Lee, foi a vez de O Filho, sempre com Karloff na representação icónica do monstro.

A par do mestre James Whale, o britânico Terence Fisher, da Hammer Films Productions, foi um dos grandes entusiastas da personagem nascida na literatura de Shelley, tendo assinado três filmes de uma linha de terror mais romântico: A Máscara de Frankenstein (1957) - este com Christopher Lee na pele da criatura -, O Barão Frankenstein (1969) e Frankenstein e o Monstro do Inferno (1974).

A lista foi crescendo, incluindo várias apropriações temáticas e produções televisivas, e é hoje muitíssimo extensa. Mas nem só de "horror" se fez a abordagem ao romance gótico de Shelley. O tema atraiu também a dupla cómica Abbott e Costello, que, no final dos anos 1940, juntou num só filme Frankenstein, Drácula e o Lobisomem, para uma das suas célebres performances humorísticas. No entanto, a mais arrojada paródia com este universo foi Frankenstein Júnior (1974), de Mel Brooks.

Além de Kenneth Branagh, que realizou Frankenstein de Mary Shelley (1994) no seu jeito de "bom aluno das adaptações", à procura do espírito do livro, pouco mais se tem feito recentemente que mereça evocar o nome da autora. Temos, por exemplo, Victor Frankenstein (2015), de Paul McGuigan, com Daniel Radcliffe e James McAvoy, mas é como tantos outros: apenas retalhos de uma ideia original. Retalhos, sim, como o próprio corpo do monstro.

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