Figuras de pedra nascem todos os dias junto ao Tejo

O alemão Johann Egger faz esculturas efémeras com os materiais que encontra

São como figuras feitas de pedras, um povo que ser ergue dos rochedos, na Ribeira das Naus, entre o muro e o rio Tejo. Um rapaz de cócoras, com as mãos sujas do pó das rochas, quase imóvel, tenta equilibrar pedra sobre pedra, enquanto os turistas param para lhe tirar fotografias, admirar-lhe a paciência, deixar-lhe umas moedas.

Johann Egger tem 24 anos e é alemão, de Berlim. Chegou a Lisboa em setembro do ano passado, pela mão do programa Erasmus, para estudar Física no Instituto Superior Técnico, conta num português quase perfeito. "Lisboa é uma cidade que tem muitas opções. Vi muito espírito criativo", diz. Nestes últimos meses, aproveitou quando não estava a estudar para viajar por todo o país. "Gosto de interagir com os sítios, quando viajo é importante fazer coisas e não apenas ver." Foi quando estava numa praia rochosa na ilha de São Miguel, nos Açores, que Johann começou a brincar com as pedras, empilhando-as. A partir daí tornou-se irresistível. "Quando via pedras queria experimentar fazer qualquer coisa. Tornou-se uma brincadeira."

Fê-lo nos Açores e na Madeira e há três semanas encontrou o seu "parque de brincadeiras" junto ao Cais das Colunas. Não vem todos os dias nem fica muito tempo. Há alturas em que as pedras estão tapadas pela água, há dias em que está demasiado vento, noutros simplesmente não lhe apetece. "Faço isto porque gosto, quando deixar de gostar deixo de fazer. "Para já criou uma página de Facebook a que chamou Sopa de Pedras." Nunca provou esta sopa, mas a receita pareceu-lhe perfeita: "Tal como na sopa de pedra, eu uso todos os materiais que tenho à mão. A pedra é o material principal, mas também uso cordas, restos de lixo, o que encontrar."

Quando voltar a Alemanha, em julho, vai terminar a sua tese sobre células fotovoltaicas orgânicas e gostava de trabalhar na área das energias renováveis. "Não sou artista, sou um cientista. Toda a gente tem um lado criativo, só tem de encontrá-lo", diz. "Todas as pedras são diferentes, únicas, não há duas pedras iguais." Johann trata de as equilibrar o melhor que pode, por tentativa e erro, e pode ficar uma hora para conseguir montar cinco ou seis pedras de tamanhos diversos, de formas esquisitas. É um trabalho de paciência. Se olharmos as esculturas podemos encontrar homens ou mulheres, mas ele garante que não representam nada de especial. "Não importa o resultado, importa o processo."

Às vezes, as estruturas só se aguentam uns segundos antes de caírem. Outras vezes ficam umas horas. Quando volta, no dia seguinte ou uns dias depois, pode não encontrar nada. Tem de começar tudo de novo. "Isso não me deixa triste. É uma arte efémera. É assim que é." E depois de uma pausa: "É assim que tem de ser."

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