Falar de Raul (e outros arquitetos) com vista para a baía de Cascais

A Casa de Santa Maria, uma das casas mouriscas que Raul Lino desenhou, abre as portas para um curso livre sobre arquitetos da primeira metade do século XX. Começa hoje

"É preciso ver que não existia aqui nada", diz Maria do Carmo Andrade, coordenadora da Casa de Santa Maria, no coração de Cascais, no terraço, "a melhor vista da casa", olhando para o mar em frente e para a marina. Quando esta casa nasceu, em 1902, "tinha a baía a seus pés", explica. Não existia cimento a tapar a vista e os seus habitantes usavam umas escadinhas para tomar banhos no mar.

A casa foi feita para Maria Thereza O"Neill, uma das filhas de Jorge O"Neill, quando ela se casa com António Avillez, e é um dos primeiros projetos do jovem Raul Lino, acabado de completar os seus estudos em Inglaterra e na Alemanha, onde recolheu a influência do movimento inglês Arts & Crafts e do amor pelo património com o arquiteto alemão Albrecht Haupt. Conhecem-se-lhe outros três donos. José Lino, irmão do próprio arquiteto, para quem faz um aumento da casa em 1912, Manuel Ribeiro Espírito Santo e, desde 2004, a Câmara de Cascais, que a abriu ao público e tomou em mãos a decisão de a dinamizar, a partir da obra do arquiteto. Neste ano promovem o curso livre "Entre Arquitetos. Raul Lino e a Arquitetura Portuguesa da 1.ª Metade do Século XX", que começa hoje, às 18.00 (programacompleto ao lado) e repete sempre às quartas-feiras.

A Casa de Santa Maria é uma das casas de Raul Lino a que os livros passaram a chamar de mouriscas, a partir das janelas ogivais com tijolo burro, que o artista fez nesta época. Começa na Casa Monsalvat e continua na Casa de Tânger e na Silva Gomes. Janelas, e outros detalhes, que traduzem uma viagem "muito importante", segundo Maria do Carmo Andrade. Quando o arquiteto e o aguarelista Roque Gameiro fazem uma viagem pelo Alentejo de bicicleta. A essa soma-se outra, precisamente a Marrocos.
"Raul Lino quer estar em harmonia com a natureza", diz, ainda no terraço da casa. A vista confirma as suas palavras. A construção foi feita à beira da escarpa que dá para a praia de Santa Marta. Atrás, só pinheiros. E há o exemplo máximo, a casa do próprio Lino, em Sintra, construída sobre uma rocha, lembra a responsável.

Aqui, em Cascais, são evidentes as influências do movimento inglês Arts & Crafts e de uma filosofia a favor do artesão contra a repetição mecânica, nota Maria do Carmo Andrade, defendendo o autor quando se fala da famosa casa portuguesa. "O que é a casa portuguesa? Materiais portugueses e mão-de-obra portuguesa", afirma. E, quase no final da visita, notando pormenores nos azulejos: "Construir com economia, sem desperdício."

O interior é revestido a azulejos oriundos de um convento a entrar em ruínas, em Frielas, da autoria de António de Oliveira Bernardes, um dos mestres desta disciplina. Na sala de estar, de um padrão central numa lareira, replica vários desenhos pelas salas de estar e de jantar. Os azulejos surgem, também, num padrão novo, que não teria dificuldade em passar por moderno.

Em 1914, a casa conhece um novo dono, José Lino. É do seu tempo o salão principal (e maior) da casa, onde vão decorrer as sessões do curso livre, cujo comissariado científico é de Raquel Henriques da Silva, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Maria João Neto, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e de Rui Ramos, da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

Mantêm-se aqui alguns móveis também da autoria de Raul Lino, além daqueles que foram desenhados para as próprias paredes, como um pequeno nicho na sacristia da capela. Essa foi apenas mais uma das atividades em que esteve envolvido este homem que viveu até aos 95 anos. "Fez cenografia para ópera, fez textos, ilustração infantil, azulejo, tapeçaria, artes decorativas", elenca. Além de ter sido responsável pelos Monumentos Nacionais na década de 40.

Nos anos 30, José Lino empresta a casa durante o verão a Manuel Ribeiro Espírito Santo. Reza a história que não queria comprar a casa, mas tinha namoro com Isabel Pinheiro de Mello, da família Arnoso, que vivia do outro lado da praia, na Casa de São Bernardo. No final do verão, o descendente do fundador do Banco Espírito Santo acede a comprar a casa. Casa-se e tem 11 filhos. Durante o tempo que aqui vive recebe, entre outros, o rei Juan Carlos, quando este vive no Estoril.

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