Festival de Toronto arranca com os olhos postos nos Óscares

"Manchester By the Sea" é o primeiro grande estrondo do Festival que arranca com a temporada dos prémios. "Snowden", de Oliver Stone, é também um triunfo declarado

Um festival que marca a nova temporada e dá balanço para os Óscares. Já se sabia isso em relação ao Festival de Toronto, mas esta edição 41 vem com um hype ainda maior, sobretudo num ano em que são muitos os filmes a querer vaga na temporada dos prémios. É em Toronto que tudo se joga.

Hollywood aposta muito nos primeiros dias do festival, nomeadamente no primeiro fim de semana, onde a imprensa americana pode destruir ou alavancar um título. Foi o que aconteceu o ano passado com a euforia em torno de O Caso Spotlight, de Tom McCarthy (venceu o Óscar de melhor filme), Quarto, de Lenny Abrahamson e Brooklyn, de John Crowley. Este ano há mais dúvidas mas já há uma série de títulos bem lançados, nomeadamente O Nascimento de Uma Nação, de Nate Turner, Animais Noturnos, de Tom Ford, ou Moonlight, de Barry Jenkins.

Sensação do primeiro dia foi sem dúvida o novo filme de Kenneth Lonergan, Manchester By the Sea, uma tragédia americana que vinha com críticas arrebatadoras do Festival de Sundance, em janeiro passado. Além de ser neste momento o primeiro grande favorito aos Óscares de 2017, é seguramente um dos triunfos mais notáveis do cinema independente americano dos últimos anos. Um acontecimento que também garante desde já a entrada na corrida aos prémios de interpretação para Casey Affleck, aqui um homem divorciado que regressa à sua terra natal depois da morte do irmão. Será confrontado pela necessidade de ficar tutor do seu sobrinho adolescente e tentar encontrar um caminho novo para a sua vida, após a tragédia que lhe roubou as suas três filhas.

Lonergan tem ambições desmedidas: fazer o grande melodrama americano com caução literária e, ao mesmo tempo, resgatar o peso da tragédia clássica. É uma empreitada vencedora e que é capaz de remeter para um sopro revivalista de um certo cinema dos anos 1970, nomeadamente através de um realismo contido. Manchester By The Sea lembra o tom solene do seu primeiro filme, o genial Podes Contar Comigo (estreado em 2000) e a colossal intimidade de Gente Vulgar (1980), de Robert Redford. É uma obra sussurrada com personagens dilaceradas que nos contaminam com dor. Um filme tristíssimo e de uma elegância majestosa. A banda sonora com música de Händel seca-nos as lágrimas e dão-lhe boleia para o estatuto de "novo clássico". Está adquirido para Portugal.

Também já visto está Snowden, de Oliver Stone, cujo caráter político acérrimo não o coloca na rota da consensualidade. Aqui em Toronto ninguém o põe na tal rota dos prémios. Stone tem aqui o seu melhor filme em anos. Uma biografia de Edward Snowden com uma sobriedade espantosa - o homem que denunciou o sistema de vigilância dos serviços secretos dos EUA não é glorificado ou julgado. Stone apenas segue as suas ações.

Claro está que o cineasta de JFK e Platoon não quis fazer um biopic puro e simples. No limite, é uma declaração sobre os anjos caídos desta América de hoje, mas o que nos deixa KO é a imensa parábola sobre a intimidade. A vida de Snowden, que aparece de forma cinematográfica quando não estamos à espera, é o paradigma dos desígnios daquilo que se entende como patriotismo americano. Não é por acaso que a estreia desta denúncia acontece num festival em solo do continente americano. Afinal, Snowden já estava concluído há quase um ano e poderia ter feito Cannes, Berlim ou Veneza. Stone fez um espetáculo moral para os americanos. Um espetáculo sem medo de expor marcas de thriller de teoria de conspiração. Portugal vai ser um dos primeiros países a descobrir esta teoria, já no próximo dia 22.

Até dia 18, o festival vai viver da mistura de atenção mediática dos filmes com "tapete vermelho" e descobertas de cinema de autor, onde Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues joga grande parte das suas ambições de internacionalização. Para já, chega a Toronto sem agente de imprensa e sem a presença dos produtores portugueses (a estreia em Portugal acontece a 20 de outubro).

Em Toronto

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Premium

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.